Heróis sem máscara | Henrique Ferreira, o senhor dos jornais, do tabaco e da raspadinha

Henrique Pereira, 58 anos, continua a colocar os jornais e revistas na sua banca de Ourém, todos os dias. Mas os clientes, mais do que notícias, chegam em busca de um golpe de sorte e de uma palavra amiga. É um dos “heróis sem máscara” que decidimos retratar, homenageando todos aqueles que, sem super-poderes, garantem com o seu trabalho alguma normalidade às nossas vidas nestes dias de pandemia.

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– Quantas raspadinhas quer?
Na agência comercial “Marina”, em Ourém, o dia vai passando sorrateiro, sem novidades de maior. Tem sido assim nas últimas semanas, relata Henrique Ferreira, 58 anos, que permanece ao serviço em tempos de pandemia. A venda de jornais diminuiu. Já as raspadinhas e o Euromilhões continuam a sair, conforme confirmamos na breve visita que lhe fazemos. Mas é o tabaco, sobretudo, que não parece estar a sofrer com a crise.

Não podem estar mais que quatro pessoas dentro da loja. O aviso pode ler-se por cima das estantes dos jornais e revistas. Henrique Ferreira vai desinfetando as mãos e passando o pano de limpeza pelas bancadas à medida que vão saindo os poucos clientes. O movimento abrandou e quase que não se vê ninguém pela cidade. O que é “bom sinal”, reflete, porque significa que as pessoas respeitam as indicações de isolamento social da Direção Geral de Saúde.

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O estado de emergência nacional não inibe Henrique Ferreira de se manter no seu posto de trabalho, mas ele admite que tem os seus receios. Pode eventualmente já estar ou vir a ficar infetado com o Covid-19, constata. Como os CTT de Ourém só se encontram abertos de manhã, muitas pessoas passam pela loja, do outro lado da rua, para comprar selos, envelopes ou fazer pagamentos via PayShop. Nem sempre, comenta, têm os cuidados de prevenção devidos.

Questionamos pela venda de jornais. As pessoas têm procurado mais informação? Nem por isso. “Os jornais vendem-se menos”, até porque as pessoas de idade, que eram os clientes habituais, não saem tanto de casa. A comprar, adianta, é sobretudo o jornal “Correio da Manhã”.

O que continua a sair é o tabaco, afirma, além das raspadinhas e do Euromilhões. Os poucos clientes que por ali passam enquanto conversamos com Henrique Ferreira vêm exatamente com essa intenção: metem os números do Euromilhões e compram algumas raspadinhas. Alguns tiveram bons prémios ainda recentemente e a conversa vai deslizando pelos caminhos incógnitos da sorte.

Mas também se lamenta o isolamento, a saturação de dias e dias a ouvir as mesmas notícias, a olhar para as mesmas paredes. “Estou tão farta de estar em casa”, comenta uma cliente, deixando-se ficar mais alguns minutos na loja. Henrique Ferreira refere as suas preocupações, que não sabe se não poderá ainda ficar infetado. “Vou já para casa”, acaba a cliente por suspirar.

Nestas curtas conversas, sempre à distância, se vai vivendo a pandemia. As pessoas “vão comentando que custa estar em casa, que têm que vir à rua” para manter alguma sanidade mental, refere o lojista. Assim se passa o dia por Ourém. “Vão ao pão, vêm comprar o jornal e regressam a casa.”

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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