“Hugo Gama no espaço Cá da Terra”, por Sónia Pedro

No passado dia 10.set estivemos à conversa com Hugo Gama. No espaço Cá da Terra, no Sardoal, tivemos o prazer de conhecer o ator, encenador e professor de teatro.

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Ao contrário dos seus irmãos que nasceram em casa, Hugo Gama nasceu no Hospital de Torres Novas, em 1978. E todavia, assume-se como um Riachense, de gema. Terra berço de muitos artistas, foi também nesta vila ribatejana que teve o seu primeiro contacto com o teatro. Sob a direção de Masofi, foi no GRUTAR – Teatro de Riachos, que subiu ao palco pela primeira vez, na Casa do Povo, no papel de Bobo em “El Rei Tadinho no Reino das Cem Janelas” de Alice Vieira. E foi precoce o fascínio, a paixão.

Posteriormente, na Escola Secundária de Torres Novas frequentou a Oficina de Expressão Dramática. A oficina aliada à paciência e calma da professora Helena Flor Dias transformaram o adolescente revoltado, num ator e protagonista.

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E assim seguiu para Coimbra, para estudar Direito. E todavia, da alta Coimbrã para o CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra foi um saltinho.

O CITAC foi criado por artistas que saíram do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (grupo do famoso Paulo Quintela) onde não tinham lugar, fosse pela sua rebeldia ou por serem maus artistas. Nos anos 60/70, numa época em que o teatro estava praticamente estagnado em Portugal devido à censura, e só os grupos de teatro universitário é que tinham oportunidade de contratar, através da Fundação Calouste Gulbenkian, o CITAC teve oportunidade de contratar grandes encenadores de nível mundial. Isto até o grupo ter sido fechado pela PIDE e considerado “Escola de Perversão”.

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Em 2003, e em sequência de Coimbra – Capital Nacional da Cultura começou a trabalhar profissionalmente como ator com a Companhia Camaleão. Fazendo sobretudo digressões, com peças para a juventude e para a infância. Trabalharam, por exemplo, uma adaptação ao teatro do texto de Edwin A. Abbott, “Flatland”.

Mas foi também no decurso da programação de Coimbra – Capital Nacional da Cultura que conheceu Alexander Kelly, encenador dos Thirdangel (Grupo inglês), e que se encontrava por cá a realizar Workshops de Teatro. E assim, foi a partir do contacto com este professor de Performance da Universidade de Leeds Beckett, conheceu o “Devising”. O “Devising” é uma técnica de composição a partir da cena, ao contrário do que se faz tradicionalmente em que o autor escreve o texto e depois chega ao palco. Esta técnica de composição e escrita cénica é realizada ao contrário: começa-se a improvisar e normalmente o dramaturgo ou outras pessoas vão tirando notas e escrevendo o texto. Constrói-se assim o texto com os atores.

Em 2011, concluiu o Mestrado em Estudos de Teatro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e optou por fazer um estágio no Teatro O Bando, pois a pessoa que encenava o grupo trabalhava máscara – outra das suas grandes paixões. Foram seus mestres na metodologia da máscara Mário Gonzalez e Filipe Crawford.

Mais tarde, em 2013, estreou-se como encenador com a peça “Kabarett”, novamente no CITAC. “Kabarett” consistiu um espetáculo multifacetado, composto por números, e com uma forte componente burlesca, erótica e satírica. Na cena, iluminada com recurso a vídeo mapping, os atores moviam-se – num ambiente de Kabarett contemporâneo. Agarrou esta oportunidade para desenvolver o “Devising” e a Improvisão, e todos os números foram criados pelos atores.

Em 2014 encenou também “A Cadeira” para a Crème de la Crème, uma Companhia de Almada.

Neste caso trabalhou o solo de um Clown, que não é o palhaço do circo, mas o palhaço teatral.

A atriz, Anabela Mira foi a Doutora Palhaça, da Operação Nariz Vermelho. “A Cadeira” é uma peça sobre o PODER. Sobre o poder que a cadeira exerce sobre uma pessoa normal e singela, um simples funcionário, que imediatamente se começa a transformar num ser quadrado e retilíneo como a própria cadeira. E sobre a vitória da cadeira conquistada após uma luta ferocíssima.

Este foi o mote para a peça em que está a desenvolver agora: “Segundo Esquerdo um Teto para Dois Mundos”. Desta vez trabalha com dois Clowns: Anabela Mira e o Pacas – Dr. Chocapic. É uma estória inspirada na vida de Pacas, quando chegou a Portugal nos anos 90, vindo de Angola, e da sua senhoria, que lhe alugava o quarto e fazia a vida negra. Estas produções têm-lhe permitido experimentar e pôr em prática ideias que já tinha, fugindo da linguagem convencional do Clown.

De volta a Torres Novas e ao Teatro Virgínia, encenou em 2015 a peça “Só Há Uma Vida e Nela Quero Ter Tempo Para Construir-me e Destruir-me” a partir do poema de Pablo Fidalgo Lareo.

Esta peça foi integrada no PANOS – Palcos Novos, Palavras Novas, um projeto da CULTURGEST que alia o teatro escolar/ juvenil às novas formas de dramaturgia.

Com inspiração no programa “Connections” do National Theatre de Londres, todos os anos tem apresentado 3 peças novas escritas que podem ser trabalhados por escolas. Sendo um poema, permitiu a interpretação por parte dos jovens, implicando-se no seu trabalho e na sua criação – porque foram eles que criaram as suas próprias cenas. “Porque eu também trabalho dessa maneira. Esta peça foi muito importante (…) fazer uma coisa que é de certa forma um anti-teatro, fazer um teatro descomplexado em que parecemos que não estamos a representar. Não chega a haver personagem. Não chega a haver essa entidade da personagem. Existe é uma voz, uma personagem que é dita, que não é nossa e só isso faz toda a diferença. Hoje trabalha-se muito esta coisa de não haver personagem no teatro. Mas isso não quer dizer que eu não me implique de tal forma com o que estou a dizer, se eu realmente quero destruir-me, quero matar-me, quero morrer, se o texto diz isso, se eu digo que quero morrer, as pessoas podem acreditar nisso. Não tenho que estar a ser um personagem.” (transcrição parcial da conversa).

Atualmente é doutorando em Artes Performativas pela Universidade de Lisboa. É encenador do ULTIMACTO – Grupo de Teatro Universitário da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação da UL, sendo este o seu laboratório de pesquisa e investigação e desenvolve as suas pesquisas sobre o trabalho de ator a partir da metodologia em Máscara e das escritas de cena contemporânea. No campo da improvisação trabalha com o Grupo de Educação e Desenvolvimento Humano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e mais especificamente a desenvolve investigação na improvisação com recurso à máscara.

Para além de tudo isto, atualmente trabalha também como professor de teatro e expressão dramática e tem vindo a realizar atividades de teatro (oficinas, cursos) com crianças, jovens e adultos, nomeadamente em Riachos, Torres Novas, Fátima e Lisboa.

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