“Halloween” | Histórias de bruxas, abóboras e do Dia de Todos os Santos

Se já está habituado a ver a sua noite de 31 de outubro invadida por bruxas e magos, abóboras com velas e doces em forma de dedo, veja onde e como isto tudo começou e se disseminou pelo mundo e ainda de que formas se comemora nos “4 cantos” do mundo, por vezes com outro nome e até mesmo noutras datas. E este ano, devido à pandemia, que bruxas andarão por aí? 

A História
“Halloween” será a abreviatura de “All Hallows Eve”, sendo que “Hallow” é um termo antigo para “santo” e a tradução literal de “eve” é “véspera”. Nada de novo, o dia 31 de outubro efetivamente é “véspera (do dia) de todos os santos”. Halloween foi o nome oficial do dia 31 de outubro até 1517. Neste ano, com a reforma da igreja católica, Henrique VIII rompeu com Roma e em conjunto com o primeiro-ministro, Thomas Cromwell, promoveu a destruição de estátuas de santos e tentou acabar com tudo o que considerava imoral e desprezava, remetendo os costumes antigos à categoria de ‘superstição’.

Inicialmente o Dia de Todos os Santos era na data do festival romano dos mortos, a 13 de maio. Numa tentativa de cristianizar a festa pagã, em meados do século VIII, o Papa Gregório III mudou a data do Dia de Todos os Santos de 13 de maio para 1 de novembro, curiosamente a data pagã de celebração celta do Samhain (tradução literal: “fim do verão”).

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Na Irlanda, há mais de dois mil anos que era festejado o fim do verão, o início do inverno e as boas colheitas. Era conhecido também como o Dia das Almas – o dia em que as almas dos mortos visitavam os familiares em busca de alimentos e do calor da lareira. Neste dia, as divindades permitiriam vislumbrar o outro mundo, acontecendo uma espécie de encontro entre os dois mundos, o espiritual e o material.

As brincadeiras e os doces

O “Trick or Treat” começou efetivamente na Europa com um costume antigo, o “souling”. As pessoas batiam de porta em porta em busca de um pedaço de ‘bolo de alma’, um pão com groselha. Em troca, por cada pão recebido, a pessoa fazia uma oração para os espíritos dos parentes mortos de quem ofereceu o alimento. Com o tempo, a prática foi substituída por crianças com fantasias que batem às portas e pedem doces. Ter-se-á perdido o significado mas ficou a prática.

A abóbora

A abóbora é o principal símbolo do Halloween em muitas partes do mundo e tem origem no folclore irlandês. A lenda de Jack O’Lantern conta a história de Jack, um impostor que morreu e foi rejeitado no céu e no inferno. O seu espírito foi então forçado a divagar pela Terra para sempre. O diabo deu-lhe uma brasa de carvão e Jack colocou-a dentro de uma abóbora esculpida com o seu rosto para lhe guiar o caminho.

Outra versão conta um costume antigo dos irlandeses que acendiam velas dentro de nabos esculpidos para afastar os maus espíritos na noite de Halloween. Depois da ida dos irlandeses para os Estados Unidos, com a abundância de abóboras, resolveram substituir os nabos.

A caveira

A caveira data de um costume mexicano, pré-hispânico: a conservação dos crânios como troféus para os mostrar durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento. Numa tentativa de cristianização, os espanhóis católicos fizeram com que estes rituais coincidissem com o Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro ou com o Dia dos Finados, a 2 de novembro.

Halloween pelo mundo

México

Acredita-se que era celebrado na civilização asteca há pelo menos três mil anos. O festival que se tornou o Dia dos Mortos era comemorado no nono mês do calendário solar asteca, por volta do início de agosto e durava um mês. As festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, conhecida como a ‘Dama da Morte’, e esposa de Mictlantecuhtli, senhor do reino dos mortos.

Alemanha
As pessoas escondem facas na noite de Halloween, para não maltratarem nem serem maltratados pelas almas que retornam.

Coreia

Chusok Foto: DR

No mês de agosto, no “Chusok”, as famílias prestam tributo aos seus antepassados e visitam os seus túmulos, levando oferendas de arroz e frutas.

Áustria
As pessoas deixam pão, água e uma lâmpada acesa para guiar as almas que possam retornar à Terra nessa data.

Bélgica
Acendem-se velas em honra dos parentes mortos.

República Checa
Colocam-se cadeiras ao redor da lareira na noite de Halloween. Uma cadeira para cada membro da família, mais uma para o espírito de cada familiar falecido.

Escócia
A data era conhecida como o dia em que as bruxas e outras criaturas divagavam no nosso mundo. Os costumes antigos perduraram e hoje em dia envolvem jogos e habilidades para ganhar prendas, assim como crianças fantasiadas de porta em porta a pedir doces e moedas.

Tailândia

Festival Phi Ta Khon
Foto: DR

Durante três dias, entre março e julho, na cidade de Dan Sai, decorre o “Phi Ta Khon”, ou Festival Fantasma em representação dos fantasmas e espíritos que andam entre os vivos. No primeiro dia, os habitantes da cidade pedem proteção ao espírito do rio Mun, desfilam com máscaras, sinos e cajados de madeira. No segundo dia, há concursos de dança e de fantasia e desfiles. No terceiro dia, monges budistas pregam aos foliões.

Hong Kong

Yue Lan Foto: DR

Semelhante ao Halloween, aqui tem o nome de “Yue Lan”, ou Festival dos Espíritos Famintos. As pessoas queimam imagens de alimentos e dinheiro, acreditando que assim alcançam o mundo dos espíritos e levam conforto aos mortos. Também se acendem fogueiras e são oferecidos alimentos e prendas para acalmar os fantasmas mais nervosos.

Brasil

Saci Pererê

Durante muito tempo eram relembrados os mortos no Dia de Todos os Santos e no Dia de Finados, sem grandes festas, tudo baseado na tradição católica. Importaram entretanto o tradicional Halloween norte-americano e em 2003, para valorizar as lendas nacionais, foi criado o Dia do Saci, o personagem mais famoso do folclore brasileiro. O Saci Pererê foi popularizado pela série brasileira “Sítio do Picapau Amarelo”, da TV Globo, baseada nas histórias fantásticas escritas por Monteiro Lobato entre 1920 e 1947 e esteve em exibição de 1977 a 1986.

Estados Unidos

“Village Halloween Parade” na 6ª avenida, em 2016
Foto: Filip Wolak

Os imigrantes irlandeses levaram a festa para os Estados Unidos por volta de 1840. E foi lá que o Halloween ganhou as proporções atuais. A festa tornou-se uma celebração nacional com desfiles, bailes de fantasia e espetáculos temáticos. A cidade de Salém, famosa pela caça às bruxas, promove um grandioso baile e em Nova York o mês de outubro é recheado de programações especiais dedicado ao evento.

Com maior ou menor romantismo, original ou importado, pagão ou religioso, os dias que rodeiam o católico Dia de Todos os Santos estão recheados de tradição, História e festejos. Conte-nos o que nós não contámos aqui do que se passa aí à sua volta, em qualquer parte do Mundo. Queremos saber! Apesar de tudo…

Crónica publicada em 2017, revista e republicada em outubro de 2020

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Paula Val
Começou numa das primeiras rádios locais do País, nos seus tempos de liceu, passou pelas (então) novas áreas da informática, a par dos estudos da faculdade, e acabou por apostar na banca de investimento, a que se dedicou durante 20 anos. Trocou a capital por Abrantes e os números pelas letras, que conjuga com a paixão pela fotografia. Não se conforma com o uso do acordo ortográfico, gosta dos "P" e dos "C", mesmo que não se leiam. Mulher de 20 ofícios, dedica-se hoje à gestão e produção de vários projetos do grupo editorial do mediotejo.net

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