Gente da Nossa Terra | A ilustre casa de Vasco Ramires, guardiã das memórias dos cavaleiros olímpicos tramagalenses

Vasco Ramires, cavaleiro olímpico, na Quinta dos Choupos em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Não se lembra da primeira vez que viu um cavalo porque, na verdade, cresceu entre eles, em Tramagal, no concelho de Abrantes. Vasco Braamcamp Freire Ramires, de 55 anos, pertence a uma família já na quinta geração de cavaleiros hípicos. Uma história que o representante de Portugal nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona, partilhou com o mediotejo.net, recordando que a tradição equestre começou com o tio do seu avô, General Carlos Ramires, vencedor do Campeonato do Cavalo de Guerra em 1919, e se consolidou com o seu pai, o Coronel Vasco Ramires, uma glória do hipismo português que participou nos tragicamente célebres Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A mais jovem geração, Vasco, Diogo e Matilde, dão continuidade à paixão pelo mundo equestre.

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Parece inevitável iniciar esta história recordando a obra “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós, na qual o escritor descreve o passado glorioso de uma família. A história de Vasco Ramires tem semelhanças se falarmos de glória, à qual se acrescenta a paixão por cavalos numa família já na quinta geração de cavaleiros, dedicados a uma modalidade em que a aprendizagem nunca finda.

Espalhados pela Quinta dos Choupos, em Tramagal, os cavalos enriquecem o ambiente campestre pelo contraste das suas cores que variam entre o cobre e o castanho, com o verde dos sobreiro e do restante arvoredo. Quase ao lado situa-se a Quinta dos Vales, onde o avô de Vasco Ramires construiu o primeiro turismo rural do País com cavalos, que em época áurea recebeu um elevado número de turistas estrangeiros.

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Quinta dos Choupos em Tramagal (Abrantes). Créditos: Jorge Santiago

A tradição dos cavalos na família de Vasco Braamcamp Freire Ramires vem do tio do seu avô, o primeiro cavaleiro desta dinastia. Na verdade eram dois os tios militares, ambos oficiais de cavalaria que se apresentaram a concurso. O Capitão José Joaquim Ramires “morreu cedo”, em janeiro de 1919, e atualmente dá nome à Rua Capitão Ramires, junto ao Campo Pequeno [Lisboa].

Conta-se entre os oficiais de cavalaria que se dedicaram à aviação. “Um dos primeiros aviadores da Força Aérea morreu ao aterrar em Santarém”, aquando de um movimento revolucionário que ali eclodira, para se desviar de pessoas que se encontravam no campo, deslizou lateralmente e foi embater “na Torre do Seminário”, naquele que foi um dos primeiro desastres da aviação portuguesa, conta Vasco Ramires.

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O irmão, o General Carlos Ramires participou no primeiro Concurso de Saltos Internacional Oficial de Lisboa, em 1911, ou seja, nos primórdios da modalidade, e “ganhou duas vezes o campeonato do Cavalo de Guerra em Torres Novas”, a primeira em 1919. “Chegou a ir com uma equipa nacional a Madrid. O meu bisavô também montava mas nunca saltou a cavalo”, acrescenta. Nas gerações seguintes, o avô, oficial de engenharia, e o tio, oficial de artilharia, também saltaram a cavalo, como militares, e o pai, Vasco Luís Pereira Esteves Ramires, foi já um cavaleiro com projeção mundial.

“Os meus avós, pais da minha mãe, conheceram-se num picadeiro onde montavam a cavalo em Lisboa. O meu trisavô, Conde de Fontalva, foi o sócio fundador da Sociedade Hípica Portuguesa e do Turf Club, a primeira pessoa a trazer cavalos de puro sangue inglês para Portugal”

Numa vida dedicada ao treino e à preparação de cavalos e cavaleiros, Vasco Ramires refere, às páginas tantas, o acaso para uma “convergência de duas situações equestres”. A paixão pelo desporto a cavalo chegou, então, através da vida militar dos familiares do lado paterno, e por via aristocrática do lado materno.

“Os meus avós, pais da minha mãe, conheceram-se num picadeiro onde montavam a cavalo em Lisboa. O meu trisavô, Conde de Fontalva, foi o sócio fundador da Sociedade Hípica Portuguesa e do Turf Club, a primeira pessoa a trazer cavalos de puro sangue inglês para Portugal. No primeiro concurso internacional de Lisboa era o presidente da Sociedade Hípica que o organizou”.

A mãe de Vasco Braamcamp Freire Ramires também montava a cavalo, tal como a avó e as suas irmãs. Ocupou por diversas vezes a função de júri internacional de concursos ao nível de três estrelas, considerado um grau elevado. E o avô materno toda a vida lidou com cavalos de raça lusitana.

Nesta história de família, destaque para os episódios vividos pelo seu pai, o Coronel de Cavalaria Vasco Ramires. Tornou-se uma glória do hipismo nacional com cerca de 150 vitórias nas mais de 600 classificações onde participou, representando Portugal nos tragicamente célebres Jogos Olímpicos de Munique em 1972, marcados pelo atentado da organização terrorista ‘Setembro Negro’, durante os quais foram sequestrados e massacrados vários atletas israelitas, e que marcaram o seu percurso de cavaleiro pelos resultados obtidos na competição. Fazendo um ponto de situação são, portanto, quatro os Vascos Ramires desta dinastia: avô, pai, filho e neto.

Vasco Ramires (o nosso entrevistado), tinha sete anos em 1972, frequentava a escola em Santarém, e lembra-se que, pela proeza dos Jogos Olímpicos, “toda a gente lhe dava os parabéns. Os professores da escola vinham à rua para cumprimentar o meu pai, todos tínhamos brincado com os cromos dos Jogos Olímpicos… e eu tinha o cromo do meu pai. Achava que era uma brincadeira como outra qualquer.”

“Os professores da escola vinham à rua para cumprimentar o meu pai, todos tínhamos brincado com os cromos dos Jogos Olímpicos… e eu tinha o cromo do meu pai. Achava que era uma brincadeira como outra qualquer”

O pai falava sobre os Jogos Olímpicos de Munique “mas o ataque, em relação aos outros atletas, foi imediatamente abafado. Não o perturbou. O meu pai vinha da guerra de África, para outra ‘guerra’ em Munique”, nota, contando que um outro cavaleiro que acompanhou o Coronel Vasco Ramires aos Jogos Olímpicos de Munique é de Rio de Moinhos (Abrantes), o Coronel Carlos Campos. Ambos iniciaram a prática de equitação em Tancos.

Coronel Vasco Ramires – Jogos Olímpicos do Munique com Sire du Brossais. Créditos: DR

Quando Vasco Ramires compreendeu a importância daquele evento multidesportivo global, ir aos Jogos Olímpicos tornou-se um objetivo de vida. Por isso, de 1980 até 1992 a vida de Vasco “foi uma azáfama” em termos equestres. “Deixei de ir à escola, montava todos os dias. Ia às provas e a todos os concursos nacionais”, recorda. E foi mesmo a Barcelona em 1992, um feito olímpico que lhe trouxe notoriedade e satisfação pessoal, particularmente porque na prova de obstáculos foi aplaudido de pé.

“No último dia, fiz a melhor prova de obstáculos, dei-lhe alegria. Saí de lá sem a medalha mas com o público todo de pé a bater palmas. Essa ninguém me tira!”, afirma. Um reconhecimento que, no entanto, não lhe trouxe qualquer acréscimo financeiro. “Se me virassem do avesso não caiam 25 tostões”, brinca.

“Saí de lá sem a medalha mas com o público todo de pé a bater palmas. Essa ninguém me tira!”

VIDEO DA PROVA DE VASCO RAMIRES NOS JOGOS OLÍMPICOS DE BARCELONA’92

A possibilidade surgiu após a angariação das verbas necessárias, no caso “à boa maneira portuguesa” através de publicidade para vender terrenos. Preparou-se então uma equipe para os Jogos Olímpicos. Recorda que aos estágios oferecidos pela Federação Equestre Portuguesa, com técnicos estrangeiros, foram cerca de 100 pessoas “e acabou por ser um grupo escolhido do qual tive a honra de fazer parte”, explica, assegurando que em Portugal “existem talentos fantásticos”.

 

O cavaleiro olímpico Vasco Ramires, na sua Quinta dos Choupos, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Dedicação, esforço e aperfeiçoamento na formação

Sendo Portugal um país de grande tradição equestre, foi quando, pela modalidade, Vasco começou a viajar para o estrangeiro percebeu que “as pessoas cultas conheciam Portugal por duas razões: Viriato, por ser a primeira cavalaria do mundo, e Vasco da Gama”.

Compreendeu que além fronteiras existe uma memória equestre portuguesa. “Os estrangeiros ficam encantados com o toureiro a cavalo e a saltar a cavalo também temos um historial dessa época de ouro do desporto nacional, embora curta. O meu pai foi dos últimos militares cavaleiros a ganhar o grande prémio de Madrid e o Internacional de Lisboa, a seguir já foram civis”.

Nascido em Lisboa, Vasco Ramires viveu os seus primeiros cinco anos em África. Regressou em 1974 e, no ano seguinte, começou a participar em concursos. Aos 10 anos montava um cavalo “a meias” com o pai. Sublinha que o hipismo é dos 7 aos 77 anos… “Competi com o cavalo Hussard, um anglo-luso nascido na casa”. Com essa montada sagrou-se campeão nacional de juvenis e duas vezes de juniores. Foi selecionado para ir a França ao concurso de saltos internacional oficial de juniores. “O que na altura teve uma grande importância”, pois “representava mais que o campeonato da Europa porque veio uma equipe americana”, sublinhou.

Nesse concurso internacional, com uma égua alugada, percebeu a dimensão do desporto e teve acesso a um mundo que toda a vida ouvira falar mas nunca tinha vivenciado. “Contra a indicação e insistência de toda a gente, em vez de ir montando e estudando achei que, para me dedicar aos cavalos, o melhor era não estudar mais” para dar continuidade ao trabalho do avô, na Coudelaria dos Vales, situada precisamente na Quinta dos Vales, em Tramagal, onde criou cavalos de raça anglo-luso e puro-sangue inglês.

Vasco Ramires com Oriy du Moulin – CPCO. Créditos: DR

Ao falar na terra que o acolheu, recorda a existência da Sociedade Lebreira do Tramagal, que organizava caçadas a lebres, uma oportunidade para “democratizar” o cavalo entre as gentes uma vez que montar era visto como uma prática de elites, “e como não havia competições de inverno, as pessoas que gostavam de montar a cavalo reuniam-se. A lebre era um pormenor”, observou.

As caçadas decorriam na pista da Valeira Alta [em Santa Margarida], “onde [o General] Franco e [António de Oliveira] Salazar iam assistir. Quem gostava de cavalos acabava por aparecer nas mesmas coisas: nas corridas de toiros, nas corridas de galope, nos concursos hípicos, nas lebres”, conta-nos, falando no avô como grande divulgador da cavalaria.

Até nos Açores, nas Lajes (ilha Terceira) os cavalos têm uma história ligada à dos Ramires. “Numa altura muito fechada, durante a Segunda Guerra Mundial, o meu avô contava sobre a invasão da França, e lembrava-se que durante vários dias os aviões aterravam e levantavam ininterruptamente.”

Em Moçambique também, num centro hípico de Lourenço Marques. “Aliás, Portugal foi o primeiro país do mundo a ter dois concursos internacionais oficiais com Taça das Nações em Lisboa e Lourenço Marques. O meu pai esteve em Angola nos Dragões de cavalaria em Silva Porto que foi o último esquadrão ‘organizado’ do mundo a combater a cavalo”, conta.

Vasco Ramires, cavaleiro olímpico na Quinta dos Choupos em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Em 1983 viajou até à Bélgica para estagiar com o cavaleiro brasileiro Nelson Pessoa, conhecido como “Feiticeiro” devido ao estilo que usava para conduzir o seu animal, o que parecia ser uma obra de encantamento. E com quem compreendeu que os cavaleiros se distingem uns dos outros optando por uma equitação feita na sensibilidade. Importa “o diálogo” entre o cavaleiro e o cavalo, também como método de aperfeiçoamento das capacidades atléticas do último.

“Pedia-se aos cavalos, não se obrigava. Temos a mania de agarrar o cavalo logo pela boca. É uma agressão! O cavalo tem de ser educado” para conseguir expressar-se com harmonia, explica.

Diz ter obtido a sua “melhor aprendizagem” com Nelson Pessoa, quando entendeu o desporto equestre em si. Trabalhou também com o campeão português Manuel Malta da Costa, no mesmo estádio equestre. “Nas técnicas, era tudo ao contrário do que se fazia cá”, lembra. Notou “uma evolução de mentalidade equestre”, o que garante ter-lhe permitido chegar aos Jogos Olímpicos de Barcelona com um cavalo nacional, o anglo-luso Baone.

Um dos cavalos de Vasco Ramires. Créditos: Jorge Santiago

Lá fora, nos Jogos Olímpicos

A relação com os cavalos tinha sido transmitida pela família Ramires. Mais tarde, quando saiu de Portugal, desenvolveu a evolução no meio equestre. Aponta vários estágios pagos pela Federação Equestre portuguesa como preparação para os Jogos de Barcelona e antes das Olimpíadas permaneceu três meses em Inglaterra como pré-selecionado, em casa do campeão olímpico Richard Meade.

Também fala no aclamado mestre Nuno de Oliveira como uma referência do hipismo que recolheu, apesar de ser português, no ambiente equestre internacional. “Mostrou que havia uma maneira de lidar e de pedir o trabalho artístico aos animais, os difíceis, sem os brutalizar mas pela harmonia” contribuindo para o bem-estar dos cavalos.

Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, o objetivo passava por ficar a meio da tabela. Em 82 cavaleiros classificou-se em 41. Antes da prova maior, competiu em três em Completo e sagrou-se campeão nacional em 1991.

A certa altura teve “a noção real” de como a modalidade tem de acontecer: “Nunca mais consegui enganar-me porque estar em Portugal a querer fazer concurso Completo é a mesma coisa que querer pegar touros em Inglaterra”, critica.

“Durante 3 meses do ano é bom mas depois é um sofrimento para nós e para os animais”, apesar de atualmente considerar existirem em Portugal equipes capazes.

“Mas levou muito tempo a podermos bater-nos com os estrangeiros de igual para igual. No ano passado a equipe de dressage venceu um internacional em Inglaterra. Contudo falta mais afición, mais envolvimento da sociedade”, ou seja, patrocinadores e proprietários.

Vasco Ramires defende que a prática da modalidade necessita de “condições a sério”. Sugere a criação de “uma indústria equestre no país, para que as equipes sejam montras da produção de cavalos” para incrementar a atividade. A acrescentar “a lei do mecenato evoluiu muito em todo lado” mas em Portugal “está muito atrasada”, considera.

“Em Abrantes, um campo interessantíssimo, com um enquadramento que não há em mais lado nenhum, e quando fizeram as obras ninguém se lembrou que é preciso deixar um espaço para o campo de aquecimento. Precisava de um picadeiro municipal permanente ali por baixo da tenda”, diz, referindo-se ao Hipódromo dos Mourões, em Rossio ao Sul do Tejo

Sugere também “uma rota de concursos durante o verão pela costa portuguesa”. E critica o que se faz localmente. “Em Abrantes, um campo interessantíssimo, com um enquadramento que não há em mais lado nenhum, e quando fizeram as obras ninguém se lembrou que é preciso deixar um espaço para o campo de aquecimento. Precisava de um picadeiro municipal permanente ali por baixo da tenda”, diz, referindo-se ao Hipódromo dos Mourões, em Rossio ao Sul do Tejo.

Quinta dos Choupos em Tramagal (Abrantes). Créditos: Jorge Santiago

O cavalo olímpico, o campeão e o cavaleiro vencedor

O cavalo é o único animal nos Jogos Olímpicos. As disciplinas de hipismo são únicas entre as modalidades olímpicas, no sentido em que os homens e mulheres competem nas mesmas condições, pelas mesmas medalhas, e o cavalo e o cavaleiro são ambos declarados vencedores da medalha olímpica.

O Curso Completo de Equitação apresenta-se como uma competição combinada de competições de Ensino, Cross-country e Salto de Obstáculos, que são realizadas ao longo de três dias consecutivos.

Atualmente “as boas práticas equestres pensam na valorização dos cavalos. Cuidados com os pisos, a forma como se pede as coisas, porque se um animal se estropia são vários anos de aprendizagem que se perdem”, observa Vasco, fazendo notar que “os cavalos bons são lendários no mundo, como as pessoas, são imortais!”.

Para Vasco Ramires “é fundamental existir uma cumplicidade entre o cavaleiro e o cavalo. É preciso haver arte. O cavalo consegue compreender o ser humano e o desporto. Para alterar, basta o nosso estado de espírito. Há dias em que não conseguimos perder, há um estado de espírito tal que fazemos as coisas com uma leveza e naturalidade que pode haver um grande erro mas o cavalo salva o dia. Há outros em que não conseguimos ganhar. Quando vamos tensos, é um dia perdido”, garante.

Os cavalos do cavaleiro Vasco Ramires. Créditos: Jorge Santiago

Cada cavalo tem a sua personalidade, mas de uma maneira geral procuram dar o seu melhor, “só não o fazem se não se sentem bem fisicamente. Isso também acontece.. Os cavalos quanto mais atléticos, quanto mais conhecedores do que têm de fazer mais exigem de nós. Percebem tudo o que se passa à volta deles, são animais muito sensíveis. Contudo, com o treinador tem de haver um certo distanciamento, porque os cavalos não podem perder o instinto, ficarem demasiado domesticados. Ao mesmo tempo o treinador tem de estar perto quando precisa”, explica.

Depois de criar cavalos em Tramagal, Vasco Ramires dedicou-se a dar lições, deixando para trás a competição desportiva. Para seu orgulho e satisfação, os três filhos gostam de montar a cavalo. Vasco Ramires, que herdou o nome do pai e do avô, é mais um cavaleiro da família, e Diogo e Matilde também montam, o que para Vasco “conta mais que tudo”.

Também a irmã mais nova de Vasco, Rita Ramires, se dedicou ao hipismo, destacando-se uma vitória no internacional de Lisboa, e o primo Gonçalo Ramires Villas-Boas tem saltado, sempre como amador, uma vez que é arquiteto de profissão, mostrando-se um cavaleiro muito competitivo.

Vasco Ramires com Oriy du Moulin – Internacional de Lisboa. Créditos: DR

Vasco educou cavalos campeões, e para ser campeão “tudo é importante”. Desde as origens do cavalo à qualidade da criação e depois à qualidade da educação. Quanto à criação, começa logo pelas origens. “É fundamental uma boa mãe. A uma boa égua pode juntar-se qualquer garanhão que dá um bom filho, mas o contrário já não é certo”, explica.

Na continuidade da tradição equestre Vasco nunca optou por abrir uma escola de equitação mas na Quinta dos Vales ou na Quinta dos Choupos sempre se ensinou. “Dizia o meu pai que ‘não pretendo ensinar ninguém menos aqueles que queiram aprender comigo’. Se alguém quisesse aprender ensinava”, refere.

O cavaleiro olímpico lamenta que hoje sejam poucos os jovens que se interessam pela equitação, apesar da quantidade de bons cavalos devido à evolução da criação. “Qualquer pessoa que tenha o mínimo talento e que se queira dedicar a montar a cavalo, consegue bons resultados”, afirma.

No cavalo, a função é que define a raça. “O animal tem de ter uma boa atitude dinâmica, calibrado do ponto de vista da funcionalidade. Os cavalos de obstáculos têm de ser ágeis, atléticos. Cada vez mais se procura o cavalo mais ligeiro, já não se procura o cavalo robusto. Ágil mas forte ao mesmo tempo. E corajoso! Tal como o cavaleiro têm de ter coragem, para ir a alto nível”.

“Os cavalos de obstáculos têm de ser ágeis, atléticos. Ágil mas forte ao mesmo tempo. E corajoso! Tal como o cavaleiro têm de ter coragem, para ir a alto nível”

Vasco assegura que devido à sua extrema sensibilidade “os cavalos entram em pista e sabem a que altura estão” os obstáculos. “Se há um salto um furo acima percebem logo. São animais de rotinas o mais possível, têm um relógio suíço” que bate ao segundo.

Os cavalos do cavaleiro Vasco Ramires. Créditos: Jorge Santiago

Um cavalo atinge o nível de grande prémio por volta dos 10 anos, depois vai-se mantendo até por volta dos 18.

Define um bom cavalo como “aquele que alinha connosco, que coopera, entrega-se, parece que nasceu para a modalidade”. Essa entrega também tem componente genética.

E um bom cavaleiro? Tem de ter “espírito de sacrifico e muita vontade”. Porque “há coisas difíceis de saber e de executar. É preciso uma grande entrega. É na relação com o animal, insistir até ser capaz de executar bem. Um bom cavaleiro tem uma boa coordenação dos movimentos, de braços e pernas. Capaz de executar diferentes funções ao mesmo tempo”, explica. Nota que a modalidade difere das outras também no ponto que “não é ganhar, empatar ou perder”.

“O melhor cavaleiro do mundo em cada cem provas ganha cinco. Isto não acontece em mais nenhum desporto”.

Vasco Ramires, cavaleiro olímpico na Quinta dos Choupos em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Competições canceladas e o impacto da covid-19 no hipismo

Com as competições nacionais e internacionais canceladas, com os Jogos Olímpicos de Tóquio suspensos e adiados para 2021 devido à pandemia de covid-19, o impacto poderá ser negativo e causar perdas irreparáveis na modalidade, essencialmente devido ao fator tempo.

“Os cavalos vivem cerca de um terço dos humanos e o tempo de vida útil desportiva é limitado, se um cavalo está no auge da forma e falhar os Jogos… é uma decepção!”

Para Vasco Ramires o maior problema nem se prende com a suspensão dos Jogos Olímpicos mas com a falta de eventos e competições com os atletas em casa. “O problema é não haver nada. Todas as competições clássicas até durante a Guerra aconteceram, e agora não há. Muitos cavaleiros prepararam uma época ou duas épocas a pensar nos Jogos. Há muita competição, mas os Jogos são o acréscimo, o sonho”.

Vasco Ramires acredita que a solução pode passar por um recomeço regional, nacional. Contudo considera ser este momento de paragem “uma boa altura para corrigir pormenores, para vir atrás, uma oportunidade de melhoria”. E fora da competição merece ser aproveitada de forma lúdica, “para as pessoas montarem a cavalo, por prazer”.

O próximo concurso decorre já de 19 a 21 de junho na Golegã, com a Competição de Saltos Nacional B e Taça da Juventude.

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