Heróis sem máscara | Joaquim Silva, o carteiro de Abrantes que continua a ir de porta em porta

Joaquim Silva, 58 anos, carteiro há mais de 30, natural de Mouriscas, Abrantes. Todos os dias percorre quilómetros entre as ruas da cidade e as zonas rurais, onde os mais idosos só abrem a porta sem hesitar ao padeiro e ao carteiro. Apesar dos receios, continua a madrugar para que cheguem a nossa casa as encomendas que fizemos online ou aquela carta esperada. É um dos “heróis sem máscara” que decidimos retratar, homenageando todos aqueles que, sem super-poderes, garantem com o seu trabalho alguma normalidade às nossas vidas nestes dias de pandemia. Hoje, dia 9 de outubro, assinala-se o Dia Mundial dos Correios.

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Um pouco por todo o País, os trabalhadores dos sectores prioritários, mesmo em conjuntura desfavorável, encontram formas de minimizar os danos. Só que desta vez lidamos com um inimigo invisível, nota Joaquim Silva. Nas aldeias rurais os mais idosos escudam-se atrás das janelas, das quais espreitam para ver quem chama por eles. E no atual contexto de isolamento social, sem hesitar “só abrem a porta ao padeiro e ao carteiro”.

Joaquim Silva é carteiro há 30 anos. Nos 58 que tem de vida, revela-se mais um profissional sem memória de ter vivido situação semelhante à atual. Perante uma doença infeciosa, como a do novo coronavírus (SARS-CoV-2) que provoca a covid-19, tem de assegurar o serviço postal, a entrega de correspondência (que se mantém), de encomendas (que aumentou), continuar a fazer cobranças (o serviço mais arriscado) e a entregar as pensões de reforma que, no meio de alguns receios até “correu bem”, afirma.

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Os CTT lançaram no início de abril uma operação alargada de entrega de pensões ao domicílio e os reformados receberam “até mais cedo do que nos meses normais”, nota.

Residente em Mouriscas, o carteiro tem como “quartel general” a estação dos CTT no centro histórico de Abrantes “de onde sai tudo”, mesmo para lá das fronteiras do concelho. Desde a declaração do Estado de Emergência, todas as lojas CTT têm estado a funcionar apenas durante a manhã (mantendo o atendimento à porta fechada). Mas os carteiros continuam a trabalhar em horário completo. Apenas no dia 13 de abril Joaquim e os colegas entraram em regime de quarentena.

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Ou seja, dos carteiros contratados, apenas 50% esteve ao serviço, durante 15 dias. “Depois trocamos”, explica. Foi a forma que a empresa encontrou para garantir o serviço postal num território extenso e acautelar a saúde quer dos profissionais, quer dos clientes.

Joaquim agora distribui correio desde o Pego (Abrantes) até Santiago de Montalegre (Sardoal). Com a quarentena e a redução para metade dos trabalhadores no terreno, chega em anexo “o dobro” do território para entregas postais. “Tentamos cumprir, dando prioridade ao mais urgente, mas não conseguimos garantir a 100%”, lamenta.

O agravamento do cenário epidemiológico complicou também as condições de trabalho dos carteiros. Apesar da existência de regras e do seu escrupuloso cumprimento, é nos momentos de interação que residem os riscos.

Como medidas de proteção, os CTT suspenderam a assinatura nos terminais dos carteiros durante o processo de entrega de produtos. Esta medida é aplicada a todos os serviços exceto nas citações ou notificações via postal.

Os carteiros adotaram procedimentos específicos no exercício das suas funções durante os giros, na interação com a população, mantendo a distância, e no manuseamento de objetos, deixando as encomendas à porta, para reduzir o risco de contágio.

Joaquim confirma que a empresa disponibilizou “luvas, máscaras de proteção, viseiras, líquido e gel desinfetante” aos trabalhadores. Mas nesta guerra contra o novo coronavírus, o bom senso é uma arma igualmente importante. “Em lares tento não entrar. Às vezes tenho de pedir aos mais idosos para não se aproximarem tanto. Com cobranças é mais complicado, porque tenho de me aproximar da pessoa para recolher o valor da cobrança e conferir o dinheiro”, refere.

Entre colegas também se tentam manter as distâncias, “mas é quase impossível não ter o mínimo de contacto porque estamos centralizados”, no caso em Abrantes, diz.

Embora com máscara e viseira, Joaquim Silva tem consciência do risco que enfrenta diariamente. “Nunca sabemos quando está uma pessoa contagiada à nossa frente. É um risco com o qual temos de viver, não é fácil… Principalmente quando encontramos pessoas que ‘fugiram’ de Lisboa para as suas segundas habitações. É uma incógnita e um fator de medo. Também temos família!”, lembra.

O carteiro sabe, no entanto, que o seu trabalho é fundamental. “Muitas encomendas são medicamentos que os filhos enviam para os pais idosos. E sabemos que as pessoas estão à espera, temos consciência que entregamos encomendas urgentes… e alguém tem de fazer este serviço.”

*Entrevista publicada em abril de 2020, republicada em outubro do mesmo ano.

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