” Igreja Matriz de Atalaia, Vila Nova da Barquinha, um dos mais belos exemplares da arquitetura renascentista em Portugal”, por Fernando Freire

Igreja Matriz de Atalaia, Vila Nova da Barquinha.

A Igreja Matriz da Atalaia foi mandada edificar cerca de 1528 por Dom Pedro de Meneses, Conde de Cantanhede, e a sua traça foi elaborada por João de Castilho, mestre asturiano, sendo os programas decorativos do portal principal e do arco cruzeiro da autoria de João de Ruão, naquela que é uma das primeiras obras feitas pelo mestre normando em Portugal. Lembro que estes mestres foram coautores de obras que são hoje património mundial da humanidade de que são exemplo: o Mosteiro do Jerónimos, o Convento de Cristo e o Mosteiro da Serra do Pilar.

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“Os nossos olhos são como janelas,

por onde entra a tua luz e nos foge,

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às vezes, a alma (…).”

Emílio Miranda, em “Os Autos da Barquinha”

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Já existiam templos na Atalaia antes de 1528, pelo menos desde o reinado de D. Pedro I, 1357 a 1367, pois pela morte de Dom Lourenço Rodrigues, Bispo de Lisboa, em 1364, o rei manda proceder ao inventário constando da relação de bens a Igreja da Atalaia. 1

O Professor Dr. Vergílio Correia, no Diário de Coimbra, de 9 de fevereiro de 1942, defende que a igreja edificada em 1528, terá sido renovada, ideia que o historiador Pedro Dias, em tempos mais modernos, mantém. Haveria, portanto, no mesmo lugar, um templo anterior que com uma imagem do século XIV, de Nossa Senhora com o menino ao colo. Não fico convencido com este argumento até porque a mesma poderia, com facilidade, ser deslocalizada de ermida ou matriz confinante.

Na vila da Atalaia para além da atual Igreja Matriz, levantaram-se outros templos dedicados à virgem Maria como eram exemplos a Capela de Nossa Sr.ª da Esperança, a Capela de Nossa Sr.ª da Ajuda, a Ermida de Nossa Sr.ª dos Remédios (Moita) e a Ermida de Nossa Senhora do Reclamador, na Barquinha. Estes templos marianos demonstram a grande devoção dos nossos antecessores pela padroeira e Rainha de Portugal. Para além dos templos marianos achavam-se dentro da vila da Atalaia a Ermida de S. Sebastião, talvez a primeira matriz, e a Capela de Nossa Sr.ª da Esperança, ambas já desaparecidas. 2

E fora da vila, nos seus arrabaldes, situavam-se a Ermida de S. Luís, também já desaparecida e a de Nossa Sr.ª da Ajuda (Senhor Jesus da Ajuda), em que se venera a milagrosa imagem do Sr. Jesus, com uma romagem todas as sextas-feiras do ano, da qual foi instituidor um homem particular chamado Nuno Velho.

*Cabeça de animal descarnado, decorado com elementos da Festa. Pretende homenagear as hecatombes (animais dados em sacrifício), comuns na Antiguidade Clássica. São frequentes na arquitetura religiosa da Renascença. Encontra-se na igreja matriz da Atalaia, precisamente, no intradorso do pórtico principal. (Foto e texto de Cardoso, Ana Paredes)

O elemento que merece maior destaque na Igreja da Atalaia é o seu portal, que alberga as figuras de São Pedro e São Paulo, enquadrando arco de volta perfeita encimado por entablamento repleto de motivos grotescos que ladeiam a pedra de armas de Dom Pedro de Meneses.

No exterior, a frontaria da Igreja da Atalaia apresenta-se graciosa, sobressaindo no monumento o seu pórtico principal, verdadeira obra-prima da Renascença com o seu arco de volta redonda, nobremente ornamentado. Dois anjos amparam o escudo de armas do fundador, com senhorio em Cantanhede, e Conde da Atalaia, título nobiliárquico criado em 1479, pelo Rei D. Afonso V. Quatro medalhões foram esculpidos com bustos, dois ladeando o arco, com as figuras de um jovem e um guerreiro (o fundador?), outros inseridos na base das pilastras, mostrando um homem e uma mulher.

Portal

Ao entrarmos no interior do monumento, do lado esquerdo, apresenta-se a capela batismal. Aqui podemos observar a pia batismal de pedra, com taça circular assente em base quadrada. Na guarda dos santos óleos, edícula de pedra da região de emoldurado simples que envolve na base duas caras disformes de pedra. Sobre o litel um leque concheado acompanhado de grossos acrotéreos (pedestais das figuras, sobrepostas na frontaria) decorados com ligeiro relevo. Fecha a edícula um bonito jogo de grade de ferro, com três ordens sobrepostas de pequenos balaustres.

Nas laterais apreciamos os seus azulejos policromados, amarelos e azuis, de grande efeito artístico do século XVII (1630-1660). Frequentemente, local de visita por parte de estudantes holandeses, a quem este tema interessa de sobremaneira. O conjunto azulejar compreende duas tipologias de azulejaria distintas: a de padrão e a figurativa. A diferença entre estas duas reside na intenção ornamental, isto é, enquanto os azulejos de padrão se destinavam a uma decoração abstrata; os figurativos pretendiam transmitir uma mensagem catequizando os fiéis através da imagem. O azulejo serviu assim para narrar episódios bíblicos, relembrar milagres e mostrar a exemplaridade de figuras santas. 4

Na parte alta do templo vêem-se 9 painéis, de 100cm x 90cm cada, incluindo a cercadura de cadeia. As cenas do Antigo Testamento figuram no topo das paredes, intercalando com as janelas que iluminam o templo. Estes painéis pretendem ilustrar os primeiros versículos do Livro dos Génesis:

a)            A Santíssima Trindade (este sobre o arco triunfal).

a)            A criação do Homem.

b)           Adão e Eva no Paraíso

c)            Eva colhendo as maçãs.

d)           Adão e Eva expulsos do Paraíso.

e)           Caim matando Abel.

f)            Construção da arca de Noé.

g)            Dilúvio.

h)           A arca no monte Ararat.

As naves laterais do templo são cobertas por 7 painéis com cenas do Novo Testamento:

a)            Nossa Senhora Assunção;

b)           Baptismo no Jordão;

c)            Santa Catarina e São Domingos;

d)           Alegoria Eucarística – esta muito notável;

e)           Cena da Circuncisão;

f)            O Milagre da Mula;

g)            Nossa Senhora da Ascensão.

(alegoria eucarística)

No arco da capela-mor, podemos vislumbrar um painel da Santíssima Trindade, com as figuras do Pai (um idoso de barbas), do Filho (figura de Jesus) e do Espírito Santo (uma pomba). Esta série de painéis azulejares foi mudada do seu original local e alterada a ordenação, a qual se apresentava menos respeitosa da cronologia bíblica. Foram estes trabalhos efetuados quando da reparação e reintegração da igreja feita em 1941. 3

A meio do templo podemos vislumbrar um púlpito à base de pedra, oitavada, com data de 1674, que se encontra assente em mísula de taça e voluta, tudo de muito bom desenho e com balaústre fino feito de pau santo.

No altar mor podemos vislumbrar o monumento funerário de Dom José Manoel da Câmara, segundo Patriarca de Lisboa. Dom José era nono filho de Dom Luiz Manoel de Távora, quarto Conde de Atalaia e Senhor de Tancos e de D. Francisca Leonor de Mendonça. Terá nascido em 25 de dezembro de 1685 segundo testemunho do prior ao tempo da Atalaia, Bernardo Marques de Carvalho, conforme consta das Inquirições paroquiais de 1758. Foi batizado na Igreja da Atalaia no mês seguinte, no dia 6 de janeiro de 1686. Estudou em Coimbra. Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Atalaia e foi eleito Patriarca de Lisboa em 7 de março de 1754. Segundo o jornal Gazeta de Lisboa, Dom José fez a sua entrada solene na patriarcal no dia 7 de setembro de 1754 e durante 3 noites sucessivas iluminaram-se todas as ruas da cidade de Lisboa para celebrar este acontecimento e eleito Cardeal a 10 de abril de 1747 por Bento XIV. Governava a patriarcal aquando do terramoto de 1755. De mencionar que é o único Cardeal que não está sepultado no Panteão dos Cardeais, por razões de incompatibilidade com o Marquês de Pombal devido à perseguição deste último aos Jesuítas o qual Dom José Manoel se lhe opôs vindo, portanto, e em consequência, “tomar ares para a sua quinta na Atalaia”.

Os seus restos mortais encontram-se sepultado por debaixo do altar-mor e não estão no monumento funerário mandado construir por D. Constança Manoel, Marquesa de Tancos e sobrinha do patriarca e que na data da morte do prelado era herdeira da Casa da Atalaia. A sobrinha, para demonstrar a sua gratidão, honrou-o na morte com a construção de uma sumptuosa sepultura no lugar mais nobre da Igreja. Para João Soalheiro e Celina Bastos, que fizeram a investigação sobre a vida do Cardeal, a obra poderá ser do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira ou do arquiteto Joaquim de Oliveira, a quem é atribuído a obra da Igreja das Mercês em Lisboa, construída entre 1753-1803. 5

(Patriarca D. José Manoel, pintura a óleo, coleção privada dos descendentes dos condes de Atalaia- Tancos e monumento funerário)

O túmulo é feito em pedra da região, em forma de capela, envolvendo um argo cego de fundo talhado, onde encrava a pequena arca tumular. Sobre o arco há um agradável conjunto com o símbolo de armas do patriarca, arma dos Manoeis, com a teara e dois ramos patriarcais. Nas histolibatas leões rompantes. No monumento consta a seguinte inscrição em baixo relevo (tradução do latim): “D. José. Manoel I, Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana, Patriarca da Santa Igreja de Lisboa. Regeu o Patriarcado durante 4 anos, 1 mês e 19 dias. Viveu 72 anos, 6 meses e 14 dias. Faleceu no ano do Senhor 1758, no dia 9 do mês de julho. Descanse em paz.»

Na Igreja da Atalaia releva, ainda, a capela-mor. Aqui podemos apreciar a abóboda de nervuras, estreladas que morrem em elegantes mísulas (ornato, que ressai de uma superfície, geralmente vertical, e que sustenta um vaso, um busto, um arco) relevadas. No fecho da abóboda uma pedra circular, com cruz floral em relevo, sobre o qual assenta o escudo de armas dos condes da Atalaia.

O altar-mor é figura proeminente a imagem da Virgem com o Menino, possivelmente elaborada no início do século XVI, por Diogo Pires, o Velho.6

Questão deveras curiosa é a questão da padroeira da Atalaia. Hoje temos por convicção que é Nossa Senhora da Assunção. Porém, a imagem de pedra de Nossa Senhora com o menino ao colo, de boa escultura, atribuível a Diogo Pires o Velho, que assenta numa mísula renascença é a figura central na Igreja. Ora a padroeira devia ter lugar de destaque. Assim não acontece aqui neste templo. Singular é dizer que nos painéis de azulejos inferiores há duas imagens da Virgem que caracterizam o antigo oráculo e o novo, Nossa Sr.ª da Rosário e Nossa Sr.ª da Assunção, respetivamente.

O povoamento de Portugal coincidiu com um grande incremento da devoção mariana motivada pelo ideal cavalheiresco da idade média de exaltação da mulher, cujo protótipo perfeito era a Virgem Maria. Era, por conseguinte, lógico que Maria Santíssima fosse escolhida para padroeira de quase metade das igrejas das terras sucessivamente incorporadas no território português e que, também, a Igreja da Atalaia o seja.7

Nos altares laterais existem edículas de cantaria com finíssimos coluneis exteriores, assentes em mísula e com motivos florais, no lado esquerdo, e com cabeças humanas nos capitéis, no lado direito. Jambas, curiosamente, trabalhadas com figuração humana em três ordens sobrepostas parecendo tratar-se de simbologia ateia ou não bíblica mas de sentido hermético ou esotérico. Com estamos a falar de uma obra experimental o ensaísta podemos afirmar, com grande probabilidade, que os artistas estiveram a testar a pedra da região deixando belas representações nos altares laterais.

Por último, para um visitante atento aos pormenores, verificamos que diversas marcas de cantaria encontram-se gravadas na Igreja da Atalaia. A gliptografia (gravação na pedra por incisão ou relevo) em Portugal constitui um caso de estudo, mas, inexplicavelmente, esta permanece uma área que pouca atenção tem despertado aos nossos investigadores.

Localizam-se estas marcas em vários sítios do monumento nacional da Atalaia e que escaparam, até agora, à extinção. Podemos vislumbrá-las, entre outros locais: na torre sineira da igreja, na parede e contraforte de cunhal da fachada principal, na cabeceira do lado norte e também no seu interior, na arcaria do lado esquerdo e do lado direito da nave central. Questão: as marcas de canteiro ou siglas gliptográficas surgem no interior e exterior e exprimem, afinal, o quê? 8

Existem várias teses com o objetivo de clarificar o significado e a função destas marcas de cantaria havendo quem defenda que:

– Constituem o alfabeto de uma língua mágica e esotérica de origem caldaica, destinando-se a exercisar toda a casta de malefícios;

– Não passariam de sinais utilitários gravados pelos canteiros para indicar a exata posição, colocação, localização e altura, bem como o adequado ajustamento dos silhares aparelhados;

– Seriam marcas feitas pelos canteiros como assinatura pessoal com o fito de assinalar o trabalho realizado por cada um e permitir a contabilização do salário em conformidade;

– São marcas individuais, reportando-se ao nome de cada pedreiro (inicial ou monograma), às respetivas crenças e devoções (objeto simbólico ou alegórico), ao seu estado social (instrumento profissional), à data da realização do trabalho (signo astrológico);

– Reproduziriam sinais franco-mações adotados pelos pedreiros para seu mútuo reconhecimento;

– Poderiam corresponder, em certos casos, concomitantemente ou não com os significados enumerados supra, à assinatura do doador de uma pedra, coluna, abóbora, etc.”. 9

Certo é que estas marcas constituem um mistério que dá lugar a todo tipo de teorias que vão desde as iniciais do nome do canteiro, a indicadores de qualidades da pedra, à assinatura do canteiro para cobrar o preço do seu trabalho, a pedras dadas em doação para a sua construção, a interpretações astrológicas, etc. etc. A opinião maioritária defende que as marcas de cantaria são para justificar o trabalho realizado na obra. Pelo levantamento dos sinais gravados nas pedras da Igreja da Atalaia verificamos que as marcas de identidade são de fácil execução e de traço simples pelo poderão ser o apuramento do valor funcional incorporado tendo o objetivo de assinalar o trabalho realizado por cada um dos canteiros permitindo, assim, a contabilização do seu salário.

A igreja da Atalaia é uma obra experimental, onde se busca já alguma simetria e racionalidade no espaço edificado, embora este resulte algo rudimentar e empregue ainda soluções manuelinas, mas de que se destaca o programa ornamental ao romano, naquela que é considerada a mais inovadora obra do mestre Escultor João de Ruão.

A Igreja da Atalaia é monumento nacional por Decreto n.º 11453, de 19 de fevereiro de 1926. A data, ano de 1528, gravada numa pilastra do lado esquerdo do arco da capela-mor, remete-nos para o acerto da data da sua construção, desconhecendo-se, em concreto, o motivo para a sua edificação. Sabemos que no início do século a Atalaia era um condado com alguma importância pelo que seria normal o templo assegurar o conforto espiritual dos seus fiéis e do seu senhor.

A Igreja é superintendida pela Direção Geral do Património Cultural sendo entregue em uso e administração, à Fábrica da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, nos termos Decreto-lei n.º 11887, de 6/7/1926, para culto católico.

Certo é que no século XXI é um magnífico monumento, digno de visita e de nele serem desenvolvidas atividades culturais.

A alta nobreza artística que distingue esta Igreja, o magnífico tesouro de beleza que lhe legaram os magos da nossa arquitetura quinhentista que fizeram o esplêndido milagre do renascimento português, produto bem decisivo de uma arte a que Portugal deve alguns dos melhores títulos da sua glória, deve ser a Igreja da Atalaia carinhosamente estimada pelo que durante o corrente ano de 2020, será o monumento nacional requalificado, com projeto e obra a cargo do Município, para nele continuar o culto religioso e para o desenvolvimento de projetos culturais.

1 SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – O quotidiano da Casa de D. Lourenço Rodrigues, bispo de Lisboa (1359-1364†): notas de investigação. Lusitania Sacra. Lisboa. 2005

2 Ambas as capelas se situavam no “Rocyo da villa” da Atalaia, conforme auto de inventário da Junta da Paróquia da Atalaia, 1872-1874, Arquivo Municipal de Vila Nova da Barquinha

3 A Igreja Matriz da Atalaia, Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 24.  Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Lisboa, 1941

4 Cardoso, Ana Paredes, Revista Zahara, n.º 16, Novembro 2010

5 SOALHEIRO, João e BASTOS, Celina – Os Patriarcas de Lisboa, Alêthea, 2009

6 Diogo Pires-o-Velho notabilizou-se no campo da escultura, em Coimbra, executando inúmeras esculturas de Nossa Senhora com o Menino

7 Gonçalves, António Nogueira – A Igreja de Atalaia é a primeira época de João de Ruão, Monografia, Coimbra, 1974

8 Ramalhete, João. A Gliptografia na Igreja de Nª Srª da Assunção, Atalaia, Vila Nova da Barquinha. Arquivo Municipal de Vila Nova de Barquinha, 2011.

9  Gandra, Manuel J., Cadernos da tradição, siglas e marcas lapidares, subsídio para o Corpus Lusitânico, Ano I, n.º 2, 2001.

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