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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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Gente da Nossa Terra | A tradição, a arte da latoaria e o talento nas mãos de Francisco Boleto

Aos 80 anos, o artesão Francisco Boleto ainda guarda alguma paciência para dar vida aos seus objetos pela sua própria mão. Com o ofício de latoaria em extinção, resolveu fazer réplicas de utensílios em lata, para promover e mostrar aos jovens das escolas, infantários e outros interessados, como os recipientes em lata eram utilizados pelos nossos antepassados. O mediotejo.net esteve em Galveias (Ponte de Sor) para conhecer a sua arte e ouvir a sua história.

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A candeia iluminava o ambiente e a mesa onde Francisco Boleto estudava a lição que trazia da escola. Com os mesmos olhos azuis luzidios pela candeia, da casa de seus pais, em folha-de-flandres que hoje está exposta no Núcleo Museológico de Galveias, lembra que outros tempos existiram antes dos néons ou da iluminação Led, e que depois da candeia a azeite ainda foi pleno de modernidade o candeeiro a petróleo, numa oferta de luz mais forte.

Francisco Milheiras Boleto tem uma história para todos os artefactos que manufaturou em lata. Só no seu blogue mostra mais de 100 peças. No museu expõe uma enxofradeira manual, uma roca chamada de ladra para apanhar fruta que viu numa feira internacional de artesanato no Estoril, uma réplica de um corredor em chapa galvanizada para medir os cereais quando estes se vendiam a granel ou uma ratoeira para apanhar toupeiras.

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Também vários modelos de candeias, designadamente triplas com três pavios, outras em forma de almotolia ou lembrando as mil e uma noites do conto de Aladino. Candeias que se usavam nos estábulos dos animais, uma quadrada com a função de iluminar lagares de Idanha-a-Velha em noites frias de extração de azeite, uma lanterna triangular para carroças com a particularidade de ser articulada, permitindo ser desmontada e guardada no bolso, e um sem fim de utensílios.

Objetos do artesão Francisco Boleto que se dedicou-se à latoaria depois da reforma. Créditos: mediotejo.net

Prefere trabalhar em folha-de-flandres, embora seja cada vez mais complicado encontrar tal matéria prima. “Agora já não se encontra em lado nenhum, só se for para o Norte!”, diz. Às vezes corre terras onde as drogarias antigas resistem à competição feroz do comércio moderno e pergunta se vendem folha-de-flandres, com sorte ainda encontra uns restos e termina com a mercadoria.

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Mas, a maioria das vezes, resta-lhe contentar-se com a chapa existente. “Dizem que é folha-de-flandres mas não. É parecida! A folha-de-flandres é mais maleável, trabalha-se muito bem e dura mais tempo. A chapa oxida com muita facilidade”, explica. Também utiliza chapa galvanizada, banhada a zinco, para “aguentar melhor a água”.

Nessa chapa moldou jarros para lavatório, cântaros, funis, um deles uma réplica do funil de um conterrâneo que “todos os dias ia encher a pipa à fonte das Galveias para trazer até uma casa em frente da igreja. Tinha depósito e depois era bombear a água até às torneiras” que o abastecimento público como hoje o conhecemos hoje, nem por sombras. Cata-vento, candeias de pé alto com quatro pavios, esta última, antes de haver eletricidade em Galveias “muito usada para velar os defuntos”, recorda.

O artesão Francisco Boleto dedicou-se à latoaria depois da reforma. Créditos: mediotejo.net

Francisco Boleto soma oitenta anos, nasceu na antiga casa dos cantoneiros em frente ao cemitério de Galveias e foi naquela freguesia do concelho de Ponte de Sor que passou a infância. O pai ainda o meteu em trabalhos na agricultura, “era o que havia!” mas Francisco, miúdo franzino aliava a fraqueza aos problemas de estômago. Perante a falta de robustez capaz de enfrentar o duro trabalho do campo, restava encaminhar um dos três filhos para a oficina situada naquela que é hoje a Rua Joaquim Barradas de Carvalho. “E ainda teve de pagar mil escudos”, recorda Francisco.

Assim, na juventude (tinha 17 anos) iniciou-se na aprendizagem da arte da latoaria com o mestre Alberto. Na oficina do mestre ficou três anos “sem ganhar um tostão. Mas era um grande funileiro, tudo o que se punha a fazer, fazia”, conta.

Lembra-se, por exemplo, da novidade das fitas de alumínio para as portas que o mestre trabalhava para os estabelecimentos comerciais que recusavam ter moscas entre os clientes. “Tudo inventado por ele, depois veio o plástico e a novidade acabou. Hoje também já não está na moda”, nota o artesão.

Objetos do artesão Francisco Boleto que se dedicou-se à latoaria depois da reforma. Créditos: mediotejo.net

Mais tarde Francisco abriu a sua própria oficina em Galveias onde trabalhou até ir para a tropa, para cumprir um serviço militar de três anos. Quando voltou “a arte já estava a fraquejar”. A atividade entrava em decadência devido ao aparecimento de outras matérias-primas, como o plástico, e também por terem caído em desuso alguns objetos. 

O plástico “era muito barato as pessoas facilmente fizeram outras escolhas, enquanto as fábricas fabricavam os artefactos, copiavam a arte da latoaria. O que era em chapa passou a existir em plástico”, refere.

Sem ofício que lhe desse sustento, Francisco partiu para Lisboa. Esperava-o a grande Lisnave, nessa época ainda com estaleiros na Conde de Óbidos, onde entravam os maiores navios. À capital chegou com a quarta classe mas por lá decidiu prosseguir os estudos e tirar o curso industrial de serralheiro na Escola Marquês de Pombal. Um passo que lhe permitiu entrar na TAP para trabalhar como mecânico de aviões, empresa na qual permaneceu 26 anos, praticamente ao lado da Póvoa de Santo Adrião, onde mantém a sua residência.

Dos estaleiros navais para os hangares, passaram mais de 30 anos sem retomar a arte da latoaria, contudo sem nunca esquecer os segredos do oficio, pairando na memória cada vez que, em passeio pela capital, notava o desaparecimento de mais um artesão. Aquando da sua ida para Lisboa “por todo lado haviam oficinas destas. E fora da cidade, era raro encontrar um lugar onde não houvesse pelo menos uma pessoa a trabalhar neste oficio da latoaria”.

Presépio criado por Francisco Boleto. Créditos: DR

Por isso, chegada a reforma, em 1996, confirmando que as oficinas, nas ruas onde outrora moravam, tinham desaparecido e que ninguém fabricava tais artefactos, decidiu pegar na arte para a divulgar particularmente junto dos jovens, em feiras, nas escolas e até nos infantários onde perdeu a conta às demonstrações que fez e às explicações que deu. “As crianças gostavam muito. Queriam saber tudo. São muito curiosas e ainda bem!”, afirma.

Algumas peças aprendeu na oficina do seu mestre Alberto outras foi copiando. Francisco Boleto dedicou-se então às feiras de artesanato e às escolas em sessões demonstrativas da arte do latoeiro. Inscreveu-se como artesão da Associação de Lisboa, tendo conquistado sem grande esforço um primeiro prémio numa exposição, peça que acabou por ir morar em São Miguel, nos Açores.

Em 2011, na Feira Internacional de Lisboa (FIL) concorreu ao Prémio Internacional de Artesanato com uma escalfeta obtendo um menção honrosa. “Fiquei todo contente por mais gente poder apreciar a peça”, recorda.

Por causa dessa peça lembra as muitas cavacas de madeira que acartou para a sua professora primária poder meter as brasas na escalfeta nos invernos rigorosos em que os pés adormeciam ao frio, não fosse o calor da lenha. “As vezes esquecia-me de trazer as brasas e obrigava-me a ir a casa buscá-las”, conta.

Escalfeta manufaturada por Francisco Boleto. Créditos: DR

À Junta de Freguesia de Galveias, Francisco Boleto doou cerca de 75 peças, 55 de uma primeira vez e 20 mais recentemente. Algumas estão em exposição e outras guardadas, aguardando que o museu cresça para poderem ser mostra pública. A ideia até passa por recriar uma cozinha alentejana e um espaço para as ferramentas das profissões existentes na Galveias de antigamente, como o sapateiro ou o barbeiro. De Francisco futuramente poderá ver-se a bancada de trabalho, “feita pelo grande carpinteiro da terra; João Lopes”, a fieira, o torno para as peças mais pesadas ou o engenho de furar a lata.

Mas, na contagem total, o número de ferramentas aumenta. Na sua arte utiliza martelos (de bola, de pena e de embutir), maços de madeira, punções, embutideira, goivas, buris, compasso de bico, alicates (universal, de pontas redondas e chatas), tesoura de funileiro, bigorna de latoeiro, fieira de latoaria manual, ferro de soldar e estanho.

Tem para si que a profissão de latoeiro é mais difícil do que a atividade que o ocupou durante 26 anos, na qual analisava e consertava motores de avião. “É difícil dobrar a chama, bater.. às vezes nos dedos. Nem sei quanto tempo pode levar a fazer uma peça mais elaborada, mas leva muito… dias e dias. Monetariamente não compensa”, garante.

Corredor para cereais manufaturado por Francisco Boleto. Créditos: DR

Francisco acarinha e cuida daquela arte, embora o animo esteja longe do entusiasmo de outros tempos. Mas apela para que cuidem dela e dos respetivos objetos de lata. Caso contrário “oxidam, ficam feios e as pessoas deitam fora. Daqui a uns anos não há peças desta arte” mas nas feiras eram muito apreciadas pelos amantes do estilo rústico afirma contando que marcava presença na Feira de Artesanato do Estoril – durante todos os meses de verão -, na Feira de Loures, na Feira de Outubro de Vila Franca de Xira, em feiras medievais, designadamente em Queluz, nas quais mostrava e vendia a quem passava mas também aprendia com as histórias que ouvida dos clientes mais faladores.

Certo dia um deles contou-lhe, ao assentar os olhos numa foice em exposição, que “na altura da ceifa ele e o pai não tinham mãos a medir a fabricar foices para todo o país”. Francisco “pensava que as foices eram feitas numa máquina” mas o cliente explicava que as foices batiam-se na forja até encurvar e depois era fazer, com um escopro, as serrilhas para cortar.

A latoaria aprende-se com a prática, assegura, “nos aviões seguiam-se os manuais e devagar, sendo um trabalho de grande responsabilidade, a segurança é prioritária e a pressa inimiga da perfeição”.

O artesão Francisco Boleto dedicou-se à latoaria depois da reforma. Créditos: mediotejo.net

Como qualquer arte, tem segredos. “A lata é soldada a estanho, numa zona bem limpa, e pode ser com ácido, mas oxida com muita facilidade, ou com ‘pejolouro’, uma pedrinha feita à base de resina que derrete em contacto com o ferro quente. A chapa galvanizada pouca soldadura tem, é cravada com arrebites de bater”, explica.

Aprendizes é que nunca teve nem tem. “Ninguém está interessado. Gostava muito de ensinar alguém mas não dá dinheiro”, lamenta.

Francisco manteve um amor quase não correspondido pela arte da latoaria toda a sua vida, mas por fim conseguiu resgatá-lo e meter as mãos à obra, apresentando uma grande diversidade de peças. Algumas mais inusitadas outras mais tradicionais como a sertã que os trabalhadores rurais levavam para os imensos campos alentejanos. Nela cozinhavam as migas do almoço e com elas desafiavam-se uns aos outros, numa espécie de campeonato de lançamento de migas por volta das pernadas dos sobreiros, recorda.

Pandeireta em folha de Flandres. Créditos: mediotejo.net

Na lista das peças tradicionais destaque para a pandeireta trabalhada em folha de Flandres. Quando os rapazes tiravam as sortes para ir para a tropa, os apurados todos juntos, com um músico a tocar concertina, percorriam ruas de Galveias com uma pandeireta cheia de fitas nas mãos. “Tocávamos, cantávamos e entrávamos em todas as ‘capelinhas’, as tabernas. Depois tínhamos o jantar das sortes, geralmente feito pelas nossas mães. Quando éramos aprovados para a tropa ficávamos todos contentes, portanto era uma festa”, conta sem esquecer que iniciou a tropa no inicio da Guerra do Ultramar.

Gasómetro feito pelo artesão Francisco Boleto. Créditos: DR

Orgulha-se de algumas peças serem únicas como o Santo António, os presépios, os gasómetros que iluminam na rua mesmo enfrentando a força do vento. Aliás, Francisco Boleto manifesta gosto em ainda fazer uma exposição temática sobre a história da iluminação. Quem sabe a oportunidade surja, para que não seja o último a apagar a luz.

Santo António criado por Francisco Boleto. Créditos: DR

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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