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“Habemus vaccinum”, por Rui Calado

Pois é, quando estávamos cada vez mais perto do Paraíso, alguém nos avisou que uma nova doença tinha surgido na longínqua China e era bem capaz de comprometer essa nossa felicidade. A notícia despertou no mundo ocidental algum interesse despreocupado, desleixado. Mesmo depois de se saber que outros países do oriente começavam a ser atingidos pelo problema, mantivemos a mesma atitude imprudente.

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De repente, o “mal” chegou ao mundo ocidental. A sua aproximação ao nosso país começou por induzir discussões públicas sobre a sua perigosidade, muitas vezes centradas na comparação com a gripe que anualmente nos visita. Um dia “tínhamos a porta aberta” e o SARS-Covid2 entrou (e infectou até à presente data, cerca de 5% da nossa população). O desconhecimento de uma terapêutica capaz de combater este vírus começou a preocupar as pessoas e esteve na origem dos muitos e variados cenários especulativos, que foram surgindo a um ritmo alucinante. Quase todos, piores que o anterior. E foi assim que nos foi transmitido quem iria ser infectado, quem e quantos iriam morrer…

Dessa discussão resultou a instalação do medo, muito medo. Sem dados objectivos e óbvios, impôs-se a ideia que a doença teria de ser dominada a partir de uma estratégia global. Com a liderança científica da OMS e dos governantes dos países que iam sendo atingidos, trilharam-se os caminhos que nos têm conduzido a fracassos sucessivos, todos eles mais ou menos estrondosos.

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Surpreendentemente, no início deste processo, “apenas” as mais poderosas multinacionais produtoras de vacinas informaram o Mundo, com pompa e circunstância, que estariam a fazer investimentos fabulosos na investigação de novas vacinas para o Covid-19. Os povos e os países sentiram-se aliviados, confortados, menos temerosos. Mas o grande momento estava reservado para os governantes, que poderiam informar os seus cidadãos da eminente chegada da salvação, através de algo que seria administrado a todos (universal), os que quisessem (voluntária), de forma gratuita. Não, não é todos os dias que um político tem uma oportunidade destas…

Paralelamente e à medida que os doentes foram aparecendo e precisando não só de cuidados de ambulatório, mas igualmente de cuidados hospitalares, foi sendo feita a discussão sobre as terapêuticas mais adequadas para fazer face ao problema, dado não existirem medicamentos específicos para o SARS-Covid2. Mas esse facto não desencadeou por parte das empresas farmacêuticas o mesmo entusiasmo, o mesmo investimento, nem sequer as mesmas promessas de resultados positivos.

É verdade que no decorrer do processo assistimos a discussões relacionadas com a existência de certos medicamentos que alguns técnicos teriam identificado como eficazes no combate ao SARS-Covid2. Mas estas apenas alimentaram campanhas mediáticas poderosas, que em geral terminaram com o anúncio da ineficácia da substância alvo da discussão e um alerta para as potenciais consequências nefastas dos seus efeitos secundários.

De facto, o que parecia ser o melhor caminho, o mais adequado, não sobreviveu à propaganda, aos medos, aos modelos matemáticos e às teorias do apocalipse. Não é preciso ser um grande especialista para compreender que o acesso a um medicamento eficaz e a sua administração apenas aos doentes teria sido o procedimento mais adequado, poupando às pessoas, a todos nós e ao mundo, enormes sacrifícios.

No entanto, a opção dos poderosos estava tomada e os grandes esforços foram canalizados para a descoberta e comercialização de uma vacina. E, contrariando tudo o que eminentes especialistas asseguravam, ela chegou ao mercado, em tempo absolutamente surpreendente. Com óbvio agrado dos políticos “salvadores de pátria”, maior enriquecimento dos poderosos e alegria do povo…

“Habemus vaccinum” terão pensado não só os crentes, mas também os não crentes. Portugal terá disponíveis 22 milhões de vacinas para assegurar que toda a sua população poderá, querendo, ser vacinada (2 inoculações por pessoa).

E como nós todos, mesmo todos, queremos sair disto, vamos ser inoculados com uma vacina não obrigatória, que seremos obrigados a tomar, se amanhã quisermos fazer uma vida normal. Ou alguém acredita que num futuro próximo não nos vão exigir a vacina para viajar, frequentar certos locais públicos ou participar em algumas festas?

Curiosamente, a doença não se manifesta nos adultos jovens, nos adolescentes, nas crianças. Assim, se esta população for convidada a ser vacinada, será a primeira vez na história da medicina e da humanidade que uma vacina será administrada a uma pessoa apenas com a finalidade de evitar que ela contagie terceiros. Isto é, será administrada aos mais novos, não para os proteger, mas para que estes não contagiem os mais velhos. Só que, como estes serão previamente imunizados, vacinar toda a população sem morbilidades abaixo dos 50 anos irá proteger apenas os idosos que recusarem a vacina. O que, convenhamos, irá originar uma situação absolutamente bizarra.

Claro que também eu ponho a hipótese de me vacinar. Os “donos disto tudo” não me dão outra alternativa. Na melhor das hipóteses, poderei (?) escolher entre as diferentes vacinas que o meu país tenha adquirido. A alternativa que mais desejava, isto é, o acesso a um medicamento para me tratar no caso de adoecer (e só nesse caso) infelizmente não me é facultada.

Em conclusão, a pandemia pelo SARS-Covid2 não deixa dúvidas de que a globalização está a criar um mundo vulnerável a gente demasiado poderosa, que limita a liberdade de escolha em seu proveito e que está a transformar as democracias em grandes utopias e gigantescas mentiras.

E, por fim, resta-me confessar que muito desejaria ver desmentidas por factos, num futuro próximo, estas convicções que tanto me preocupam.

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Rui Calado
Rui Calado é médico epidemiologista e especialista em Saúde Pública. Foi coordenador da USP (Unidade de Saúde Pública) do ACES Zêzere e do Médio Tejo.

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