Gavião investe 1,3 ME em Museu com coleção única de carros de atrelar (c/fotos)

Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Na Quinta da Margalha, em Gavião, encontra-se uma coleção única de carros de tração animal iniciada por Valentina de Andrade Pequito Rebelo, mãe de José Hipólito Raposo que zelosamente cuidou e completou aquela herança até à sua morte. Recentemente, os herdeiros chegaram a acordo com a Câmara Municipal de Gavião para a instalação da coleção no museu que irá nascer no antigo Seminário. O mediotejo.net foi ver a coleção e falou com o presidente da autarquia. José Pio aponta o 25 de abril de 2022 como data possível de inauguração daquele que será o Museu Pequito Rebelo, com projeto do arquiteto João Luís Carrilho da Graça.

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O futuro Museu Pequito Rebelo, em Gavião, apresentar-se-á como uma viagem ao passado mostrando uma coleção única em memória e História, não só do Alentejo mas do País, no antigo Seminário, edifício construído em finais do século XIX para residência da ilustre família Pequito Rebelo.

Falamos de um conjunto de carros de tração animal que pertenceram a José Hipólito Raposo exposto durante vários anos no museu privado da Quinta da Margalha mas que, por acordo com a Câmara Municipal de Gavião, os herdeiros – agora proprietários – encontraram outro espaço expositivo que dará à coleção uma maior dignidade.

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Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Trata-se de um conjunto com 38 exemplares de diversos tipos, desde logo uma ambulância militar, um modelo de 1907, recuperada da sucata depois de ter sido utilizada como galera de carga e calcula-se ter mostrado utilidade na I Guerra Mundial. Pensa-se ser exemplar único, sendo uma das mais interessantes relíquias da coleção. O construtor foi a Fábrica D’Armas de Lisboa, de que o carro ainda conserva as chapas. Detalhes e pormenores de carros de cavalos maioritariamente do século XIX que José Hipólito Raposo herdou da mãe – Valentina de Andrade Pequito Rebelo – e outros que acrescentou à coleção.

Contudo, a mostra irá além dos carros de atrelar apesar destes por si só, constituírem um inigualável espólio, como por exemplo o Landó (em Portugal) ou Landau (em França), um modelo originário da Alemanha do final do século XVIII, que sucedeu ao coche como viatura de aparato, utilizado em dias de desfiles reais ou de chefes de Estado e atualmente ainda usado pela monarquia.

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Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

A coleção apresentará também “todos os arreios, conjuntos de porcelana da Índia e um conjunto vasto de materiais associados aos carros de atrelar que queremos colocar no museu” explicou ao mediotejo.net o presidente da Câmara Municipal, José Pio.

Outro exemplo de grande interesse é o Breque Wagoneta, um modelo essencialmente usado para serviço do campo. Foi trazido para a Margalha em 1930 por José Hipólito Vaz Raposo. Na Quinta era o carro de serviço dos proprietários e, durante a II Guerra Mundial, devido às restrições de circulação automóvel, era o único transporte para a estação de caminhos de ferro e para cidades e vilas próximas. Tem painéis de palhinha, uma das características do fabrico cuidado de Niels Hansen & Filhos de Lisboa.

Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Motivos mais que suficientes para o executivo municipal insistir em valorizar esta memória. Quando o atual executivo municipal chegou à Câmara “sabia que o anterior já tinha tentado conseguir que esta coleção ficasse disponível para visita pública na vila de Gavião ou na Quinta da Margalha… onde os proprietários quisessem. Infelizmente nunca conseguiu chegar a acordo”, afirma o autarca.

O atual executivo foi mais feliz e, entretanto, o contrato de adjudicação da obra de construção do museu que irá albergar os carros de tração animal no antigo Seminário foi assinado com a empresa 4MB. Neste momento, a obra aguarda o visto do Tribunal de Contas que têm 30 dias para se pronunciar sobre o processo.

“Já passaram 15 dias portanto aguardamos a todo o momento pelo visto. Depois entre o visto e o início da obra medeia cerca de um mês, porque a empresa nessa altura fica obrigada a entregar o plano de segurança e saúde e obra”, explica o presidente. Uma obra com um prazo de execução de 365 dias. Contudo, a “experiência” mostra-lhe que tal prazo poderá estender-se apontando, por isso, “18 meses de obra. Direi que a Câmara Municipal terá em condições de a inaugurar no 25 de Abril de 2022”, aponta.

O arquiteto portalegrense João Luís Carrilho da Graça é o responsável pelo projeto. “Um arquiteto com créditos firmados, alentejano, de Portalegre. Quisemos que fosse [Carrilho da Graça] a realizar este projeto e a acompanhar uma equipa que vai dirigir os conteúdos do próprio museu de uma forma extremamente profissional, para que não seja só mais um museu”, defende José Pio, certo de que a aposta “será um sucesso não só no Alentejo mas em Portugal e quiçá entre os estrangeiros que nos possam visitar”.

Quando o Município de Gavião adquiriu o antigo Seminário, o executivo propôs aos atuais proprietários a sua transformação “em museu dos carros de atrelar”, relata o presidente, dando conta de “aturadas negociações” sentindo que “havia disponibilidade para mostrar a coleção” no espaço escolhido.

“Chegámos a acordo, ainda que só verbal, mas para nós a palavra valerá sempre muito mais que um acordo escrito. Conseguimos que os proprietários nos permitam, logo que a obra esteja concluída, colocar naquele espaço os carros de atrelar e algum espólio da família” e daquela que foi a sua atividade no concelho, nomeadamente agrícola, no final do século XIX e no século XX.

Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Entre as 38 peças encontramos também um Churrião, um carro de parelha de mulas de carga, feito em madeira dura de azinho, neste caso com tejadilho e todo forrado por dentro com algum luxo. A História explica que as estradas em Portugal começaram a ser construídas muito tarde, sobretudo na parte sul do Alentejo, ora o Churrião era usado pelos agricultores, mesmo os mais abastados, nos caminhos rurais, até ao princípio do século XX.

Integra ainda um Omnibus, num modelo construído em Portalegre no século XIX, com vidros de correr à frente e cortinas nos lados e atrás, muito vulgarizado em Portugal e, em algumas regiões, chamou-se-lhe impropriamente ‘char-à-bancs’. O carro fazia o serviço dos proprietários e seus hóspedes na Herdade do Pinheiro, em Alcácer do Sal, e foi oferecido a José Hipólito Raposo pelo administrador da Herdade, Manuel Ferreira Lima.

Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

E até um Tonô, modelo criado em Inglaterra para ser puxado especialmente por póneis e, como o próprio nome indica na língua inglesa ‘Governess Car’, para ser conduzido pela governanta, no transporte de crianças. Daí a forma arredondada e fechada, para os petizes não caírem nem saltarem do carro. Devido ao formato, os franceses batizaram-no de Tonneau (tonel). A coleção de raridades da Margalha possui igualmente dois exemplares de carros de comércio da Casa Ramiro Leão, de Lisboa.

Coleção de carros de atrelar na Quinta da Margalha, Gavião. Créditos: mediotejo.net

“Uma coleção magnífica para expor no futuro museu em Gavião, no magnífico Largo do Município, sítio nobre do concelho desde que aqui foi implantada a Câmara Municipal, a Igreja Matriz, o Seminário, a Casa Paroquial, a Casa Lino Neto… tudo faz parte da praça que será enriquecida” com o Museu considera o presidente.

Para quem visitar “um regresso ao passado da terra que foi Gavião em 1900, numa altura em que a família Rebelo teve uma preponderância fundamental no desenvolvimento do concelho. Queremos ter o espólio que nos oferecerem para ser visitável acompanhado de muita memória descritiva” refere José Pio.

Sobre o investimento, José Pio indica um valor na ordem de um milhão e 300 mil euros. “É chave na mão. Quando a 4MB nos entregar a obra já lá estarão os carros de atrelar e todos os conteúdos incluindo filmes” da autoria da Casa Pequito Rebelo, atualmente na cinemateca portuguesa.

“Estamos a tentar recuperar alguns” com o objetivo de em permanência serem exibidos nos audiovisuais do espaço “sobretudo um sobre a Festa do Trigo que já não se faz. Sabemos que há um filme sobre o tema, muito bonito, daquela época realizado por profissionais”, refere.

O presidente José Pio no Largo do Município em frente ao antigo Seminário onde nascerá o museu. Créditos. mediotejo.net

Mais uma aposta no Turismo deste concelho do norte alentejano porque, segundo José Pio, “desde a primeira hora sentimos que Gavião tinha condições para fazer uma aposta muito firme naquilo que era as suas paisagens, espaços culturais e monumentos. O museu é um complemento a tudo o que já existe desde o Castelo de Belver ao Museu do Sabão ao Museu das Mantas. Tudo isso precisava de um complemento dentro do núcleo urbano de Gavião”, sublinha.

A Câmara manifesta vontade de inserir o museu “naquilo que são os percursos totais do País, queremos ir muito além do Alentejo. Queremos mostrar ao País e passar a mensagem que Gavião é um Alentejo diferente, exatamente porque tem uma memória coletiva muito vincada que infelizmente, durante muitos anos, esteve escondida” e portanto chegou o momento de abrir essa “memória ao mundo!”, afirmou.

No antigo Seminário adquirido pelo Município por cerca de 200 mil euros, além do museu, funcionará o ninho de empresas. “Vamos tentar dinamizar este espaço com estes dois edifícios. Queremos que a comunidade perceba que vai passar a ter dois espaços de excelência: um a chamar gente do exterior e outro a chamar gente que se possa instalar para criar emprego”, concluiu.

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