“Gomas e Pêssegos”, por Berta Silva Lopes

Foto: Alexas, Pixabay

Durante a minha meninice, nos irrepetíveis anos 80, trocar gomas por pêssegos parecia-me a melhor transação comercial de sempre. Eu, habituada a ver crescer pessegueiros nas traseiras da casa dos meus pais desde pequena, comia pêssegos até me fartar durante o tempo deles e muitos ainda se estragavam, picados pela bicharada ou caídos de maduros. Já a minha melhor amiga de infância recebia pela mesma altura, vindos da Alemanha, país onde viviam uns tios, pacotes e pacotes de gomas.

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A troca era apreciada pelas duas, que se uma se lambuzava com as gomas a outra ansiava pela barrigada de pêssegos. Eu achava que saía a ganhar, claro, já que as gomas até eram estrangeiras e na minha aldeia nunca tinha eu visto os famosos ursinhos de todas as cores.

Se a uma sobejavam guloseimas e à outra os pêssegos cresciam com fartura nas árvores, as trocas eram regulares e deixavam contentes ambas as partes, que assim é que deviam ser todos os negócios. E ainda hoje eu e ela nos lembramos disso e nos rimos dessas e doutras estórias.

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Naquela altura, esses tios da minha amiga faziam parte do pequeno grupo de emigrantes da minha aldeia. Faço agora as contas e não enumero mais do que 20 pessoas, entre pais e filhos, a viver longe. Sei que antes deles poucos dali saíram em busca de melhor sustento e depois deles também só meia dúzia se atreveram a outras línguas e culturas.

Nem em Junho nem em Agosto, nem sequer em Julho, mês da tradicional festa de verão, a minha aldeia assistia portanto a esse momento típico, carregado de saudades e abraços, que é o regresso dos seus emigrantes à aldeia natal. Ça va bien? Cá vamos andando. Wie geht es ihnen? Mir geht es gut, Gott sei Dank. Balbuciar qualquer coisa em alemão é que era pior mas também não era preciso, era o que mais faltava, e bem e bem.

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Onde havia vida no verão havia vida no inverno, a menos que alguém se finasse na estação do cair da folha. Poucos ousavam fazer as malas, baixar os estores, dar a volta à chave e au revoir até para o ano.

Tinham por isso pouca animação os verões na minha aldeia. A água a alcançar a leira dos feijões, os pepinos mergulhados na represa, retalhados, salgados e devorados ainda na horta, as vagens secas por debulhar, os banhos nos açudes das redondezas, e à noite as desfolhadas era tudo quanto podíamos esperar desses verões sem pronúncia estrangeira.

Entre a estação quente e os invernos só mudavam os afazeres, os dias tórridos e as noites estreladas davam lugar ao frio e ao cheiro da lenha queimada. As pessoas eram sempre as mesmas, quer fosse Janeiro ou Agosto. Que diferença podem fazer afinal meia dúzia de emigrantes numa aldeia, por mais pequena que seja, a não ser pelos pacotes de gomas?

Passaram-se, entretanto, muitos anos. Mudámos de século e de oportunidades, e a minha aldeia continua a não ter emigrantes. Vive ou sobrevive, quem lá mora? Os bravos são afinal os que ficam e resistem ao despovoamento ou serão aqueles que não se resignam e partem? Descenderá a minha gente dos marinheiros destemidos que partiram rumo ao desconhecido ou seremos antes da linhagem dos que ficaram, entre lamúrias e lágrimas, a maldizer a sorte?

Nos verões da minha infância eu não pensava em nada disto, claro, nem nas divisões da água pelas tapadas, nas abóboras que não medravam ou nas próximas sementeiras, só nas gomas que chegavam de longe e tinham sabor a novidade. Não é à toa que se cresce numa aldeia.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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