Gavião | ‘Projeto Tejo’ inclui Médio Tejo no aproveitamento hidráulico de fins múltiplos do rio

Apresentação do 'Projeto Tejo - Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Tejo e Oeste'

O ‘Projeto Tejo – Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Tejo e Oeste’, um investimento de 4,5 mil milhões de euros, pretende fornecer água a 300 mil hectares das regiões do Ribatejo, Oeste, Setúbal e Médio Tejo com uma construção que pode chegar a 30 anos, de forma progressiva. O plano foi apresentado na quinta-feira, 3 de maio, na Câmara Municipal de Gavião, em sessão que contou com a presença de vários autarcas e alguns convidados dos concelhos vizinhos, nomeadamente Mação.

A novidade é “o interesse do Médio Tejo neste projeto” explicou Jorge Froes, um dos mentores do plano. Em causa duas componentes, “uma da navegabilidade do Tejo e outra da rega agrícola que podem ser integradas neste grande projeto” garantiu.

Trata-se de um plano desenvolvido por Jorge Froes, Miguel Campilho e Manuel Campilho, que se encontra agora na fase de apresentações para captação de financiamento, disse ao mediotejo.net o engenheiro agrónomo, Jorge Froes, especialista em questões hídricas.

Tendo como primeiro objetivo o regadio, ” a rega de uma vasta área do território nacional” seguindo-se a “drenagem de águas, deixar de usar as águas subterrâneas e passar a usar as superficiais, o controlo das cheias e o controlo da cunha salina que sobe rio acima nos períodos mais secos”, o projeto aponta para a “navegabilidade do Tejo, com as vantagens daí decorrentes, nomeadamente no turismo, na pesca e do transporte fluvial”, destacou Jorge Froes.

A integração do Médio Tejo no projeto, bem como o concelho de Gavião, de Nisa e outros concelhos vizinhos é a “novidade” porque “quem faz a gestão das barragens de Belver e Fratel é a EDP, sendo a grande zona agrícola de Abrantes para baixo, podendo estender-se a área a montante”.

Jorge Froes garante que, particularmente, no concelho de Nisa “há na margem direita uma zona com potencial de rega bom, os açudes já existem, portanto para tornar navegável é incluir umas eclusas” previstas durante a construção das duas barragens, explica, acrescentando não ser “difícil” integrar o Médio Tejo no plano, neste momento já de âmbito nacional.

Miguel Campilho e Jorge Froes

Segundo Jorge Froes, “a ideia surgiu no verão passado na tentativa de encontrar uma solução para combater a seca e os efeitos das alterações climáticas no Ribatejo e os baixos caudais do rio “. Tem como finalidade “recuperar o Tejo, abandonado, para as pessoas. Há uma grande mais-valia tornando o Tejo navegável, nomeadamente para o turismo. Estamos com este projeto a criar 600 quilómetros de costa” desde Vila Franca de Xira até Fratel.

Assim em termos turísticos, o projeto potencia “uma nova realidade no Ribatejo. A navegabilidade facilita também o transporte de mercadorias. Vai potenciar, na região, as visitas, as dormidas, o enoturismo, os produtos regionais e a abertura a novos negócios”, afirmou. Além disso, essa navegabilidade “permite uma vigilância constante para uma melhor qualidade da água e um controlo efetivo dos eventos poluidores”, referiu.

Tendo em conta o abandono progressivo das águas subterrâneas que tendem a desaparecer, esta iniciativa pretende ser “uma referência a nível ambiental por permitir a recuperação das linhas de água e possibilitar a recuperação de zonas ambientais sensíveis”, acrescentou o especialista.

O investimento global rondará aproximadamente 4,5 mil milhões de euros, mesmo incluindo o Médio Tejo que inicialmente não estava pensado, dos quais 2 mil milhões de euros são inerentes a sistema secundário (estações elevatórias e redes de rega) e mais mil milhões ao sistema primário (barragens, açudes, estações elevatórias e adutoras). A equipa de especialistas salientou ser este projeto “mais barato por hectare, 15 mil euros, do que o Alqueva que custa 19 mil euros por hectare”, sublinhando que o plano pode ser realizado por fases, diluindo o custo.

A curto prazo, “a obra poderá arrancar com a construção do açude de Valada e de dois blocos de rega, a Norte e Sul, numa área total de 12 mil hectares, num investimento inicial na ordem dos 120 milhões de euros”, apontou Jorge Froes.

‘Projeto Tejo – Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Tejo e Oeste’

“Prevê-se que atinja quase o dobro da área que o Alqueva irá regar”, salientou, destacando a criação de “um espelho de água contínuo através da construção de seis açudes até quatro metros de altura entre Abrantes e vila Franca de Xira, com escada passa-peixes e mini-hídricas” referindo a mini-hídrica de Abrantes em negociações entre a Câmara Municipal e uma entidade privada.

Contempla ainda “estações elevatórias que vão permitir bombar a água para as encostas” das várias regiões incluídas no projeto, nomeadamente o Oeste.

O projeto, especificou, pretende equipar com um sistema de rega “uma área que poderá ir até aos 300 mil hectares, dos quais 240 mil no Ribatejo, 40 mil na região Oeste e 20 mil em Setúbal, podendo integrar e modernizar os regadios coletivos já existentes no Ribatejo, nomeadamente o de Alvega”.

Para o engenheiro Jorge Froes, e na mesma linha de pensamento vão os outros dois mentores, Manuel Campilho e Miguel Campilho, este projeto “é mais abrangente que o Alqueva, apanha uma maior área do País”. Na zona abrangente, incluindo Lisboa, “vivem 3,5 milhões de portugueses, é uma zona muito rica em termos agrícolas mas que daqui a 20 anos deixa de ser” considerando “mais pertinente do que o projeto do Alqueva” onde trabalhou durante 25 anos

Atualmente, observou, “regam-se cerca de 100 mil hectares, com o Ribatejo e Oeste em contínua recessão de água” e alertou que não havendo aproveitamento das águas subterrâneas, com as alterações climáticas, daqui a 30 anos “a rega do Ribatejo passa para metade”.

Reconhece que “só se estranha a quantidade de água necessária” para a implementação do plano, tendo em conta que o rio Tejo possui um caudal cada vez mais pequeno, assegura que a contabilidade e o balanço hídrico estão feitos.

O rio “tem muita água durante o inverno” garante, havendo escassez durante os meses de junho, julho e agosto. Quanto ao nível do caudal do Tejo “os espanhóis têm cumprido sempre o acordo assinado com Portugal”, sendo do lado luso o incumprimento, refere. “Vai ser necessária alguma reserva de água nas encostas”.

Na sessão de apresentação estiveram vários autarcas, além do concelho de Gavião também de concelhos vizinhos como Mação

Para o efeito, Jorge Froes disse que, “ao invés de construir novas barragens, a ideia é usar os caudais que a EDP já dispõe através das barragens que gere, nomeadamente as de Fratel, Belver e Pracana”, estando em curso conversações para “perceber qual é a viabilidade de a EDP fornecer durante o verão essa água ao projeto”.

Em troca seria comprada a eletricidade que o projeto precisa “porque as redes estão em pressão”. Se aceitar “a EDP tem mais de dois mil milhões de metros cúbicos armazenados no Tejo, cerca de 1000 serão para a EPAL, mas restam 1100 milhões que a EDP pode fornecer a este projeto que necessita de 700 milhões”.

Quanto ao financiamento, Jorge Froes refere que o projeto está a ser apresentado a várias entidades, públicas, privadas e governamentais, com “bom acolhimento”, e que, a ser aprovado, deverá ser implementado recorrendo essencialmente a “capitais públicos” grande parte do Estado e Comunidade Europeia.

Até ao momento, o projeto já foi apresentado a quase todos os partidos políticos com assento parlamentar, faltando o Bloco de Esquerda. Às comissões parlamentares de agricultura e economia, aos ministros, faltando o primeiro-ministro, ao Presidente da República, às associações de agricultores sendo agora apresentado às autarquias.

Depois de apresentado o plano, o presidente da Câmara Municipal de Gavião, José Pio (PS), “completamente rendido ao projeto” considerou não só “estruturante a navegabilidade do rio Tejo” para o concelho, mas “o regadio que aqui se propõe é algo que pode contribuir para o desenvolvimento da agricultura” no concelho que agora conta apenas com uma agricultura de subsistência.

“É de uma dimensão tremenda” frisou, agradando-lhe particularmente a possibilidade de poder ser realizado “por fases”. O autarca espera agora que os órgãos governamentais tenham “capacidade para implementar o projeto”.

‘Projeto Tejo’ quer um Alqueva para o Ribatejo. Foto: DR

Da parte da Câmara de Gavião o primeiro passo é dado na inclusão do projeto “nas nossas propostas para o Portugal 2030”. O segundo passo “será levar o projeto à Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo” como forma de sensibilização.

O plano “vai muito além de Gavião, de Nisa e Castelo de Vide mas para uma região que está empobrecida e que não pode depender apenas da boa vontade dos autarcas”.

José Pio viu neste projeto “uma luz de esperança para o Interior do País” focando o Alqueva como “um investimento estruturante para a região do Baixo Alentejo, começa a fixar pessoas, os nossos filhos e netos” sendo algo semelhante que espera que o “Alqueva do Ribatejo” contribua para Gavião , lembrando os “muitos investimentos no turismo” que o concelho tem feito e “também nesse campo pode significar o salto definitivo para afirmar esta região numa zona de excelência para os turistas”.

Em relação à Praia Fluvial do Alamal manifestou-se “tranquilo” uma vez que as inundações foram colocadas de lado pelos promotores. “Se o último dique a ser feito terá a cota máxima da barragem de Belver” não prejudicará o investimento.

Pelo contrário, considera que “vai dinamizar aquele local de excelência que pode ser muito valorizado com a navegabilidade do rio. Era excelente entrar num barco no rio Tejo em Belver e ir a Santarém, ou por outro lado ir até Espanha. Passávamos a ter um Douro mas com paisagens mais bonitas”.

O secretário de Estado da Agricultura, Luís Vieira, o Professor Augusto Mateus, Manuel Campilho, Miguel Campilho e o Professor Francisco Avillez foram alguns dos participantes da primeira apresentação inicial do projeto, na localidade de Alpiarça. Foto; Vida Rural

Os estudos preliminares do plano, estimados num custo entre 350 mil e 450 mil euros, deverão estar concluídos até ao final de 2018 e deverão ser então apresentados ao Governo.

“Temos de defender na União Europeia que os povos do Sul, num cenário futuro de agravamento da desertificação do Interior, vão deslocar-se para o Litoral ou até para a Europa do Norte. Não me parece que queiram isso”, concluiu Miguel Campilho.

Apresentação do Projeto Tejo aos ambientalistas do Movimento Protejo (Foto: mediotejo.net)

Apesar do projeto ser recorrentemente recebido como uma “solução” para o interior do País, o movimento cívico proTEJO manifestou-se contra o projeto também conhecido por “Alqueva do Ribatejo”. Em comunicado, o movimento criticou o projeto “com um conjunto de infraestruturas com impactes ecológicos negativos para o rio Tejo”.

Entretanto, Jorge Froes já reuniu com o proTEJO em Vila Nova da Barquinha para defender que a situação do rio Tejo “vai piorar com as alterações climáticas” se nada for feito. Após apresentar o projeto ao movimento em defesa do Tejo, ficou agendada uma reunião “para daqui a 10 anos”.

“Ou este projeto morre, não há interesse político, e perguntarei à proTEJO o que fez entretanto para impedir que o rio se degrade. Ou então o projeto anda para a frente e explicarei o que está a ser feito para poder recuperar em termos ambientais todo o Tejo” disse.

Se não “morrer”, na estratégia traçada, a obra estima-se que arranque dentro de três a quatro anos.

3 COMENTÁRIOS

  1. Se os números apresentados fossem correctos quando escreveu “vivem 3500 milhões de portugueses”, então a população da área envolvida da bacia do Tejo seria cerca de metade de toda a população mundial (aproximadamente 7,6 mil milhões)!
    Por outro lado quando escreveu “drenar” o tejo, ou seja secá-lo, certamente queria escrever dragar o tejo (quase o oposto)!
    De qualquer modo parece-me um projecto com muito valor e merecedor de apoio.

  2. Começo a perceber que existe uma adaptabilidade do Sr Jorge Froes consoante os seus interlocutores. E já escolheu como inimigo o Movimento Protejo pois estas declarações “Ou este projeto morre, não há interesse político, e perguntarei à proTEJO o que fez entretanto para impedir que o rio se degrade. (…)” são de alguém que não conhece o trabalho do Movimento Protejo o que é gravíssimo para quem vive no ribatejo e tem pelo frente um projecto que mudará definitivamente o curso do rio Tejo tal e qual o conhecemos..
    Talvez esteja encontrada a razão de no projeto não haver uma única linha acerca dos múltiplos impactos ambientais. Fica só a pergunta: Vai o senhor Jorge Froes resolver o problema da poluição das águas do rio Tejo para não continuar a reunir apoios para um projecto que irá utilizar água altamente contaminada? É esse o seu contributo para uma agricultura sustentável e irá colocar em causa a saúde pública? Haja ponderação, honestidade, responsabilidade e respeito pelo trabalho de cada um. Armindo Silveira

  3. Navegabilidade do Tejo para transportes ?!?! Os transportes fluviais no rio Tejo foram abandonados há muito. A lentidão e baixa tonelagem são à partida dois aspectos negativos que tiram capacidade de competitiva a esta ideia. Talvez no turismo houvesse algum, (relativo), sucesso mas seriam apenas pequenos negócios.

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