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Sábado, Setembro 18, 2021

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Gente da Nossa Terra | Vicente Martins, de João Semana a médico empresário

Há quase 40 anos que o médico António Vicente Martins escolheu Ferreira do Zêzere para viver e trabalhar. No início dos anos 80, ainda recém-licenciado em medicina, começou como uma espécie de João Semana (médico que anda de aldeia em aldeia) para, anos mais tarde, se tornar também empresário de sucesso na área da saúde. Aos 68 anos continua a trabalhar como médico de família na recém-criada clínica Vicente Saúde.

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Vicente Martins nasceu há 68 anos em Rio Maior, no seio de uma família pobre e numerosa. Eram tempos difíceis para uma família de oito filhos, em que o pai era mineiro nas minas de Rio Maior. Em pequeno, António queria ser engenheiro eletrotécnico.  Para poder estudar teve de, em simultâneo, trabalhar, já que o orçamento familiar era curto.

Sempre a remar contra a maré nessa “vida difícil”, foi para Lisboa estudar ao mesmo tempo que trabalhava no INE – Instituto Nacional de Estatística.

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Nessa altura tinha um grande amigo, atualmente também médico, que lhe pediu para o acompanhar na opção pela medicina. “Deixa-te das engenharias”, desafiou-o. O que é certo é que António ficou a matutar no assunto e começou a gostar da área da saúde.

“Naquele tempo entrava-se com facilidade no curso de medicina, não é como hoje. Entrei para a Faculdade de Coimbra. Adorei fazer o curso nessa cidade que também adoro”, recorda.

Essa fase da sua juventude como estudante marcou de tal forma que ainda hoje, 40 anos depois, os antigos colegas reencontram-se em convívios periódicos. “É sempre maravilhoso voltarmo-nos a encontrar”, regozija-se.

Pouco depois de terminar o curso em 1979 entrou para o Hospital Distrital de Leiria, que é hoje o Hospital da Misericórdia. Fez aqui um estágio e outro em Coimbra.

Nessa altura ainda havia o chamado serviço médico à periferia, em que os médicos eram distribuídos pelos concelhos do interior. Foi a génese do atual Serviço Nacional de Saúde através do qual se pretendia alargar a cobertura em termos de saúde à população rural. 

E foi através dessa política que, em 1982, veio parar a Ferreira do Zêzere. Começou a trabalhar no chamado centro de saúde velho, à saída da Vila, edifício que atualmente pertence novamente à Misericórdia. “E por cá fiquei”, diz António, que já se sente mais ferreirense do que riomaiorense.

O tal “serviço médico à periferia” terminou, mas António continuou a trabalhar em Ferreira do Zêzere, ao mesmo tempo que fazia a especialidade em medicina familiar em Sete Rios a que acrescentou a formação em gestão clínica pela Ordem dos Médicos.

Graças a este investimento na formação, criou nos anos 80 a sua própria clínica em instalações por cima do edifício dos Correios, atividade que conciliava com o serviço no centro de saúde.

Foram uns anos 80 e 90 muito duros, com “uma vida muito intensa”. As condições de trabalho e as instalações do centro de saúde eram precárias, faltava uma série de serviços e os recursos humanos eram escassos o que levava a que tivesse, por vezes, de trabalhar 16 horas seguidas.

Ao aperceber-se da falta de serviços de saúde especializados em Ferreira do Zêzere António Vicente, com o seu espírito de empreendedor, resolveu investir na sua clínica, por exemplo, nas áreas de fisioterapia, radiologia e medicina dentária.

“Eu vim preencher uma lacuna. Procurei criar mais algumas valências para servir a população. No fundo, vim dar continuidade ao trabalho do Dr. Real, da Frazoeira”, relata o médico, orgulhoso por ter trazido para a vila antigos colegas seus do curso de medicina.

A clínica, na altura designada Centro de Reabilitação e Diagnóstico (CRD), foi crescendo, não só a nível de valências, como a nível de instalações, atualmente situadas em edifício próprio na Travessa D. Maria Flor.

O médico mostra os dois livros que publicou. Foto: mediotejo.net

“Para mim a medicina é tudo”

Reformado do Serviço Nacional há sete anos, António Vicente continuou a dedicar-se à sua clínica até que surgiu a oportunidade de venda, negócio que se concretizou em novembro de 2019 através da empresa Bewa Investimentos, Lda, sociedade constituída por Manuel Ferreira (da Uniovo) e pelos seus três filhos.

Uma das condições que os novos donos impuseram era que António Vicente continuasse ali a trabalhar e assim aconteceu. De CRD passou a designar-se por Vicente Saúde, em homenagem ao fundador da clínica. E à entrada da vila já se erguem as futuras instalações de uma clínica moderna, num investimento a rondar os dois milhões de euros.

António Vicente tem consciência que a clínica tem muitos clientes graças a si e à forma como lida com eles, o que é motivo de orgulho pessoal dada a ligação que mantém com os doentes. “Sinto grande orgulho como pessoa e como profissional”, realça.

O seu nome vai para além das fronteiras de Ferreira do Zêzere, o que o leva a dizer que vezes se sente uma espécie de embaixador nos concelhos envolventes. À sua clínica vêm doentes de Vila de Rei, Tomar (sobretudo das freguesias de Olalhas, Serra e Alviobeira), Alvaiázere, Cernache do Bonjardim e Figueiró dos Vinhos.

O segredo está na forte ligação que mantém com os doentes. “Felizmente tenho tido muitos sucessos porque dedico-me muito aos meus doentes. Aqui estamos muito perto e temos um acompanhamento muito continuo. Além disso, sou muito sensível ao sofrimento deles, mexe muito comigo. Isso responsabiliza-me e sobretudo gosto dos desafios”, afirma o médico para quem “a medicina é tudo”.

Ao longo dos 40 anos dedicados à medicina, António Vicente já tem muitas histórias para contar. Algumas delas constam do livro “Saúde, Caminhos e Trilhos por Ferreira”, editado pela Chiado Editora. Depois disso lançou, através da mesma editora, o livro “Ovo com Ternura”, a propósito de Ferreira do Zêzere ser a “capital do ovo”.

Futuras instalações da clínica Vicente Saúde. Foto: mediotejo.net

No seu percurso de vida, dedicou-se ainda ao associativismo e à política local. Foi presidente da Casa do Povo durante seis anos e integrou a Associação de Pais. Elenca as inúmeras iniciativas que promoveu na Casa do Povo desde as obras no edifício, à participação nas marchas populares, à criação da escola e orquestra de cordas, grupo de concertinas, escola do fado, entre outras.

Em 2013 foi candidato à Câmara pelo PS mas não chegou a ser eleito para presidente por uma centena de votos. Cumpriu o mandato como vereador na oposição. EM 2017 candidatou-se como independente pela lista “Nós Ferreirenses” (Nós Cidadãos e CDS), reconhecendo que “não correu bem, não devia ter concorrido”. Nesta altura, um eventual regresso à política “está fora de questão”.

O seu foco são os doentes. “Enquanto eu tiver capacidade mental, enquanto as minhas capacidades cognitivas estiverem ativas, continuarei a trabalhar, porque gosto. Não consigo deixar de fazer medicina nem que passe apenas pela atividade de aconselhamento”, assevera.

Numa região com uma população muito envelhecida, são os idosos que mais procuram os seus serviços de saúde, até porque são eles que nesta altura mais precisam.

António Vicente reconhece que os serviços de saúde melhoraram globalmente ao longo destes 40 anos. No entanto, não deixa de ser crítico, por exemplo, em relação à forma de trabalhar do centro de saúde. “Aparecem-me aqui diabéticos que não são consultados há um ano, apesar de estarem lá inscritos”, exemplifica.

Dos seus três filhos (dois já adultos do primeiro casamento e um de 15 anos do segundo casamento) apenas o mais novo diz que quer ser médico. Para já revela ser um exímio nadador que vai ganhando prémios.

Numa terra que conhece “como as palmas das mãos”, os doentes continuam a procurá-lo e considera ser esse o segredo do sucesso da sua medicina.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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