“Genes, memes e ‘democratas não-praticantes’”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Marta Monteiro

“A única maneira de praticar a democracia, é praticar a democracia”
– Hu Shih, filósofo chinês pró-democracia, sugerindo que não existe tal coisa como “democratas não-praticantes”.

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DOS GENES E MEMES…

Podemos não saber porque existimos, mas temos a obrigação de saber para que existimos e como podemos fazê-lo com maior felicidade ou sentimento de realização. Enquanto os puristas do criacionismo mantêm a milenar e sagrada tese divina, os defensores do evolucionismo esforçam-se há século e meio por demonstrar o paradigma da evolução por selecção natural das espécies, ao longo de três ou quatro biliões de anos. Mas foi apenas há meio século que um jovem professor de Oxford, nascido em 1941 no Quénia, publicou um livro que marcou e popularizou a visão da evolução centrada no gene, introduzindo o inovador conceito de meme.

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O Gene Egoísta foi considerado, em 2016, o décimo melhor livro de não-ficção (Robert McCrum, The Guardian). No ano seguinte, a prestigiada Royal Society britânica elegeu-o o livro científico mais influente de todos os tempos, à frente de Breve História de Quase Tudo de Bill Bryson e, até, de A Origem das Espécies de Charles Darwin. Nessa obra seminal, publicada pela primeira vez em 1976, o zoólogo, etólogo e biólogo evolucionista Richard Dawkins defende que somos máquinas de sobrevivência ao serviço dos genes, num processo competitivo visando construir a máquina mais eficaz. É o gene que é egoísta, sublinha Dawkins, não necessariamente o indivíduo, o grupo ou a espécie.

O autor foi considerado pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo e incluído na lista dos cem maiores génios vivos, publicada pelo The Daily Telegraph. As suas ideias, embora baseadas em estudos prévios de George Williams, John Maynard Smith, William Hamilton e Robert Trivers, são tidas como revolucionárias e inovadoras, devendo-se grande parte das polémicas e críticas à incompreensão ou desvirtuamento da sua teoria. Com este pano de fundo, e se não fosse por mais nada, já valia a pena conhecer o seu pensamento e – para isso deve servir a ciência – utilizá-lo para melhor compreender a realidade.

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Richard Dawkins e a primeira edição portuguesa do livro O Gene Egoísta. A sua vasta obra inclui A Desilusão de Deus e outras abordagens às origens da vida que, de alguma forma, desfocaram o debate sobre O Gene Egoísta.

Afirma, então, Richard Dawkins que “uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável. Em geral o egoísmo do gene originará um comportamento individual egoísta. No entanto, tal como veremos, existem circunstâncias especiais em que um gene pode atingir mais efectivamente os seus próprios objectivos egoístas cultivando uma forma limitada de altruísmo, que se manifesta ao nível do comportamento individual”. Neste sentido, diz, “o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista [meramente] evolutivo”.

O cientista reconhece que “uma sociedade baseada apenas na lei do egoísmo impiedoso dos genes seria uma sociedade execrável mas, infelizmente, por mais que se considere uma coisa execrável, ela não deixa, por isso, de ser verdade, aplicando-se a todos os organismos ou formas de vida, sejam eles animais, plantas, bactérias, vírus ou fungos. Esta constatação, conclui o autor, “deve ser lida como um aviso, [pois] quem desejar construir uma sociedade em que os indivíduos cooperem generosa e desinteressadamente para o bem-estar comum, deve tratar de ensinar a generosidade e o altruísmo, porque nascemos egoístas”.

Para Richard Dawkins “é um erro supor que os traços herdados geneticamente são, por definição, fixos e inalteráveis. Os nossos genes podem instruir-nos a sermos egoístas, mas não somos necessariamente forçados a obedecê-los a vida toda”. De facto, diz, “entre os animais, o homem é dominado de uma maneira muito singular pela cultura, por influências aprendidas e transmitidas de geração em geração”. O cientista designou a unidade de replicação cultural por meme, o fragmento cultural ou ideia que pula de cérebro para cérebro por via de imitação ou influência social (vulgo passa-palavra) – como uma estrutura viva e não apenas metafórica – do mesmo modo que o gene pula de um indivíduo para outro através dos espermatozóides ou óvulos.

A Teoria dos Seis Graus de Separação (ou do Pequeno Mundo) – estamos, em média, a seis pessoas de distância de qualquer pessoa no mundo – explica a rápida propagação dos memes, através do processo de interacção e influência social (vulgo passa-palavra).

“O caldo primordial molecular originou os genes que originaram os cérebros. E os cérebros são o novo caldo onde os memes se propagam, se modificam e evoluem”, disse, revelando que se inspirou na palavra grega mimeme e na francesa même para chegar a meme. A cultura, acrescentou Dawkins, também evolui: “As línguas faladas pelos homens e o canto dos pássaros, entre outros comportamentos, são aprendidos, replicam-se entre indivíduos [tal como as músicas, ideias, soundbites, roupa de moda, etc.]”, permitindo-lhes libertar-se do egoísmo inerente às moléculas a que chamamos genes. 

Apresentando o meme como “uma analogia para o gene, para ilustrar o argumento de que a selecção natural de Darwin pode, em princípio, funcionar com qualquer informação codificada auto-replicante”, o autor esclarece que os memes são “unidades de hereditariedade cultural, copiadas de mente para mente, com a capacidade de funcionar como os genes, de forma semelhante à selecção natural darwiniana”. Em 1993 e por sugestão de Mike Godwin, os internautas adoptaram a palavra meme para designar imagens acompanhadas de uma mensagem simples e destinadas a propagação viral nas redes sociais, considerando Dawkins que se trata de uma apropriação interessante, mas enviesada e redutora do conceito evolucionista.

…À ABSTENÇÃO ELEITORAL

Apetrechados com a teoria evolucionista de Richard Dawkins, utilizemo-la para tentar compreender um dos comportamentos humanos que mais tem intrigado os pensadores e investigadores sociais: a abstenção eleitoral. Como é possível que eleitores livres e carenciados prescindam do direito democrático de escolher quem os irá representar e governar, deixando a outros – de quem não gostam e em quem não confiam – a prerrogativa de o fazer, determinando o seu futuro? Platão é, neste contexto, frequentemente citado como tendo dito que “o castigo maior de quem se demite de escolher os que governam, é ser governado por quem é mal escolhido pelos outros” (in A República, Livro 1, 346-347).

Os abstencionistas ignoram o real poder que têm nas suas mãos, por não compreenderem nem confiarem na força da acção colectiva. No cartoon, dois terços do eleitorado diz: “Nós não votámos porque isso não faria a diferença!”.

Pela lógica de O Gene Egoísta, a máquina de sobrevivência que é cada um de nós devia empurrar-nos para a urna de voto e, egoisticamente, fazer-nos escolher aqueles/as que melhor serviriam ou garantiriam a nossa perpetuação e desenvolvimento, enquanto indivíduos e sociedade. Quem ignora que somos seres sociais e a nossa viabilidade individual depende significativamente dos outros, desde que nascemos até que envelhecemos (e sobretudo nestas etapas da vida)? Já nem falo de uma pretensa motivação ou determinante altruísta e solidária, a impelir-nos para a urna com a finalidade de cuidar do bem comum ou, quiçá, exclusivamente dos outros…

É certo que muitas hipóteses e mesmo evidências científicas têm sido sugeridas, desde a pouca autoconfiança e fraca crença na auto-eficácia, associadas a um locus de controlo externo, até à natureza política do acto abstencionista, assumido como uma atitude eleitoral punitiva (alternativa ao voto em branco) e ao estereótipo dos “políticos todos iguais”. Alguns vão mais longe, sugerindo teorias da conspiração ou adoptando uma atitude “do contra porque sim”, apenas resolvidas pela paradoxal psicologia reversa. Estas ou outras explicações não esclarecem, contudo, o carácter supostamente egoísta, i.e., geneticamente determinado, do comportamento desistente ou negligente. Sendo assim, resta-nos procurar nos memes (e não nos genes) uma possível explicação e, eventualmente, objecto de intervenção.

Esta unidade de imitação e replicação mnemo-cultural necessita, também ela – à semelhança da unidade de hereditariedade que é o gene – de uma “máquina de sobrevivência” que a sirva com eficácia. Assumindo a primazia ética e política da Democracia (com todas as suas imperfeições), é essencial que esta máquina compita vantajosamente – mediante dispositivos institucionais, educacionais, culturais, mediáticos e outros – com o niilismo e com as demais “espécies” de sistemas ou regimes, designadamente os populistas e autocráticos. E que, rejeitando fake news e verdades alternativas, nos salvaguarde de qualquer retrocesso civilizacional e nos projecte para patamares mais livres, prósperos e justos.

A médica portuguesa Carolina Beatriz Ângelo (na foto, à direita) foi a primeira mulher a exercer o direito de voto em toda a Europa Central e do Sul, a 28 de Maio de 1911. Recorrendo à Justiça, esta mulher extraordinária fez uma interpretação ousada da lei eleitoral republicana, conseguindo recensear-se. Dois anos depois, os republicanos mudaram a lei e proibiram o voto das mulheres.

A ser verdade que Júlio César desabafou que “há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar” (pelo menos da fama não nos livramos), seria preciso acrescentar “…agindo contra o interesse próprio”. Fernando Pessoa, um dos nossos mais brilhantes pensadores e escritores, afirmou em 1926, a propósito do nosso comportamento societal, que “uma nação que habitualmente pensa mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente. O primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza – nessa regeneração”.

E acrescentou: “Não se diga que “os factos” provam o contrário. Os factos provam o que quer o raciocinador. […] E como assim é, tanto podemos crer que nos regeneraremos, como crer o contrário. Se temos, pois, a liberdade de escolha, porque não escolher a atitude mental que nos é mais favorável, em vez daquela que nos é menos?”. Pessoa referia-se, obviamente, aos memes que, egoisticamente alinhados com os genes, deveriam levar cada cidadão a votar e a escolher o que considera melhor (ou menos mau) para si mesmo. Ou, preferindo ser altruístas, para a maior parte de todos.

A abstenção eleitoral pode ser entendida nas suas causas ou motivações, mas nada a fundamenta ou justifica – nada mesmo – naquilo que pode representar em termos de utilidade, vantagem ou benefício, seja para o próprio cidadão abstencionista, seja para a comunidade a que pertence. Pior, a abstenção acaba por favorecer e beneficiar aqueles que se quer “punir”, os quais têm a eleição garantida pelos seus correligionários, alcançando facilmente – com votações na casa dos vinte e tal por cento dos eleitores inscritos – as maiorias absolutas que desejam.

Assim como não há, entre as pessoas com princípios e convicções afirmados, tal coisa falaciosa como “adepto não-praticante” dos valores assumidos, também não existe na cidadania o estatuto de “simpatizante da democracia” ou “democrata não-praticante”. Quem escolhe ser “não votante”, além de desconsiderar quem vota, ofende a memória dos que se sacrificaram para que o voto democrático seja hoje um direito consagrado, esquecendo que a política se vira sempre contra quem vira as costas à política. Ou, parafraseando Georges Clemanceau, a política é uma coisa demasiado séria para ser confiada apenas aos políticos.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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