Gavião | Belver tem rebanho comunitário de 250 “cabras sapadoras” para proteção da comunidade

Após o Governo ter anunciado que vai avançar ainda este ano com projetos-piloto de “cabras sapadoras” com rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária, no reforço da prevenção dos incêndios, o mediotejo.net foi conhecer o rebanho comunitário de Belver, no concelho de Gavião.

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O projeto tem 250 “cabras sapadoras” que iniciaram em fevereiro o trabalho de limpar as zonas florestais à volta das povoações mas as dificuldades têm sido muitas, desde os incêndios que assolaram o concelho no verão passado à seca que representa um problema a agravar-se com a chegada do estio.

O pastor olha pelo rebanho comunitário de Belver

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A tradição inspira os caminhos trilhados pelo pastor atrás das cabras por terras de Furtado, uma pequena povoação isolada entre campos semi-cultivados, arvoredo e matagal, no concelho de Gavião.

Ali, contrariamente ao que se passa por territórios nortenhos, não se guardam as cabras em currais existentes por baixo das casas, não são libertadas pelos proprietários à passagem dos pastores, nem sequer os pastores se revezam semanalmente.

No rebanho comunitário de Belver o pastor é só um, vindo de Cinfães do Douro a titulo provisório, para pastorear as cabras de uma comunidade cada vez mais pequena e envelhecida que luta como pode contra o fogo destruidor, sabedora de que o caminho passa pela prevenção.

Às cabras e ao investimento no ordenamento do território “a alternativa é fechar o interior do País. Ficar ao abandono completo. Temos uma imensa riqueza nesta paisagem desaproveitada. As políticas têm de trazer pessoas” defende ao mediotejo.net o engenheiro Carlos Machado, responsável pelo rebanho comunitário de Belver, constituído por cabras de raça serrana, saanen e cruzadas.

O rebanho coletivo financiado pelo projeto Caprinos e Companhia em parceria com a Associação de Produtores Florestais da Freguesia de Belver (APFFB), apesar de ter nascido, em ideia, há cerca de 8 anos está a dar os primeiros passos, mais longos do que os intervenientes gostariam, e está longe de estar concluído, “vai-se fazendo” como contou Carlos Machado. Entre as muitas dificuldades que começaram em agosto último com os incêndios, encontra-se a dificuldade de recrutar um pastor.

O pastor Agostinho Monteiro

Agostinho Pereira Monteiro nasceu entre o gado há 50 anos. Na verdade nunca foi pastor de profissão. Trabalha na limpeza da floresta e nas madeiras, mas “como sabem que percebo do gado” a empresa Silviconsultores, com dificuldades em contratar um pastor, pediu-lhe para vir até ao sul guardar cabras, contou. E o seu conhecimento vai ao ponto de ajudar as cabras a dar à luz quando se apresenta complicada a tarefa de parir.

“Partos? Ui, quantos e quantos. Quando os cabritos nascem a gente tem de os tirar senão morrem” explica. Está em Furtado há dois meses. Acorda cedo, às 07h30 já se encontra no capril “o olhar por elas. Lá para 09h00, após botar os cabritos a mamar, dar-lhes ração, está tudo arrumado”.

Depois anda por ali até ser horas de preparar mais uma refeição e almoçar. Às 13h00 inicia-se o pastoreio e, tal como as cabras, percorre os montes, com os cães a observarem de longe, na sua tarefa de vigias.

Rebanho comunitário de Belver

Dispensa os cães atrás das cabras, diz dominá-las bem, embora reconheça mais facilidade na condução de ovelhas. “As cabras passam em qualquer lado. Põe-se em pé nas oliveiras para comer os ramalhos”, diz a rir.

Depois, os animais voltam ao abrigo por volta das 16h00, onde os cabritinhos, no berçário, aguardam ansiosos pelas tetas das mães. Mas Agostinho está em Furtado em modo temporário, e o projeto precisa de contratar um pastor. “Ideal seria um casal, de preferência jovem que saiba lidar e que goste de trabalhar com animais”, refere Carlos Machado. A proposta de emprego fica em aberto.

Rebanho comunitário de Belver

Menos de 300 animais num rebanho, talvez um número pequeno para limpar tanto terreno, ainda mais utilizando cabras, um dos animais da ruralidade mais ignorados, justamente pela falta de esquisitice. Come das estevas às giestas sem recusar os tojos, tudo passa da boca ao estômago.

Mesmo após a intenção do Governo de avançar com projetos-piloto de “cabras sapadoras”, no reforço da prevenção dos incêndios, muitas pessoas olham céticas para o investimento nos bichos, ainda que pareça melhor recompensa do que qualquer juro bancário, pelo menos no projeto Caprinos e Companhia de Belver.

No investimento, o projeto “distingue entre os aderentes à ZIF [Zona de Intervenção Florestal] de Belver e os que não são. Os proprietários dos terrenos podem comprar uma cabra, para os outros o número mínimo de compra são cinco”, refere o engenheiro. A partir daí cada investidor tem uma remuneração pelo capital investido, “os pioneiros, investidores em 2017, recebem a 7,5% ao ano, a partir de agora será a 5% ”.

Essa remuneração pode ser traduzida em dinheiro ou em géneros, por exemplo cabritos.

Carlos Machado, um transmontano a viver na capital, deslocado em Furtado, sugere às pessoas que queiram ajudar na gestão de combustível florestal na rede primária que “comam cabrito”. Sustenta que a aposta nos rebanhos comunitários é o caminho certo para a prevenção dos incêndios. “Não há outro!” garante. Esse, e trazer jovens para o interior do País, caso contrário o que aconteceu no verão passado voltará a suceder.

A ZIF foi constituída há 12 anos “a primeira do Alentejo”, frisa Ezequiel Martins, um dos elementos da direção da APFFB, e comporta neste momento 514 associados enquanto os donos das cabras ficam-se pelos 27.

A ideia do rebanho surgiu para ajudar na proteção dos poucos que teimam em viver no campo, com o drama do desordenamento do território, com o matagal a crescer sem forma ou estrutura, idosos sem forças para controlar silvados, terrenos abandonados espalhados pela freguesia.

Comendo a vegetação, as cabras controlam incêndios como ficou comprovado em agosto de 2017.

O engenheiro Carlos Machado ajuda o cabrito recém nascido a mamar

A chegada das cabras ao rebanho comunitário coincidiu com os incêndios no concelho de Gavião, primeiro em julho, quando ardeu Furtado vindo o fogo de Mação, sendo desviadas para Torre Cimeira três dias antes do incêndio que devastou toda a freguesia de Belver, a 18 de agosto.

“Foi um trabalho doloroso. Reunimos umas oito pessoas e andámos a tirá-las por grupos de 30 cabras para o logradouro do Centro Social da Torre Cimeira”, conta o presidente da APFFB, David Grácio. E esse processo de evacuação “durou quase a noite inteira, foi até às 4h00 da madrugada”.

No desespero da retirada dos animais, para trás ainda ficou uma cabra que Carlos Machado encontrou três dias depois.

“No dia a seguir ao incêndio fui ver os terrenos e o que poderia recuperar da cerca. Encontrei a cabra deitada. Pensei que tivesse queimaduras, mas não. Estava no sítio onde pernoitavam e faziam a sesta. O facto é que à volta ardeu tudo e aquela zona está intacta” referiu.

As cabras “fizeram ilhotas, raparam tudo à volta, e o incêndio ali progrediu com muita dificuldade porque as cabras fizeram um excelente trabalho enquanto lá estiveram”, reforça David Grácio. À solta pelos campos, presumem que a pastorear, minimizem o risco de incêndio, diminuindo a carga de combustível nos muitos hectares do território.

Ainda numa fase inicial, o projeto Caprinos e Companhia apresenta-se como “uma parceria privada, com os proprietários dos terrenos, associados na ZIF” explica Carlos Machado. O projeto visa “a prevenção dos incêndios nomeadamente à volta das aldeias e nas áreas estratégicas da freguesia. No futuro queremos alargar para outras localizações”.

A ideia de aplicabilidade dos animais à prevenção dos incêndios florestais tem sido trabalhada pela empresa Silviconsultores desde 2007, aquando de uma primeira experiência tipo teste.

Em 2011 “começamos a trabalhar com a ZIF de Belver e apresentámos esta ideia” à APFFB, entidade gestora da ZIF. Uma ideia acarinhada desde início nomeadamente “com a disponibilização de terrenos para os animais pastorearem, não sendo o mais difícil uma vez que a maior parte dos terrenos estão abandonados” reconhece, mas também “disponibilidade de investimento no rebanho e na construção das instalações”.

O ‘berçário’ do rebanho comunitário de Belver

Considera o rebanho o projeto mais “emblemático” de todo o trabalho de defesa da floresta contra incêndios. “Juntámos a vontade dos proprietários dos terrenos que os querem limpos, parte deles são investidores no próprio rebanho” sendo a Silviconsultores responsável pela gestão do rebanho e de tudo o que os animais precisam desde o pastor ao veterinário.

O cabril em Furtado é o primeiro de vários, porque o objetivo é estender as instalações a toda a Freguesia no sentido de “poder fazer o serviço de gestão dos combustíveis, eliminação dos matos, prioritariamente na zonas junto às aldeias e na rede primária”.

Ao contrário do que se possa pensar, as cabras não são um negócio rentável, “só existem associadas à componente florestal”, diz, no entanto, “a prevenção feita por elas fica mais barata do que andar a cortar mato. Com as cabras temos despesa mas também vamos tendo alguma receita. Conseguimos assim ter menos custos”.

Falando na promoção da atividade económica, Carlos Machado dá conta de uma “baixa produtividade”, o sistema “não é intensivo contrariamente aos animais estabulados, alimentados à base de concentrados, produzindo grandes quantidades de leite” sendo este produto responsável pela maior parte do rendimento na silvopastorícia. “Se os animais comem mato, não posso pedir que produzam muito leite”, vinca.

Cabrito acabado de nascer

Com as cabras nas pastagens desde fevereiro, os gestores do projeto têm planos para o futuro. Querem vender os animais que vão nascendo ao consumidor final, pondo em prática essa ideia na Páscoa realizando uma pré-venda. Até porque precisam de angariar fundos, devido aos prejuízos que tiveram com a alimentação do gado desde agosto de 2017 até janeiro de 2018, num montante que ronda os 10 mil euros.

Com o nascimento de cabritos, a Associação aceitou encomendas para a Páscoa.

Sem apoios do Governo, contaram com o apoio da Câmara Municipal de Gavião, da Aflosor (Associação dos Produtores Florestais da Região Ponte de Sor) que contribuiu com um carregamento de fardos de palha e da Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre com um donativo de 1850 euros.

“A partir daí foi tudo comprado” com o Ministério da Agricultura a “portar-se muito mal. Onde não morreu gente parece que não ardeu” desabafa o engenheiro, que alimentou as cabras à base de ração e palha durante cinco meses.

A engenheira Célia Ramalho, técnica da APFFB, atesta as dificuldades: “Candidaturas para apoio à agricultura, na freguesia de Belver, que ardeu toda, fiz seis, porque a burocracia era tanta que as pessoas desistiam”. Falamos de uma zona de minifúndio, com propriedades muito pequenas. A freguesia de Belver tem cerca de 7 mil hectares comportando 13 mil prédios rústicos.

Seguidamente a tempos de meditação nas melhores formas de rentabilizar a floresta, de proteger a comunidade e de não deixar morrer a ruralidade, David Grácio, depois de ultrapassadas as dificuldades trazidas pelos incêndios, preocupa-se agora com a seca. A erva já devia ter o dobro do tamanho, e por baixo dela a terra esfarela-se em pó.

“O verão vai ser um problema. Dos fogos estamos descansados porque já ardeu, mas não chove, a erva não cresce e quando o calor chegar, sem feno, vai ser um problema”, repete desanimado.

Será na antevisão da seca extrema que à volta do cabril, em Furtado, são vários os terrenos de proprietários associados à ZIF de Belver com sementeiras de trigo, aveia e outras sementes, para alimentar o gado.

Lá dentro, nas camas dos animais são utilizados resíduos florestais de eucalipto, mas segundo considera o engenheiro “não está a resultar bem”. A experiência passará de seguida pelo pinheiro. Então “se funcionar, completaremos o ciclo” de gestão de combustível florestal.

O projeto passa ainda pela implementação de uma técnica que obrigará o rebanho a pastar em determinado local. No futuro os técnicos irão socorre-se de cercas elétricas colocadas à volta dos espaços a limpar confinando as cabras, ao contrário da liberdade do pastoreio que têm hoje, com o objetivo de manter “os terrenos num ciclo de vegetação que nunca crie perigo para as habitações”.

(da esquerda para a direita) Carlos Machado, o pastor Agostinho Monteiro, Ezequiel Ramalho, Célia Ramalho e David Grácio

*Reportagem publicada em fevereiro de 2018

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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