Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Gavião | Fases do linho e tecelagem no Núcleo Museológico de Belver (C/vídeo e fotos)

Em tempos foi a fábrica de Natividade Nunes da Silva, com quase seis décadas de laboração, teve a sua história fortemente marcada pelo empreendedorismo feminino através da figura da mestra. Há dois anos e meio que é museu e já conquistou uma menção honrosa na categoria de Melhor Projeto Público, atribuído em 2017 pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo.

- Publicidade -

O museu está instalado em Belver, no concelho de Gavião, onde funcionou então a antiga unidade de produção de mantas e tapetes. E de quarta a domingo mostra uma área de trabalho das peças de tapeçaria ao vivo com Olga Teixeira, designer responsável pela dinamização do museu, que aprendeu a técnica do tear com a mestra Alina, de 70 anos, da Artelinho-Cooperativa Agrícola de Produção Linho de Alcaravela.

O primeiro ano revelou-se uma experiência “fantástica, muita aprendizagem e ao mesmo tempo a aplicação da mesma, porque sem partilhar e sem colocar em prática não serve de nada”, referiu Olga ao mediotejo.net, aquando do primeiro aniversário do Museu.

- Publicidade -

Citando Camões para definir a alma portuguesa de descobridor ou de velho do Restelo, Olga Teixeira, como formadora viu-se obrigada a dar “uma ação de formação” a si própria. “Essa aprendizagem fui passando aos visitantes que saem do museu a saber como se monta um tear, como se faz a programação de uma estrutura de tecido, que estruturas de tecidos existem, de uma maneira tão fácil que desmistifica aquele complexo do tear como se fosse um Adamastor, e é simplesmente um objeto que Homem criou para responder às suas necessidades”.

O Museu possui três teares “dois já estão em funcionamento, o pequeno é o tafetá usado para o linho tradicional, o médio está programado para ponto bago de arroz ou bago de trigo que era usado para colchas e tapetes. No tear criamos uma tela do avesso resistente ao pisar ou ao sentar na cama e o desenho da colcha ou no tapete passava também para os naperons nas mesas e arcas que se tinha na casa”.

O terceiro tear Olga já batizou de criativo no qual não quer “urdidura comprada” mas feita por si passando depois a informação a cada visitante que venha ao museu. Outra tarefa para a mestra Alina que aprendeu aos cinco anos com a mãe e ainda hoje dedica-se a fiar e trabalhar o linho.

A mestra Alina da Artelinho-Cooperativa Agrícola de Produção Linho de Alcaravela, a fiar o linho

O Núcleo Museológico tem como função preservar a memória daquela unidade de produção de tecelagem artesanal. Naquele edifício de dois pisos viajamos no tempo, regressando a uma época em que o tear de pedal tinha tal importância nas comunidades que a sua presença e os seus sons faziam parte do quotidiano e cultura das populações rurais.

A proposta que o Núcleo Museológico tem para o o visitante passa por reviver os costumes do passado, ter contacto com os teares, as matérias-primas e os instrumentos de trabalho, como a roda caneleira, a roca, o fuso, a roda de fiar ou as dobadoiras, conhecer a história da antiga Fábrica Natividade Nunes da Silva, a primeira a comercializar as mantas de Belver caraterizadas por não terem costuras, e as peças ali produzidas numa simbiose entre a tradição e as novas tecnologias.

No dia de celebração do primeiro aniversário foi ainda possível acompanhar o cultivo do linho, a fase da preparação do terreno e a sementeira na zona exterior do museu. A planta é um único caule reto, de aproximadamente 1,10m com flor azul. É arrancado e não cortado, pois tem fibras desde a raiz até às pontas.

Depois os visitantes acompanharam parte da preparação do linho como a ripagem cujo objetivo é separar a baganha do caule da planta, no sentido de aproveitar a filassa para fins têxteis, enquanto que as sementes contidas na baganha utilizam-se novamente para nova sementeira.

A fiação foi outra das atividades presentes no museu em dia de aniversário, onde as fibras soltas do linho foram transformadas em fio torcido para ser tecido e por fim a tecelagem, um trabalho que requer inquestionáveis capacidades de paciência, sentido de perfeição, saber de artífice e apurada sensibilidade, e também muito amor.

Olga Teixeira e uma meada de linho no Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias de Belver

O Museu tem à venda peças que ali foram tecidas como carteiras, bolsas ou panos de tabuleiro, “claro que não há a produção que as pessoas gostariam mas são peças com muito trabalho e muito tempo. O trabalho e o tempo é virado com amor, na relação entre a pessoa e o próprio trabalho. É isto que tento partilhar e desabrochar no coração das senhoras que começaram a trabalhar no Museu”, conta Olga.

E são três as senhoras que Olga acompanha, por norma à quinta-feira e ao sábado. Maria do Rosário, residente em Torre Fundeira, é uma delas e vê nesta arte de tecelagem um regresso ao passado. No Museu tece num tear de um metro e sessenta de pente que bate com uma mão, mas em 1970 quando trabalhava na fábrica de Natividade Nunes da Silva era diferente.

“Tínhamos de bater no pente com as duas mãos. Agora estou aqui a reaprender. A técnica está na cabeça mas passaram muitos anos” admite, num reavivar da memória ao mesmo tempo que preenche os tempos livres.

Quem nada sabe de tecelagem “inicia-se num tear de pregos para mostrar as estruturas de tafetá, cetim e sarja para depois começar nos teares”, explica Olga.

Esta experiência da tecelagem tem sido desafiante, mas Olga considera que o grande desafio é nascer. E para si “tudo apareceu na altura certa no momento certo” garante. Quando Olga chegou ao concelho de Gavião, há quase 10 anos, “já não estava a aprender na indústria” de cerâmica onde trabalhava.

Olga viu-lhe a queda e a falta de mercados. O Museu, que retrata também a queda da manufatura, neste primeiro ano em número de visitantes revelou-se “bastante positivo” embora note algumas falhas como “informação nas estradas, que não há” lamenta.

Balanço positivo faz também o presidente da Câmara de Gavião, José Pio, até porque “temos a felicidade de ter connosco uma funcionária que tem dedicado todo o seu tempo ao linho e aos teares” destacou, referindo-se a Olga que tem “conseguido tornar o Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias num museu vivo e que tem sido muito visitado, superaram as nossas melhores expectativas” o que leva a Câmara Municipal a continuar a aposta.

O Museu nasceu com a ideia de concessionar o espaço a artesãos que quisessem usufruir dele mas concretizar esse objetivo “não tem sido fácil” admitiu José Pio. “Trabalhar os teares hoje exige técnicas que as pessoas já não querem usar porque é muito trabalho de braços e de pés e hoje as máquinas tiram muito esse trabalho”, explicou.

Seja como for o Museu “tem abertura total para receber alguns artesãos que queiram vir trabalhar o linho nos nossos teares”, disse o autarca.

Sentindo que Gavião tem “potencialidades endógenas para que os turistas escolham o concelho para visitar”, José Pio garantiu ao mediotejo.net que a aposta no turismo é para continuar.

Gavião | O presidente da Câmara Municipal de Gavião, José Pio, fala de um balanço "muito positivo" do primeiro ano do Núcleo Museológico de Mantas e Tapeçarias de Belver e dá conta das apostas turísticas no concelho para o próximo ano.

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 19 de novembro de 2017

*Reportagem republicada em junho de 2019

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome