Heróis sem Máscara | A estudante de Sociologia de Belver que passou da teoria à pratica e foi bater à porta dos mais vulneráveis

O Instituto Português do Desporto e Juventude lançou a campanha ‘Apoio Maior’, logo abraçada pela Junta de Freguesia de Belver (Gavião) e por uma jovem estudante de Sociologia: Joana Ferreira, de 20 anos, caminhou pelas aldeias isoladas, batendo de porta em porta, levando a cada idoso uma palavra de conforto, sensibilização sobre o coronavírus e trazendo pedidos de comida, medicamentos e até de ajuda para declarar o IRS… É mais um dos “heróis sem máscara” que decidimos retratar, homenageando todos aqueles que, sem super-poderes, garantem com o seu contributo alguma normalidade às nossas vidas nestes dias de pandemia.

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À semelhança do quotidiano de qualquer um de nós, a vida de Joana Ferreira, de Torre Cimeira (Belver, Gavião) alterou-se de um momento para o outro. O novo coronavírus encerrou o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e, em sobressalto, apesar o medo, mostrou-lhe que podia fazer parte da solução, voluntariando-se através do programa ‘Apoio Maior’, do IPDJ, e ajudando a colocar os mais velhos fora de risco, com algum acompanhamento nestes dias de pandemia.

Foi no regresso a casa que tomou conhecimento deste programa de voluntariado. “Ainda não tinha previsão de aulas, nem tinha Zoom” ou qualquer outra plataforma que permitisse o ensino à distância, e, por isso, decidiu inscrever-se para uma experiência “muito útil”, de 15 dias.

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Joana Ferreira no seu trabalho como voluntária, na freguesia de Belver (Gavião). Créditos: DR

Apesar de conhecer a ruralidade, Joana “não tinha ideia das muitas necessidades alimentares e de saúde” dos idosos da sua freguesia. “Fizemos muitas ações de sensibilização e percebemos que eram muitas as áreas desprotegidas”, com uma população muito envelhecida, em “aldeias muito dispersas” e isoladas. Em Vilar da Mó, conta, “só há um casal habitante”.

 

Inicialmente os idosos mostravam-se receosos em contactar com a voluntária que lhe batia à porta para falar sobre o novo coronavírus, mas depois ficavam gratos pelo espírito de solidariedade. Joana não estava sozinha, deslocava-se acompanhada por um trabalhador da Junta de Freguesia que a conduzia até aos locais mais isolados do território. “Estávamos devidamente identificados, mas percebi que havia um certo receio”, diz.

No entanto, fala de “um apoio essencial”. Principalmente “na aquisição de medicamentos, produtos alimentares, na ajuda a preencher o IRS, que nesta altura é mais uma preocupação principalmente para as pessoas que não têm transporte, e kits de proteção com máscaras e luvas distribuídos por todos os habitantes da freguesia. Recolhia muitos medicamentos que eram necessários, entregava na farmácia e depois o farmacêutico fazia a distribuição. Ou seja, sem este apoio não havia contacto, porque os idosos não ligam” a pedir apoio, assegura Joana.

Com os mais velhos a jovem também trocou palavras triviais, a juntar à missão de sensibilização. “Senti não só a necessidade de apoio mas também de acompanhamento, de uma distração. Além de agradecerem a preocupação, agradeciam a pequena visita. A solidão é um dos principais fatores de vulnerabilidade destas populações isoladas. Se calhar por esta situação, por estarem mais resguardados, nesta questão pandémica, mas é um fator muito negativo”, considera.

As localidades a visitar eram estabelecidas previamente num plano de contacto porta a porta. Joana dispunha de uma lista de habitantes e das respetivas ruas, para uma distribuição diária.

Joana Ferreira no seu trabalho como voluntária na freguesia de Belver (Gavião). Créditos: DR

Ainda há muito para fazer e Joana deu o seu lugar a outro jovem voluntário mas no seu espírito guarda para sempre esta “importante” experiência adquirida em duas semanas a escutar o outro. Destaca “o conseguir suprimir as necessidades das pessoas” e “um sentimento imenso de realização”, ao final do dia. “Sem este apoio as pessoas mais idosas dificilmente teriam acesso àquilo que necessitavam.”

Esta fragilidade global e coletiva, onde se incluiu o medo, não passou ao lado de Joana, que assumiu o risco num compromisso a favor do próximo. Assume que teve alguns receios mas foram ultrapassados quando percebeu que “o projeto está muito bem desenvolvido para proteger” os voluntários do SARS-CoV-2.

Joana Ferreira no seu trabalho como voluntária na freguesia de Belver (Gavião). Créditos: DR

Todos contavam com equipamento de proteção individual e um seguro de acidentes pessoais e de responsabilidade civil. “Senti-me bastante confiante mas, principalmente sendo jovem, não estou nos grupos de risco, e senti que era um grande apoio para a freguesia”, explica.

Este trabalho no projeto ‘Apoio Maior’ foi praticamente uma estreia para Joana Ferreira na área do voluntariado, que no passado havia desenvolvido “pequenas ações” no Banco Alimentar Contra a Fome. “Esta foi a primeira e a principal experiência como voluntária”, vinca.

Um ação que acabou por ajudar também Joana, que nos próximos meses, sem aulas presenciais em Lisboa, permanecerá em Torre Cimeira. “Foi uma aprendizagem pessoal e profissional. Percebi o quanto é importante o papel de contactar diretamente com a sociedade, com os indivíduos, e principalmente de forma presencial, para compreender as realidades e como podemos intervir. O papel interventivo direto é muito importante.”

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