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Domingo, Julho 25, 2021

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Médio Tejo: Há uma “pequena revolução” a mexer com os serviços de saúde dentária

Sabia que há oito salas de saúde oral no Médio Tejo? Fátima, Ourém, Ferreira do Zêzere, Tomar, Entroncamento, Torres Novas, Alferrarede e Mação possuem espaços equipados para atender utentes ao nível dos problemas dentários, mas apostados sobretudo na prevenção. Os cheques-dentista são apenas uma parte da equação. O próximo passo arranca dentro de poucos meses: o centro de saúde de Fátima vai receber um projeto-piloto que pretende introduzir alguns dentistas no Sistema Nacional de Saúde (SNS).

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Dia 20 de março é o Dia da Saúde Oral! Porquê lembrá-lo? Porque até há cerca de 30 anos a dentição era uma parte do corpo humano completamente relegada para segundo plano, sabendo-se hoje que muitos dos problemas que afetam a normal função do organismo começam na boca. Ainda nem todos o compreendem, a boca e os dentes continuam a ficar em último na escala dos problemas de saúde, relembrados de cada vez que doem ou por motivos estéticos. Hoje, médicos dentistas e higienistas tentam prevenir o aparecimento de cáries com vernizes de flúor e selantes, aplicados nas crianças a partir dos 4 anos. As diferenças constatam-se a curto prazo.

A questão da saúde oral parece simples, mas envolve alguma polémica. Em Portugal, os serviços dentários estão quase totalmente concentrados nos privados e são bastante caros, recorrendo-se a eles já numa perspetiva de curar a doença e não como prevenção e manutenção de um sistema oral saudável. Integrar o sistema nacional de saúde é uma ambição antiga do setor, mas toda a estrutura que rodeia a medicina dentária é demasiado cara e dispendiosa – inclusive para os próprios profissionais – para que consiga ser totalmente suportada pelo Estado. Com os cheques-dentistas o país tem-se conseguido posicionar num meio-termo, uma das muitas “pequenas revoluções” que têm estado a mexer com o sistema.

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No ACES Médio Tejo existem oito salas de saúde oral e três higienistas. foto mediotejo.net
No ACES Médio Tejo existem oito salas de saúde oral e três higienistas. foto mediotejo.net

É em torno destes factos que gira a conversa do mediotejo.net com Rui Calado, coordenador da Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo. O responsável frisa a sua posição: “nenhum país do mundo suporta nos serviços públicos a Saúde Oral”. “Bastará pesquisar na Internet o que se passa em Espanha, França, Itália ou nos países nórdicos, para se compreender que a estratégia em toda a Europa passa por assegurar cuidados gratuitos até aos 16 anos, aos grupos populacionais mais vulneráveis (onde as grávidas se incluem) e depois ir prestando a ajuda possível, face aos custos proibitivos de uma generalização dessas medidas”.

Neste sentido, o responsável tem dedicado o seu percurso profissional a apostar, a nível dos serviços públicos, no que pode ser feito para prevenir a doença. É verdade que não há médicos dentistas funcionários públicos, mas há 96 médicos dentistas que trabalham para o sistema nacional de saúde no ACES Médio Tejo, que colaboram através do atendimento por meio dos cheques-dentista (crianças, grávidas, doentes com VIH, idosos empobrecidos). Em 2015, este sistema permitiu tratar 3.934 utentes, entre os quais 3.424 crianças e jovens com idade inferior a 16 anos. No total, no Médio Tejo foram atribuídos, em 2015, 7.493 cheques-dentista.

Perguntámos pelo dito programa do Governo que quer integrar mais médicos dentistas no sistema público e que consequências práticas trará para os utentes (serviços mais baratos? o que se poderá tratar?). Rui Calado revela que este projeto-piloto arranca no país dentro de alguns meses, com uma dezena de médicos dentistas a integrarem a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. No ACES Médio Tejo o posto escolhido para a experiência foi o de Fátima, onde será empregado um profissional. “Vamos avaliar, que recursos o Ministério vai alocar para esta medida”, comentou a respeito, destacando que são intervenções de grande investimento.

Há menos cáries e mais saúde oral durante o crescimento

Desde há 16 anos que se tem promovido uma série de tratamentos inovadores na área da saúde oral, cujas crianças são o público mais evidente e que mais tem beneficiado do investimento científico nesta área. “A nossa primeira preocupação é manter os dentes saudáveis”, sublinha Rui Calado, enumerando as várias iniciativas de promoção da saúde oral, desenvolvidas junto das escolas, com KITS educativos, ou junto da comunidade. A escola é um elemento importante nesta cadeia, estimulando-se a escovagem dos dentes na própria instituição. “Nós preconizamos que se faça na escola, porque se não o fizerem nunca o vão fazer”, constata, salientando que as rotinas familiares nem sempre dão primazia à lavagem dos dentes. Os KITS são um aliado nesta estratégia, que podem ser adquiridos através da Direção Geral de Saúde, mas ao qual nem todas as escolas aderem.

Existem 93 dentistas no Médio Tejo a trabalhar com o ACES através dos cheques-dentista
Existem 93 dentistas no Médio Tejo a trabalhar com o ACES através dos cheques-dentista (Doutora Diana Neves). foto mediotejo.net

Desde há dois anos que se introduziu a aplicação de um verniz de flúor nas crianças do jardim de infância. A medida é recente e ainda um pouco desconhecida e prevê a autorização dos pais da criança. Este verniz é aplicado duas vezes por ano e destina-se a manter os dentes saudáveis.

Aos sete anos de idade começa o processo que envolve o cheque-dentista: a aplicação de um selante de fissuras nos dentes permanentes, que permite acautelar o aparecimento de cáries. É também nesta fase que começam a ser usadas as oito salas de saúde oral que existem no Médio Tejo. Com três higienistas a trabalharem nos centros de saúde da região, faz-se uma triagem das crianças que podem aí ser tratadas. Os que apresentam problemas mais graves são encaminhados para um dos 96 médicos dentistas que colaboram com o sistema de saúde, que os tratam e colocam o selante.

O processo repete-se aos sete, 10 e 13 anos, com os tratamentos a serem realizados nos centros de saúde num dia normal de aulas. “Esse trabalho é extremamente eficaz no combate à cárie dentária”, sublinha Rui Calado. O acompanhamento de prevenção da saúde oral segue hoje até aos 18 anos.

Os efeitos deste método são constatados por Heloísa Oliveira, higienista em Ferreira do Zêzere e Tomar. No espaço de três anos pode constatar a evolução destes tratamentos junto das crianças. A taxa de encaminhamento para os médicos dentista (com problemas mais graves) passou de cerca de 50 por cento para 20 por cento. Hoje, a higienista não tem mãos a medir, atendendo cerca de oito crianças por dia. Os jovens não estranham e raramente mostram medo. Apesar de ainda notar alguma desvalorização do procedimento da parte da comunidade, este tratamento é procurado pelos pais, por vezes até antes da criança o poder começar.

Entre o público e o privado

É com satisfação que Heloísa Oliveira trabalha com crianças e se desloca a escolas para promover os cuidados de saúde oral. O trabalho fá-lo de coração e sempre com um sorriso nos lábios. “Gosto muito da parte comunitária, de informar e capacitar o utente”, revela. “A entrada da higienista nas escolas com a equipa de saúde escolar traz outro peso, até a informação veiculada é diferente”, explica. “No centro de saúde consegue-se começar desde a gravidez ao idoso”, comenta.

O trabalho de prevenção é feito nestes consultórios. Para Diana Neves, médica dentista em Tomar, a integração de mais dentistas no sistema nacional de saúde seria uma mais-valia para todo o processo que envolve a saúde oral. Somos afinal “o país europeu com mais cárie dentária”, destaca, salientando que, no entanto, se nota uma melhoria desde há cinco anos. “Sobretudo com a fase dos sete anos”, explica, valorizando o processo de prevenção que tem sido realizado no serviço público através do cheques-dentista. Mas “acredito que os dentistas no sistema de saúde melhoraria (a prevenção), porque muitas vezes as pessoas não vêm porque não podem (economicamente)”, prossegue.

Ambas as profissionais referem que não existe propriamente falta da informação com a saúde oral – toda a gente sabe que é necessário escovar os dentes – mas nem sempre é dada a devida relevância. “Há mais consciência alimentar que higiene oral”, constata Diana Neves.

Começa-se de pequenino

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Na Jardim Escola João de Deus, em Tomar, a lavagem dos dentes é realizada em silêncio. Os meninos e meninas sabem as regras: a pasta é colocada pela professora, escovar bem dentes e língua, deixar o lavatório limpo à saída; não entornar água, não levar a escova que caiu ao chão à boca porque tem germes. A educadora de infância, Isabel Pompeu, nunca teve problemas em orientá-los e fazer com que aprendam um ato simples, que deve ser realizado duas vezes ao dia. “No início mostro e faço mal de propósito coisas que eles não devem fazer, como entornar água ou apanhar a escova do chão”, comenta.

É à escola que os pais primeiro se dirigem para saber como aceder aos serviços de saúde oral, explica Alzira Peralta, diretora pedagógica. O enfoque que a instituição tem dado na educação das práticas de higiene oral tem produzido resultados, facilmente verificáveis nas crianças. “Nota-se diferença nos hábitos de higiene. O facto de serem muito motivados na escola faz com que em casa sejam mais autónomos”, salienta a diretora, “se fossem sozinhos em casa não tinham esta autonomia”.

Alguns envergonham-se por perceberem que em casa não se lava os dentes. Outros alertam para o colega que não fez o ritual como deve ser. A educação para a saúde oral é feita individualmente nas respetivas aulas, com o apoio da higienista e do KIT educativo que o sistema de saúde coloca à disposição as escolas. “Desde os três anos que são familiarizados com este tema. É uma área que eles sentem importância”, refere. “Há também a carência económica. Há crianças que se não fosse este programa iriam muito mais tarde ao dentista”, termina Alzira Peralta.

Ainda assistimos a uma aula. Canta-se a música dos dentes e pinta-se num pequeno caderno que explica, entre diferentes figuras, a importância da escovagem. É todo o sistema de prevenção a funcionar: os primeiros ensinamentos básicos nas idades em que ficam para a vida.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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