Vespa asiática já faz ninhos em toda a região, ameaçando milhares de colmeias

Em menos de uma década, a vespa asiática espalhou-se como uma praga, dizimando milhares de colmeias de abelhas. Créditos: DR

A Vespa velutina nigritorax invadiu este ano todos os concelhos da nossa região e prossegue a sua conquista de território para sul do Tejo. É entre agosto e outubro que saem dos seus ninhos gigantes para atacarem colmeias. Sem hipótese de lhes fazerem frente, as abelhas estão a ser dizimadas sem piedade, o que coloca em causa a sobrevivência de várias espécies – incluindo a nossa.

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As vespas velutinas, ou asiáticas, rondam as colmeias e esperam, pacientemente, o melhor momento para atacar. São duas ou três, e tentam passar despercebidas. Novas vespas vão revezando as que começam a ficar cansadas, depois de várias horas em missão de vigilância.

Quando uma abelha ousa sair, a velutina cai-lhe em cima, como uma flecha. Pode chegar a ter o triplo do tamanho e é com facilidade que a prende entre as patas, arrancando-lhe a cabeça com as mandíbulas. Depois suga o corpo da abelha decapitada e, em menos de um segundo, largará a carcaça de uma e já estará a atacar outra.

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Num minuto, cada vespa chega a matar mais de 100 abelhas. Quando começa um ataque, o vespeiro é avisado e centenas de velutinas são enviadas para não dar hipótese à colmeia. Uma hora basta para causar um autêntico genocídio.

As vespas asiáticas passam depois ao assalto à colmeia, apropriando-se do seu mel. No final, nem as pupas (novas abelhas em formação) escapam – são comidas ali mesmo, ou levadas pelas vespas para servirem de alimento às suas próprias crias.

As abelhas europeias não sabem lidar com esta nova ameaça, que foi detetada em Portugal em 2011, mas já sabem que ela existe. A vespa autóctone em Portugal, a crabro, também se alimenta de abelhas, mas apenas das mais fracas ou moribundas. As mais fortes conseguiam sempre fugir.

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Perante estas “novas” vespas, as abelhas mudaram de comportamento: recusam sair, sabendo que as vespas irão atacá-las, e acabam por morrer dentro das colmeias, à fome. É uma trágica versão de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. 

Na Ásia há já relatos de abelhas que conseguem atrair as vespas para a entrada das colmeias, rodeando-as depois às centenas, batendo as suas asas o mais depressa que podem, para elevar a temperatura do ambiente. As abelhas aguentam temperaturas de 42ºC, as vespas sucumbem aos 40ºC… É a natureza a fazer o que melhor sabe: a levar as suas forças ao limite para sobreviver. 

Contudo, as duas espécies ainda combatem com armas muito desiguais, e sem a ajuda do Homem dificilmente as abelhas conseguirão contrariar a lei do mais forte.

VÍDEO Neste documentário da National Geographic é possível ver um ataque de vespas gigantes asiáticas a uma colmeia de abelhas europeias comuns. Esta espécie é maior do que a velutina e mais agressiva, mas o ‘modus operandi’ é similar, bem como a ameaça que representam para as abelhas e o equilíbrio do nosso ecossistema.

As autoridades lançaram projetos de monitorização de ninhos de vespas asiáticas (ver caixa), como o STOPVespa, mas consideram que esta é, à partida, “uma guerra perdida”. Além de ser um predador muito forte, reproduz-se muito rapidamente e constrói ninhos em locais pouco visíveis. Por casa ninho que é destruído há 100 novos a prosperarem, criando novas rainhas.

A luta das abelhas interessa-nos também por uma questão de sobrevivência. Mais de 70% por cento das frutas e hortícolas que consumimos precisam das abelhas para o processo de polinização.

Há já apicultores em vários países que deixaram de produzir mel para prestar apenas serviços de polinização – um trabalho que as abelhas nos faziam gratuitamente e que agora começa a ser pago, encarecendo toda a cadeia de produção.

Por tudo isto, a apicultura é um dos setores que mais apoios está a receber do Ministério da Agricultura, e as pequenas produções começaram a dar lugar a grandes apiários, muito diferentes dos que nos habituámos a ver nas paisagens rurais. As colmeias começaram a ser protegidas por arames elétricos que impedem a entrada das vespas asiáticas e as abelhas são alimentadas artificialmente, para não terem de sair.

Os produtores estão a conseguir manter estabilizada a produção, mas este será sempre um mel diferente, mesmo que não se note na boca o seu “travo amargo – o equilíbrio dos ecossistemas não está garantido, e esse é um preço que não deveríamos estar dispostos a pagar.


A praga que chegou de barco

A Vespa velutina nigritorax entrou na Europa em 2004, pelo porto de Bordéus, num carregamento de árvores-bonsai vindas da China. Nesse ano, as autoridades francesas eliminaram três ninhos. Dois anos depois, mais de duzentos. E três anos mais tarde, a situação escapou ao controle: já havia milhares de ninhos de vespa velutina espalhados por França. Depressa galgaram fronteiras para Espanha e, em 2011, chegaram ao Norte de Portugal. Hoje já dominam mais de metade do território nacional, sendo o Médio Tejo uma das suas últimas conquistas.

Mapa do site STOPVespa, do ICNF, para a região do Médio Tejo
Mapa de avistamentos de ninhos de vespa asiática em Portugal, registados no site STOPVespa, do ICNBF.

O ciclo de vida de uma colónia de vespas asiáticas inicia-se na Primavera, quando a rainha acorda da hibernação e cria as primeiras obreiras. Entre maio e junho abandonam o chamado ninho primário e constroem o secundário, muito maior. Esses ninhos chegam a ter dois metros de altura e um de diâmetro, dissimulados no alto das copas das árvores, ou em telhados e varandas de edifícios. É entre agosto e outubro que as vespas velutinas se lançam na caça às abelhas. Com o frio, e as primeiras chuvas do Outono, voltam a resguardar-se. As novas rainhas fundadoras abandonam então o vespeiro onde nasceram, acasalam e, depois de fecundadas, hibernam em locais resguardados até à Primavera seguinte.

É possível ajudar a diminuir a progressão da vespa velutina de três formas: 

  • Avisando a Proteção Civil ou o STOPVespa sempre que se aviste um ninho, para ser eliminado;
  • Construindo armadilhas simples, pendurando uma  garrafa de plástico com uma mistura de vinho, cerveja e groselha, por exemplo, o que atrai as vespas para o interior da garrafa, de onde já não conseguem sair;
  • Construindo abrigos e pequenas colmeias para as abelhas, nos jardins com flores.

Abelhas sob várias ameaças

A Apis mellifera iberiensis, ou abelha ibérica, tem enfrentado várias ameaças de extinção nos últimos anos. Antes da chegada da vespa velutina veio a varroa, um ácaro também asiático que, nos anos 1990 causou grande mortalidade entre as abelhas, tal como a loque americana, uma bactéria muito agressiva. Estas pragas foram relativamente controladas com antibióticos mas o seu uso também levou à morte de muitas abelhas. O uso excessivo de pesticidas na agricultura, nomeadamente com substâncias neonicotinoides, causou também uma mortandade anormal nas últimas décadas. Novas diretivas europeias limitaram a sua utilização, mas ainda não se conseguiu travar o chamado “síndrome de colapso das colmeias”: sem explicação científica clara, as abelhas abandonam a criação e deixam-se morrer, numa espécie de suicídio coletivo.

Mário Lourenço é chamado por vários municípios da região para exterminar ninhos de vespa asiática. Fotografia de Paulo Jorge de Sousa para a PONTO – revista do mediotejo.net

“As abelhas terão de hibernar mais cedo”, diz Mário Lourenço, exterminador de vespas asiáticas

Por Paula Mourato

A erradicação da vespa velutina é “impossível” e a solução passa por mitigar o problema, identificando e destruindo os ninhos da espécie invasora, considera Mário Lourenço, apicultor e exterminador de vespas asiáticas nos concelhos de Abrantes, Constância e Mação.

Como a vespa asiática é predadora de abelhas, está a causar perdas consideráveis na apicultura. “Enquanto está nos ninhos primários pouco chateia os apicultores, mas se o problema não é resolvido logo em fevereiro, desde os ninhos primários, depois em julho, agosto e setembro começamos a notar as colmeias a morrer”, explica.

Mas, avisa, o trabalho realizado até agora em Portugal não tem diminuído consideravelmente as perdas. “Nota-se pouco que os estragos sejam minimizados” e, na sua opinião, a solução passará pela “adaptação” dos apicultores a esta nova realidade. “No Norte do País, onde lidam há mais tempo com a vespa asiática, começaram a alimentar a abelha mais cedo para hibernar também mais cedo, uma vez que no Inverno não há trabalho de polinização”, conta. O mel é retirado das colmeias em julho, deixando os apicultores algumas reservas e fornecendo monossacarídeos para a colmeia se alimentar nos meses seguintes. 

“Teremos de alimentar as abelhas em agosto para a colónia não enfraquecer, porque a vespa não deixa entrar comida na colónia – começa a apanhar as abelhas à entrada e não à saída. Quando as abelhas trazem o alimento para dentro da colónia, são caçadas. E na colónia, a abelha ao sentir a vespa, não sai para se alimentar. Então hiberna mais cedo, fica fechada na colmeia, acaba por comer toda a reserva e depois morre de fome”, explica. 

Para minimizar os prejuízos na produção de mel e na polinização, outro sistema de eliminação da vespa asiática passa pela utilização “de harpas elétricas, com infravermelhos, uns fios eletrificados. O espaçamento desses arames entre si não afeta a abelha porque é mais pequena, mas a vespa é maior e quando toca nos dois fios simultaneamente morre eletrocutada”, refere.

Na destruição dos ninhos, a intervenção pode fazer-se de várias formas: “queimar, fazer inseticida ou remoção total”. Mário prefere intervencionar o ninho com inseticida. O objetivo é fazer com que “todas as vespas, ao regressarem, acabem por morrer dentro do ninho”. Outras intervenções, diz, só se devem fazer em casos específicos. Por exemplo, “quando um madeireiro derruba uma árvore com um ninho, que fica no chão, e as vespas muito espalhadas. Se possível, deve queimar-se o ninho na noite seguinte”.

A queima ou a remoção do ninho “convém ser feita à noite”, para que se encontre lá dentro o número máximo de vespas. Já a destruição através de inseticida “pode ser feita durante o dia, porque tem um efeito prolongado, e todas as vespas que regressem nas horas seguintes ao ninho irão morrer durante a noite.”

Até ao momento, este está a ser um ano atípico, diz Mário Lourenço. “Os avistamentos começaram muito mais tarde” e a remoção de ninhos caiu para metade, comparando com anos anteriores. Se a mudança está relacionada “com a meteorologia ou com o trabalho anteriormente feito, o tempo o dirá, quando chegarmos ao final”.

*Textos publicados na revista PONTO, Verão 2020 – Volume Um

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4 COMENTÁRIOS

  1. A atenção ao assunto é louvavel no entanto este artigo está repleto de não verdades e imprecisões cientificas. O video que é mostrado nem sequer é de vespas velutinas. O rigor jornalistico e cientifico deveriam ser prioridade como arma de combate á desinformação e á propria vespa asiática.
    Disponivel para qualquer esclarecimento.

    • Está referido no artigo que o vídeo ñ é referente à vespa visada no artigo.
      Desinformação, é tb este tipo de comentário gratuito e sem a sua leitura prévia.

  2. Boas a todos, existe um desinteresse da parte dos que são responsáveis da remoção dos ninhos, depois que são informados da localização dos mesmos, a Gnr e os bombeiros vão ao local olham para o mesmo, e dizem, está muito alto não temos escada para o retirar, e pronto está o trabalho feito, e viram as costas, vão-se embora, ficando o ninho a funcionar. Isto é a realidade do que se passou com um ninho que está aquí bem perto e que já me comeu cinco colmeias, já passaram quatro semanas do acontecimento e está igual. Agora pergunto eu, para que é que pedem ás pessoas que avisem se depois nada fazem, eles têm drones equipados que resolvem os casos dificeis, mas não querem saber, quando deixar de haver comida por inexistência de polonização talvez comam terra ou erva do chão porque é o que vai haver disponivel.

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