Médio Tejo | Raio-X aos serviços de saúde da região pela Comissão de Utentes

Em entrevista ao mediotejo.net, os representantes dos utentes de saúde da região dizem que há um grave problema de absentismo no Hospital de Abrantes e que "não é justo que se contrate um assistente operacional para uma unidade covid num hospital, um trabalho perigoso, e se ofereça o salário mínimo"

A Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo denuncia a falta médicos e enfermeiros, bem como de salários dignos para os assistentes operacionais, fala da existência de problemas nos centros de saúde e nos hospitais mas considera o Serviço Nacional de Saúde “o mais importante e mais útil serviço público” em Portugal. Em declarações ao mediotejo.net, o porta-voz Manuel Soares congratula-se com o trabalho “bem feito” em cenário de pandemia e lembra que no Hospital de Abrantes “funciona uma das melhores unidades de cuidados intensivos” do País.

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O porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT), Manuel Soares, alerta, em entrevista concedida ao mediotejo.net, para a necessidade de desbloquear as obras nas urgências do Hospital de Abrantes. “É aqui que funciona a Urgência medico-cirúrgica do Médio Tejo e toda a gente concorda, por razões de interioridade, que é importante ter uma Urgência medico-cirúrgica neste hospital, mas as obras já foram anunciadas quatro vezes e continuamos sem solução à vista”.

Com a situação pandémica “as coisas pioraram um bocadinho”, devido às Áreas Dedicadas Covid que passam a Áreas Dedicadas para Doentes Respiratórios. Manuel Soares nota, no entanto, que “o Hospital de Abrantes é uma referência, não só na área de Lisboa de Vale do Tejo”, como “tem servido de ponte de apoio a muitos doentes que não são da região”, podendo esse número aumentar “com o agravamento da pandemia”.

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A CUSMT teme, por isso, que “algumas das atividades normalmente desempenhadas no Hospital de Abrantes possam ser prejudicadas”, excluindo a maternidade, “perfeitamente isolada e a trabalhar num andar próprio”.

Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo, em entrevista ao nosso jornal. Créditos: mediotejo.net

Manuel Soares revela que o Centro Hospitalar do Médio Tejo “vive uma boa situação financeira que permite entrar numa terceira fase de recuperação de consultas e de cirurgias”. Até final do ano, diz, “um conjunto de cirurgias vai ser desenvolvido pelos profissionais que aderiram a este plano de recuperação de cirurgias e de consultas”. Ou seja, pretende-se que, até 31 de dezembro, “não haja consultas para cirurgia com atraso superior a 9 meses e cirurgias atrasadas mais de um ano”.

A CUSMT destaca também os serviços de cuidados de saúde primários. “Muitos problemas nas urgências advêm de uma resposta ineficaz” do trabalho nos centros de saúde. “Com a pandemia, a Saúde Pública – porque tem de fazer recolhas de análises, controlo dos infetados – está superlotada e algumas das vertentes, como a promoção de boas práticas de vida está afetada”, nota.

No entanto, sublinha que neste cenário de pandemia verifica-se uma cooperação institucional. “A colaboração entre bombeiros, forças de segurança, proteção civil, autarquias, hospitais, centros de saúde e Segurança Social. Estão a reunir neste momento duas vezes por semana, para coordenar”.

O porta-voz da CUSMT lembra que no Hospital de Abrantes “funciona uma das melhores unidades de cuidados intensivos” do País. E no CHMT foi criado um serviço de patologia que dá respostas em 24 horas.

“no CHMT foi criado um serviço de patologia que dá respostas em 24 horas”

Já a vacinação é considerada fundamental neste combate à covid-19. “Tomámos posição há cerca de dois meses”, recomendando que o plano de vacinação da gripe sazonal fosse programado atempadamente nos centros de saúde da região, lembra Manuel Soares.

Afirmam que “a primeira fase correu relativamente bem, porque as pessoas não se deslocam”. Segundo o responsável, o problema prende-se com os utentes com mais de 65 anos. “Já estamos a receber queixas. Na segunda-feira [primeiro dia da segunda fase da campanha de vacinação] num centro de saúde, na senha 36, já não havia vacina. Inclusivamente farmácias receberam um quinto do que pediram. Há locais com verdadeiros constrangimentos, há acordos com Juntas de Freguesia e algumas Câmaras em que disponibilizam instalações” no sentido de evitar aglomerados. “Mas há condicionalismos que não se ultrapassam de um momento para o outro”, diz. Por exemplo, “no Médio Tejo a capacidade de frio para manter os medicamentos é limitada”, revela, apontando “problemas de logística”.

“na segunda-feira, num centro de saúde, na senha 36, já não havia vacina da gripe. Inclusivamente farmácias receberam um quinto do que pediram”

Outra situação apontada prende-se com as comunicações. Os utentes da região do Médio Tejo deram conta de “problemas nas telecomunicações e de apoio telefónico” a partir dos centros de saúde, um problema “grave” perante a pandemia de covid-19.

“Constatámos e transmitimos à diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo a nossa preocupação com os grandes problemas que existem ao nível das telecomunicações e de apoio telefónico aos utentes: ou não atendem as chamadas ou o telefone dá sinal de chamar quando está ocupado”, lamentou.

A CUSMT critica a falta “acordos temporários” com as operadores durante a pandemia, no sentido de disponibilizar um conjunto de meios. “Qualquer empresa de telecomunicações consegue em 48 horas ativar, por exemplo, 50 telemóveis ou telefones fixos. Não percebemos como é que passado este tempo todo esta situação não foi resolvida. É impensável culpar o trabalhador. Hoje temos equipamentos e meios tecnológicos” para encontrar uma solução.

“Nos Centros de Saúde há grandes problemas ao nível do apoio telefónico aos utentes: Ou não atendem as chamadas ou o telefone dá sinal de chamar quando está ocupado”

Com o inverno à porta espera-se, à semelhança de outros anos, maior afluência às urgências. A lei define desde maio que “os hospitais podem remeter utentes [com pulseiras] verdes, amarelas e azuis para os centros de saúde. Mas o Centro Hospitalar do Médio Tejo decidiu que “as quatro urgências não vão enviar as pessoas para os centros de saúde” colocando em funcionamento consultas abertas em três urgências. A prática estava previsto começar no dia 26 de outubro.

“Esta consulta aberta vai permitir que os utentes triados com amarelo, azul e verde possam ser assistidas num gabinete por um médico como uma consulta normal”, explica. Na pediatria “os profissionais disponibilizaram-se para fazer uma consulta aberta para as crianças”, o que a CUSMT considera “um avanço muito grande”.

Na pediatria “os profissionais disponibilizaram-se para fazer uma consulta aberta para as crianças, é um avanço muito grande”

O porta-voz refere ainda “o problema grave” dos lares licenciados e não licenciados e reivindica que os lares e casas de acolhimento passem a estar sob a tutela conjunta dos ministérios da Solidariedade e Saúde, e seja criada uma rede pública de lares e casas de acolhimento.

“Temos de pensar mesmo numa situação pós-covid: que tipo de assistência médica e de cuidados de saúde queremos para os utentes dos lares – com assistência medicamentosa, meios complementares de diagnóstico, terapia. Há falhas inclusivamente de coordenação entre a Segurança Social e o Ministério da Saúde”, refere Manuel Soares.

A Comissão de Utentes defende “uma rede nacional pública destas unidades, nomeadamente com os hospitais de retaguarda para utentes por exemplo infetados com covid mas acamados ou com problemas de ordem psiquiátrica”.

Outra preocupação passa pelas salas de espera dos centros de saúde, sem capacidade, neste cenário de pandemia, de acolher todos os utentes, obrigados a aguardar na rua.

“Com a chuva e vento, pior! Um problema que ultrapassa as unidades de saúde pública mas diz respeito a todas as unidades de saúde, incluindo privados que prestam serviços públicos”, designadamente farmácias ou laboratórios de análises. Nesse sentido, a CUSMT apela às autarquias para “arranjarem condições, de abrigo, mesmo que provisórias junto às unidades de saúde”.

“Outra preocupação passa pelas salas de espera dos centros de saúde, sem capacidade de acolher todos os utentes, que são obrigados a aguardar na rua, mesmo Com chuva”

Ainda relativamente aos cuidados hospitalares refere o processo de aquisição de um equipamento público de ressonância magnética para o Centro Hospitalar do Médio Tejo. “Houve concurso mas um dos concorrentes levantou problemas de ordem legal e a situação está por resolver”. Defendem também a instalação de um equipamento TAC na unidade de Torres Novas do CHMT e continuam a considerar ser “importante promover a maternidade”, defendendo a sua localização em Abrantes, “pela interioridade”, promovendo a “coesão territorial”.

A CUSMT aponta igualmente problemas com os transportes intra-hospitalares, relacionados “com muitas altas dadas em Abrantes, em que a pessoa tem de se deslocar pelos seus próprios meios para a unidade onde entrou”. Já os transportes internos foram assumidos pelo hospital “e começou a funcionar melhor”, diz. “Em cada unidade está sempre uma ambulância e uma equipa para poder fazer o transporte” de transferência de doentes.

“Há problemas com os transportes intra-hospitalares, muitas altas são dadas em Abrantes e a pessoa tem de se deslocar pelos seus próprios meios para a unidade onde entrou”

Realça que o regresso da medicina interna a Tomar e Torres Novas “veio facilitar muito a vida dos utentes e dos profissionais” ao nível dos custos, da comodidade e até de aproveitamento do tempo dos profissionais.

Sobre comunicações e transportes, manifestam-se fortemente contra as portagens nas ex-Scut, e defendem a abolição total das portagens na A23. Lembra inclusivamente Manuel Soares que “a estrada até Mouriscas, construída na época pela Estradas de Portugal, era um IP que depois foi transformada em estrada paga”, critica.

Para o porta-voz da Comissão de Utentes, o Serviço Nacional de Saúde “é o mais importante e mais útil serviço público” em Portugal, e diz ser “por cuidados de qualidade e proximidade”, recusando a criação de “interiores dentro do Interior”. Notando que no Médio Tejo apenas existem duas unidades de Cuidados Continuados, em Entroncamento e Tomar, aponta a falta de “unidades de retaguarda”, defendendo um maior número de camas de Cuidados Continuados, bem como a permanência das farmácias nas zonas rurais.

Manifesta-se contra a possibilidade de “livremente” as farmácias poderem sair das zonas rurais “só com um sim dos órgãos autárquicos”, passando para zonas urbanas. “Os autarcas não estão a agir com bom senso”, colocando em causa “o futuro de territórios minimamente equilibrados”, acusa.

Criticam ainda o bastonário da Ordem dos Médicos pelas declarações nas quais reclama maior número de médicos, mas “perante a oportunidade, há dois meses, de apoiar a intenção governamental de subirem em 20% o número de estudantes de medicina”, respondeu negativamente.

Manuel Soares recorda que 40 médicos, “nomeadamente do Hospital de Abrantes, fizeram um abaixo assinado, invocando o próprio bastonário”, considerando que os doentes agudos não infetados estavam a ser relegados para segundo plano. “Fica muito mal aos médicos virem a público tomar estas posições. Haja bom senso!”, afirma.

“40 médicos, nomeadamente do Hospital de Abrantes, fizeram um abaixo assinado considerando que os doentes agudos não infetados estavam a ser relegados para segundo plano. Fica muito mal aos médicos virem a público tomar estas posições”

Congratulam-se com a entrada de 10 novos médicos, oito assistentes operacionais e seis assistentes administrativos para o Médio Tejo, mas continuam a identificar “falta de enfermeiros e médicos de saúde pública”.

Indicam igualmente “um grave problema de absentismo” na área covid de Abrantes, desde médicos a assistentes operacionais, não só por medo mas também pelos baixos salários.

“Não é justo que se contrate um assistente operacional para uma Unidade Covid num hospital, um trabalho perigoso, e se ofereça o salário mínimo. É gozar com um conjunto de população que é indispensável para os cuidados de saúde. É impensável que um hospital funcione sem assistentes operacionais”, a quem também é recusado qualquer subsídio de risco.

“Não é justo que se contrate um assistente operacional para uma ala covid num hospital, um trabalho perigoso, e se ofereça o salário mínimo”

“O trabalho em covid é tão violento que só fazem turnos de quatro horas com o equipamento individual de proteção. É impensável estar muitas horas dentro daqueles invólucros para tratar e proteger os doentes. Houve profissionais que estiveram isolados!”, recorda.

Criticam por fim a falta de formação no que toca à comunicação, dizendo não haver “o mínimo de urbanidade” no contacto dos profissionais com os utentes e respetivas famílias. Testemunham “casos de utentes que entram numa urgência e passadas 8 horas é que dão informações à família”. E quem dá as informações, frequentemente, “é um segurança”, criticam. “Inclusive há unidades de saúde no país onde são os seguranças que desempenham funções de enfermeiros, nomeadamente a ver a temperatura dos utentes.”

há “casos de utentes que entram numa urgência e passadas 8 horas é que dão informações à família… E quem dá as informações, frequentemente, é um segurança”, criticam

Relativamente às 18 mil consultas que ficaram por realizar nos centro de saúde do Médio Tejo, a CUSTM considera “um ínfimo número”, uma vez que “não chega a ser uma consulta por médico. Estamos a falar numa média de seis consultas por unidade de saúde e por dia. Deveria ser valorizado as mais de 500 mil consultas realizadas” de janeiro a finais de setembro, excluindo as consultas covid-19, diz Manuel Soares, afastando a ideia de que “os serviços de saúde estão no caos”.

Dizem precisamente o contrário: “conseguiram resistir e muito bem, e ainda fizeram um outro trabalho, em termos de pandemia covid. Fazem-se por semana milhares de contactos, incluindo ao sábado e ao domingo. Há um trabalho valiosíssimo, de um conjunto de profissionais verdadeiramente abnegados”.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.
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