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“Grito silencioso”, por Vasco Damas

Tenho lido muitos comentários, muitas opiniões, muitas análises e imensas críticas em relação aos números dramáticos da abstenção que se verificaram nas eleições que se realizaram no último domingo em Portugal.

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Se à abstenção somarmos os votos nulos e os votos brancos chegamos à conclusão que três em cada quatro portugueses deixaram o seu futuro imediato nas mãos de uma imensa minoria.

Muitos dos que optaram por não votar tê-lo-ão feito por laxismo e por não se preocuparem com aquilo que o futuro lhes possa trazer. Mas também acredito que outra larga fatia deste grupo optou por esta solução como forma de passar uma mensagem e para que fique claro que não se identificam com o atual conceito democrático ao serviço de uma classe política que se serve sem ter a preocupação de servir.

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Correndo conscientemente o risco de entrar em contradição com aquilo que defendi num passado recente, afirmo neste momento que votar é um direito mas não é uma obrigação. E explico porquê.

Antes de avançarmos para uma crítica contundente contra a irresponsabilidade de todos aqueles que se demitiram de exercer o seu direito de cidadania talvez fosse útil repensar o atual modelo democrático.

É utópico, eu sei, mas talvez valesse a pena refletir na importância de dar força constitucional ao voto branco. Sim, porque ao contrário da abstenção que nos deixa na dúvida sobre a motivação que esteve na sua origem, o voto branco é um voto expresso que mostra, clara e inequivocamente, o descontentamento e a discordância com o sistema instituído e com as soluções que se perfilam como alternativa.

Ora, de acordo com as atuais regras do jogo, o voto branco passa a mensagem de insatisfação com a política e com os políticos, mas na prática, acaba por deixar tudo na mesma. Talvez precisamente por causa disto, não ouvimos no último domingo ninguém com responsabilidades políticas a sentir-se envergonhado com o descrédito a que a sua classe foi votada.

Se além da mensagem de insatisfação ele passasse a ter força para mudar o estado das coisas e a cara dos personagens, a política talvez passasse a ser um local mais bem frequentado, o espírito nobre que está na génese da sua constituição talvez fosse recuperado e a abstenção talvez diminuísse drasticamente.

Repito que tenho consciência que esta ideia não passa de uma utopia, até porque sei que aqueles que têm o poder para mudar as regras do jogo são precisamente os mesmos que não estão interessados em mudá-las. Mas como as utopias também só são impossíveis até acontecer, guardo em mim a esperança que esta realidade um dia possa chegar.

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Vasco Damas
É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

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