Heróis sem máscara | Nuno Passarinho, um sardoalense a transportar mercadorias além-fronteiras

Nuno Passarinho continua a cruzar fronteiras todas as semanas, ao volante do seu camião. Foto: DR

Nuno Passarinho, 37 anos, camionista, natural de Sardoal. Todas as semanas percorre milhares de quilómetros, de Portugal para França, passando por Espanha, dois dos países europeus com mais casos de covid-19. Se pudesse ficava em casa, até porque teme pela mulher grávida, mas faz-se à estrada porque integra aquele grupo de pessoas que permite que nada nos falte no supermercado. É um dos “heróis sem máscara” que decidimos retratar, homenageando todos aqueles que, sem super-poderes, garantem com o seu trabalho alguma normalidade às nossas vidas nestes dias de pandemia.

Nuno Passarinho é camionista desde 2013. Trabalha para uma empresa de Fátima mas vive em Sardoal. A escolha de passar os dias ao volante surgiu pelo exemplo do pai, também camionista de profissão. “Gostava de ir com ele, desde pequeno, e continuo a gostar”, diz ao mediotejo.net. Contudo, se pudesse, neste cenário da pandemia de covid-19, ficava em casa, como recomenda a Direção Geral da Saúde.

Não pode. O transporte de mercadorias obriga-o a fazer-se à estrada para percorrer milhares de quilómetros desde Portugal, passando por Espanha e França, os três países que lhe calharam na tarefa. Só que o novo coronavírus virou o mundo de pantanas, e Nuno Passarinho está entre aqueles que continua de rodas no chão trazendo a todos nós um pouco de normalidade, situação que deixou de encontrar no seu trajeto.

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“Está tudo fechado. Tenho de levar muito mais comida. Algumas coisas que comprávamos pelo caminho agora não podemos comprar, ou não estão ao pé dos nossos olhos”, conta. Nuno explica que os motoristas, nas bombas de combustível onde param para abastecer, não entram nas lojas de conveniência. Ficam do lado de fora e, portanto, nem sequer veem os artigos. A essa dificuldade junta-se a barreira linguística. “Pedir em França e Espanha, onde não se fala a nossa língua, é mais complicado e gera perda de tempo”. Como solução Nuno leva de Portugal produtos alimentares. “É rezar que corra tudo bem para que a comida chegue até ao final da semana”. Nuno faz cargas e descargas em Portugal à segunda-feira, parte à terça em direção a França para regressar na sexta-feira seguinte ou no sábado.

Defende, por isso, a criação de locais de abastecimento para camionistas. Bastava um saco com comida, como já acontece em algumas empresas portuguesas. “Dão um saco com comida, uma sandes, uma maçã e uma água… qualquer coisa. Nas estações de serviço também deveria haver isso. Os motoristas têm de andar, passar… poderia estar numa tenda e apanhávamos um saco com comida, sem ter de contactar com ninguém”, sugere.

Medida “fundamental” uma vez que os restaurantes estão fechados. “Na quarta-feira queria comprar pão e a estação de serviço tinha fechado às 16h00. Se não tivesse qualquer coisa para desenrascar poderia não ter jantado naquele dia”.

Esse é também um factor causador de “medo” para Nuno, que diz ter dinheiro para comprar mas, na estrada, não tem onde. “Por incrível que pareça, ando há três semanas com 20 euros na carteira e ainda não levantei dinheiro e gastei nestas três semana 3 euros”, curiosamente em rebuçados para a garganta, detalha.

Nuno dá conta de ter no seu camião “condições” para aquecer e fazer comida mas garante que em Portugal grande parte dos motoristas recorria aos restaurantes para tomar as refeições e, portanto, não possuem equipamentos que lhes possam valer num momento como o atual.

As medidas de prevenção que Nuno aplica passando a fronteira “são as mesmas que em Portugal: usar máscara, lavar frequentemente as mãos, usar álcool gel. Ter muito mais cuidado quando vou meter gasóleo, sempre a pensar que alguém tocou na mangueira antes de mim, ou numa superfície ou numa vassoura … essa atenção está presente a cada minuto. Coisas que antes nem ligávamos, agora temos especial atenção. Há empresas que adotaram uns procedimentos, outras adotaram outros… é respeitar o que nos dizem para fazer”.

No seu trajeto, ao volante do camião, é “sempre a andar, sem problema nenhum. Infelizmente. Passo as fronteiras e não existe uma abordagem de agentes de segurança, por exemplo para medir a temperatura, para perguntar: como está ou como se sente? Se preciso de alguma coisa…. Nada! É manter o menor contacto com os motoristas”, testemunha.

Sabe-se que ser camionista é uma profissão exigente mas essa exigência agravou-se com a pandemia. Agora existem obstáculos, não à circulação, mas no que toca a condições básicas, nomeadamente de higiene, quando nem um WC consegue encontrar aberto. “Nem uma casa-de-banho, nem uma bomba para comprar pão – ou não está ninguém ou tem um horário curto. Os locais para tomar banho estão fechados… é tudo muito mais complicado”, assegura.

São recorrentes os avisos afixados nas casas-de-banho públicas e locais para tomar duche onde os motoristas são informados do encerramento devido à falta de garantias com a higienização dos espaços.

A empresa para a qual trabalha, com sede em Fátima, continua a laborar de “igual forma, não mudou nada, a não ser o material de segurança, que agora é outro. Mas a forma de trabalhar continua a ser exatamente a mesma”.

Nuno teme trazer para casa a doença. Admite que, no atual contexto, a sua profissão é de risco. “Tenho a minha mulher grávida. Sou obrigado a expor-me, apesar de ter o maior cuidado… esse é o meu pensamento número um”, confessa.

Quando chega a Sardoal, à porta de casa, descalça-se e despe-se. Vai direto para a banheira. Tenta manter “a atitude correta” e diz sentir-se “bem”, até ao momento sem qualquer sintoma que o possa preocupar. “Tive os devidos cuidados, lavei as mãos, não falei para ninguém… vivo com o pensamento positivo de que não fui contagiado, mas sem ter a certeza”.

O cenário também mostra “ruas desertas” em Espanha e França. “Na semana passada notei menos trânsito”, em comparação com as semanas anteriores. “Talvez as pessoas tivessem respeitado mais ou tivessem decretado novas leis. Mas é um deserto! Às vezes lá se vê uma pessoa a andar de bicicleta ou uma pessoa na rua porque vai ao supermercado ou à farmácia. Parece os filmes que vemos na televisão, em que acordamos e está a cidade deserta. É isso que tenho encontrado”, revela.

Um panorama “assustador” que Nuno preferia evitar e ficar em casa. Se, no meio da pandemia, o motorista ficar doente com covid-19, a empresa tem “entre 30 a 40 camiões” a trabalhar, por isso, a distribuição de mercadoria estará assegurada. Mas no caso de vários motoristas adoecerem “já fará com certeza a diferença”.

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