Domingo, Fevereiro 28, 2021
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Gente da Nossa Terra | Graça Martins, a professora de Artes que deu novas cores ao confinamento dos alunos

Em 2020, o seu trabalho com os alunos em tempo de confinamento colocou-a entre os finalistas para uma Menção Honrosa no Prémio “Adaptação e Inovação no Ensino à Distância”, do Global Teacher Prize Portugal. Onde outros viram adversidades, Graça Martins viu um desafio. Foi mais um obstáculo superado na vida desta professora de Artes Visuais, que em criança era muito míope e, talvez por isso, sempre sonhou ver um mundo diferente. O seu percurso de vida é multifacetado e cheio de aventuras. Não se considera rebelde e confessa ser até bastante tímida, mas soube seguir os seus instintos ao longo da vida, mesmo quando contrariavam o status quo da época. Prestes a iniciar um novo período de ensino à distância, o mediotejo.net foi conversar com a torrejana que fez do pincel a sua arma, por vezes contra tudo e contra todos.

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Nasceu em Torres Novas há 53 anos, mas ainda bastante pequena foi viver para Lisboa. Sendo muito míope, aprendeu a prestar atenção aos pormenores da realidade e a ver o mundo de formas não tão evidentes. Irmã do meio, lia e pintava muito, uma forma que encontrou de introspeção e de ter o seu espaço. Esta maneira de estar inclinou-a para as Belas Artes e a ambição de seguir uma carreira na pintura, sem ter, inicialmente, grande interesse na vertente da docência. “Fui a primeira pessoa na família a traçar este destino, era muito apaixonada pela pintura e pelo trabalho criativo e artístico”, conta.

No decorrer do curso em Belas Artes (inicialmente na Universidade do Porto, depois concluiu a licenciatura na Universidade de Lisboa), já estava a dar aulas. Com 21 anos, “muito cachopita”, sem saber como ensinar e a trabalhar com base na sua intuição e com a ajuda dos colegas mais velhos, “grandes professores carismáticos” da época, iniciou-se na docência com turmas de 5º e 6º anos de contextos sócio-económicos bastante complicados.

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Nos tempos de estudante, na escola António Arroio, em Lisboa. Créditos: DR

Inicialmente em Lisboa e depois em Marvila, trouxe dessa época “histórias deslumbrantes” mas também “situações dramáticas”. O processo foi “duro”, recorda. “Não podia demonstrar medo” aos alunos, mas também sempre teve renitência em mandá-los para a rua. “Era muito ingrato, mas ao mesmo tempo foi maravilhoso”, constata. “Estes meninos sempre me deslumbraram, mais que os privilegiados.”

o próprio Lima de Freitas lhe apontou que teria de ter “muita coragem para continuar a pintar” por ser mulher e mãe. Mas também lhe disse que “quem tem talento tem uma responsabilidade para com o mundo”

Começou a expor, mudou-se para Torres Novas, onde ensinou vários anos na Escola Secundária Maria Lamas, e fez um mestrado em Avaliação Educacional na Universidade Católica. Já mãe de uma menina, iniciou o doutoramento na Universidade de Barcelona, projeto que lhe levou mais de uma década a concluir. Em 1996 ganhou o primeiro prémio no concurso de pintura Mestre Lima de Freitas.

A maternidade criou resistências que não estava à espera de encontrar. A participação no concurso de pintura Mestre Lima de Freitas necessitou de algum investimento monetário em telas e houve numa época em que sentia muita pressão para deixar de pintar, devido ao facto de ter tido um bebé. “Pintei contra tudo e contra todos” e quase por “teimosia”, recorda.

A receber o prémio do mestre Lima de Freitas, um dos maiores nomes da pintura do século XX em Portugal Créditos: DR

Com o primeiro prémio conquistado, o próprio Lima de Freitas lhe apontou que teria de ter “muita coragem para continuar a pintar” por ser mulher e mãe. Mas também lhe disse que “quem tem talento também tem uma responsabilidade para com o mundo”. Graça Martins recorda com orgulho este momento, admitindo que foi preciso alguma coragem para avançar e que as palavras do artista lhe deram força.

Na sua carreira constam outras distinções, nomeadamente em 2009 a Menção Honrosa no 1º Prémio Internacional de Pintura – Fundação Rotária Portuguesa.

Dá aulas no Agrupamento de Escolas de Ourém desde 2014 e confessa que gosta particularmente de trabalhar com adolescentes, considerando ser esta uma fase da vida em que “ainda estão recetivos ao que trazemos para eles” e os olhos brilham quando aprendem algo interessante. “Estou sempre a ser surpreendida”, comenta.

Quando chegou a Ourém a área de Artes estava a “desaparecer”, tendo empreendido um esforço para revitalizar o currículo e criar novas parcerias, nomeadamente com o município, tornando o programa mais atrativo para os alunos, com uma grande exposição final. O projeto tem tido sucesso, contando com o apoio de colegas e da direção do Agrupamento, e conseguiu atrair mais alunos para as Artes, permitindo que a área não desaparecesse da escola pública ouriense e afirmando-se no panorama de ensino artístico no concelho.

“Tolentinas”, série de Graça Martins

A pandemia trouxe necessidades de adaptação, mas Graça Martins considera que foi até positivo para alguns alunos mais introspectivos, que se tornaram mais ousados.

A candidatura para o Global Teacher Prize Portugal foi realizada pelos alunos, que só depois informaram a professora. Graça Martins admite que os seus estudantes gostam de ouvir as suas histórias, até pelos vários projetos educativos e profissionais em que se tem envolvido ao longo dos anos. Eventualmente, reflete, por “me ter feito ao caminho e de ter ousado fazer coisas que não eram prováveis”.

A professora não se negou ao desafio dos alunos e preencheu a documentação, até como exemplo para os jovens de que é necessário, como artistas, exporem-se e irem em busca de desafios. O tema caiu no esquecimento com a pandemia e Graça Martins ficou surpreendida por estar entre os finalistas da Menção Honrosa. Não ganhou, mas gostou da experiência, elogiando o facto de o prémio ter ido para uma professora de Música, uma área que também necessita de valorização em Portugal.

Não são precisos grandes reinvenções na escola, considera, mas frisa a necessidade de se reconhecer o papel do professor e do seu bem estar como essencial. “Enquanto não se entender isto como um setor central na Educação continuamos desviados do assunto”, reflete.

A docente que não gosta da ideia da “Excelência”, porque faz esquecer a necessidade de se apostar na autenticidade de cada aluno, diz que continua diariamente fascinada com o seu trabalho de professora. Admite, porém, que sente falta de alguma “tranquilidade” para voltar a dedicar-se mais à pintura – a sua primeira grande paixão, desde que era uma menina tímida e muito míope, em busca do seu espaço no mundo.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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