Heróis sem máscara | João Valente, o padeiro que leva a nossa casa o pão de cada dia

João Valente, 58 anos, meio século a fazer e a vender pão, continua a madrugar todos os dias. É um dos “heróis sem máscara” que decidimos retratar, homenageando todos aqueles que, sem super-poderes, garantem com o seu trabalho alguma normalidade às nossas vidas nestes dias de pandemia.

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Não há filas junto à carrinha de João Valente, e os poucos clientes que aparecem para comprar pão fresco, nos vários lugares da Freguesia de Alvega e Concavada, no concelho de Abrantes, cumprem cuidadosamente a “distância de segurança”… ou quase. Os mais idosos manifestam alguma dificuldade no respeito das regras, admite este padeiro, que vende cerca de 250 pães porta a porta.

João Valente respeita as regras de desinfeção e protege-se para evitar ser infetado com o novo coronavírus, embora não use máscara, nem luvas. Prefere enfiar a mão num saco de plástico novo cada vez que atende um freguês e depois virá-lo do avesso antes de o descartar.

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Desconhece quantos clientes tem em toda a Freguesia, nunca fez as contas. “Embora a Freguesia seja grande tem pouca população, e depois temos a concorrência. Tudo divido, calha ‘uma sopa’ a cada um de nós”, diz ao mediotejo.net.

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O momento agora é para outras contas. Contas às vezes que desinfeta as mãos com álcool, à frequência com que usa a loção de limpeza, contas à distância que mantém dos clientes, contas ao tempo que perde na venda ambulante e ainda no resto da distribuição para outras zonas do concelho de Abrantes e também para o Gavião.

No contexto da pandemia do Covid-19 encontra posições extremadas. “Há de tudo! Muita gente assustada e outros que nem ligam, é um deixa andar. Depende de cada pessoa. Nota-se que os mais idosos são os que se preocupam menos com a doença, são os que menos cuidados têm. É preciso lembrar constantemente” a distância a respeitar, e a necessidade de estar em casa.

Embora grande parte dos clientes de João Valente tenha menos de 70 anos, o território é rural e envelhecido. “Os mais idosos ingressaram nos Centros de Dia que lhes levam as refeições a casa, exceto um ou outro que vive com a família ou aqueles que conseguem viver sozinhos”.

Para João Valente, até ver, “a situação corre bem”, afirma. O padeiro já esperava a pandemia e tenta o que está ao seu alcance para que tudo continue a correr pelo melhor. O objetivo é passar ao lado da infeção. “Nem eu nem os meus funcionários” refere. A padaria, da qual é proprietário em Casa Branca, continua a funcionar quase como habitualmente, não fossem as restrições e os cuidados de higienização aos quais obrigou a Convid-19.

E continuará a vender pão porta a porta no futuro? Não sabe. Preocupa-se com um dia de cada vez. “Amanhã é outro dia e assim sucessivamente. Tenho o cuidado hoje e agora. Se for infetado, tenho quem me substitua. Ninguém é insubstituível! Mas se eu e mais duas ou três pessoas da equipa formos atingidos, o melhor será fechar. Se isso acontecer, outro virá no meu lugar. Da mesma forma se um colega meu precisar de ajuda, eu estarei cá para o ajudar”.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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