Quinta-feira, Março 4, 2021
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“Imagens de incêndios que não se podem esquecer”, por Hália Santos

As imagens dos incêndios que temos visto nos últimos dias são devastadoras. Mesmo à distância, é extremamente revoltante!

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Nestas alturas apetece dizer que as penas de um Estado democrático estão desajustadas… Provando-se a culpa dos incendiários, a punição deveria ser implacável. Tal como deveria acontecer noutros casos. Por exemplo, no caso dos pedófilos. Somos um povo tolerante. Talvez demasiado…

Pois, mas o problema é que, com relativa frequência, quem cumpre é que é penalizado. Imagina o que é veres as tuas coisas a arderem. Imagina o que é pensares que não mereces. Imagina o que é veres a tua vida voltada do avesso por causa de alguém, que nem sabes quem é, que decidiu cometer um ato irresponsável.

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Eu não consigo imaginar-me nessa situação. Porque tudo o que imagino é demasiado mau. Ver arder a própria casa ou pinhais que são forma de sustento é inimaginável. Mas as pessoas que passam por essa situação acabam por ter reações fantásticas. O Presidente da República ficou surpreendido com a população da Madeira. Esperava encontrar gente desesperada e encontrou gente cheia de força para a fase da recuperação. Isso é notável!

O ser humano tem dessas coisas. Essa capacidade de dar a volta, de pensar que podia ter sido pior, é, de facto extraordinária. Coloca-se em prática o provérbio que diz que ‘não vale a pena chorar sobre o leite derramado’. Nestes momentos, parece que tudo se vai resolver.

O que me incomoda é o pressentimento de que, daqui a seis meses ou a um ano, quando os jornalistas decidirem fazer um balanço, numa data redonda, as notícias nos falem de gente que perdeu tudo e que não conseguiu reconstruir nada. A velha história das promessas feitas a quente e depois esquecidas…

Infelizmente, este tema dos incêndios é um conjunto de histórias que não são novidade. Os incendiários ou não são apanhados ou não pagam como deviam. Os bombeiros fazem o possível e o impossível. Os políticos desdobram-se em acusações aos anteriores. Os atuais responsáveis tentam convencer a opinião pública de que todos os meios estão a ser utilizados. Os supostos especialistas voltam à televisão para dizer que continua muito por fazer. Surgem acusações de interesses económicos.

Sim, é sempre a mesma coisa. Se não fosse um assunto sério demais, apetecia esquecer que está mesmo a acontecer… Mas esquecer as tais imagens do fogo e da destruição, sejam dantescas ou não, é impossível.

Como deveria ser impossível esquecer que este é mesmo um assunto de interesse nacional, que deveria ser assumido como tal. O problema é que agora toda a gente se mostra solidária, mas depois é um tipo de assunto que não dá votos.

Gastar dinheiro com prevenção e com educação parece que é politicamente ingrato. Mas é isso que distingue um país civilizado de um país que não sabe definir prioridades… Parece é que, nesta matéria como noutras, ainda não decidimos o que queremos ser!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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