“Imagens e palavras”, por Aurélio Lopes

Foto: GNR

As recentes imagens dos dezoito galgos, pertencentes ao cavaleiro tauromático João Moura, deixados literalmente a morrer à fome, chocou muitos daqueles que veem os animais não apenas como criaturas criadas por Deus para gozo e gáudio dos Homens.

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A explicação dos mesmo tornou ainda mais abominável (se tal é possível) a referida situação. Embora por outras palavras, justificou-se, o dito, com o facto de ser contra a eutanásia e, portanto, não adepto da morte assistida por muito assistida que seja.

E sendo portanto contra a eutanásia vai reduzindo os alimentos aos animais para que estes vão gradualmente morrendo. Literalmente, morrendo à fome!

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Tenho alguma dificuldade em acreditar que isto (que li num órgão de informação), corresponda precisamente àquilo que foi dito. Mas o que é facto é que se não foi assim que o disse foi, pelo menos, assim que o fez.

Fez-me lembrar uma outra imagem que correu recentemente nas redes sociais e que mostra os esforços frenéticos de um toureiro, afanosamente cortando a orelha de um touro, prostrado, mas ainda vivo!

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São as tais imagens que valem mais que mil palavras.

E se os cães que já não podem dar dinheiro a ganhar são deixados (de forma consciente) a morrer de forme, o touro, pelos vistos, para não beneficiar de alguma forma de eutanásia, é também deixado a morrer lentamente. Tão lentamente que a busca frenética do macabro troféu pode ainda ocorrer enquanto o mesmo está vivo.

A justificação de Moura demonstra uma chocante indiferença para com animais que, independentemente do dinheiro que lhe deram a ganhar, face aos quais afinal assumiu responsabilidades quando se tornou dono.

Serve também para exemplificar muita da hipocrisia existente em muitos dos opositores da chamada “morte assistida” ora aprovada no Parlamento.

Que é suportada por uma razão religiosa (como todas as razões religiosas, à partida, estimáveis) mas cujos princípios acabam, muitas vezes, por olvidar as realidades concretas.  Principalmente numa religião que faz do sofrimento e da dor condição de salvação mais ou menos eterna e beatífica.

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Afinal, muitas das pessoas que podem estar em condições de recorrer a tal situação extrema, são seres humanos igualmente deixados lentamente a morrer. E que, apesar de todos os esforços médicos e familiares, se encontram muitas vezes sujeitos às mais completas e humilhantes incapacidades e aos mais atrozes sofrimentos.

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