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Terça-feira, Janeiro 25, 2022
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Gavião | ‘Aromas de Guidintesta’, o chá que brota das memórias rurais de um menino

Ali para os lados de Atalaia, em Gavião, é fácil pôr a água a ferver, mas para o chá ficar bom é preciso tempo na cultura das plantas e paciência para a infusão. João Chambel é um antigo funcionário público que decidiu apostar nesse negócio e acrescentou-lhe uma certificação biológica. Seja para acalmar, satisfazer ou purificar o organismo, os ‘Aromas de Guidintesta’ querem fazer a diferença pela qualidade. O mediotejo.net foi conversar com o proprietário da marca, beber um chá e conhecer a Ribeira cuja água cristalina faz as delícias dos caminheiros que passam ofegantes pelo Corredor Ecológico das Ribeiras de Alferreireira e Barrocas.

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Toda a gente sabe que o hábito de beber chá, em Inglaterra, foi introduzido na corte britânica por uma rainha portuguesa: Catarina de Bragança. Curiosamente, passados séculos, a tradição continua por lá. E se também no Oriente, de onde trouxemos o chá para a Europa, após milénios, tudo continua a girar à volta de um bom chá, em Portugal, na verdade, continuamos a preferir café e o chá ficava-se, até há pouco tempo, por uma vertente mais medicinal.

Contudo, apesar da popularidade ainda não ser grande, a tradição começa a mudar e hoje o chá (chamemos-lhe assim para facilitar) bebe-se socialmente, sem estranheza, fora das classes socias mais privilegiadas. A sua comercialização aproveita também a onda da alimentação saudável e a procura de bebidas funcionais, que trazem benefícios extras à saúde, principalmente se possuírem certificação biológica como acontece com os chás ‘Aromas de Guidintesta’, uma marca que nasceu em Atalaia, Gavião.

João Chambel proprietário da marca de chás ‘Aromas de Guidintesta’ tem o sua plantação junto à Ribeira das Barrocas, em Atalaia, Gavião. Plantação de cidreira. Créditos: mediotejo.net
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A prova dos nove, sobre o poder que uma bela chávena de chá tem na renovação do corpo e da alma, fez-se na Azenha das Barrocas, datada de 1709, mesmo num dia quente, entre a frescura das plantações e da água da Ribeira das Barrocas, onde passa o PR2, ou seja o Corredor Ecológico das Ribeiras de Alferreireira e Barrocas com grande número de visitantes anuais, “muitos espanhóis e pessoas do Norte do País, nomeadamente de Braga”, que vêm até ao Alto Alentejo para calcorrear aquele percurso pedestre, conta João Chambel ao mediotejo.net.

“Em boa altura a Câmara de Gavião concretizou este sonho, o percurso pedestre. Os turistas passam por estas terras. Foi concebido com alguma preocupação porque desconhecíamos o projeto e em causa estavam dinheiros públicos. Mas correu bem! Temos muita água, uma quantidade incrível de moinhos, de diques, levadas, que as pessoas percorrem até ao rio Tejo”, diz, enaltecendo a aposta da autarquia que visa o prolongamento do passadiço do Alamal até ao PR2 e acreditando que o sucesso do turismo no concelho passa pela identificação de novos pontos de interesse, pela gastronomia e pela reintrodução da tradição do cavalo.

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Voltando à preparação do chá, esta exige algum conhecimento e ritual. O antigo funcionário público, seu apreciador e apaixonado pelas plantas, conhece todos os segredos que vão muito além da simples prática de ferver água e depois colocar folhas ou uma saqueta dentro do bule. “Jamais utilizar água da torneira para uma infusão” explica ao nosso jornal. Infusão “porque chá é outra coisa”, que resulta da planta camellia sinensis, e água mineral, sublinha, essencial para que o sabor seja apreciado na totalidade. “A água é tão importante como a planta”, garante.

João Chambel proprietário da marca de chás ‘Aromas de Guidintesta’ tem o sua plantação junto à Ribeira das Barrocas, em Atalaia, Gavião. Plantação de sabugueiro. Créditos: mediotejo.net

E ali estávamos nós, nas terras da Azenha da Barroca, que no passado pertenceram ao avô de João, e num passado ainda mais longínquo eram conhecidas como terras de Guidintesta onde, segundo a lenda, “descansaram os deuses o olhar, escondendo no seio da terra os nutrientes que conferem ao que nela brota odores e sabores únicos, acentuados pela exposição à luz límpida do sol e cujas águas cristalinas lhes empresta a exuberância necessária e lhes suaviza os contornos”.

E se a todos estes ingredientes adicionarmos “paciência, persistência e a delicadeza de quem, sem pressa, obedecendo unicamente ao compasso da natureza, as cultiva”, temos o resultado: os chás biológicos de Atalaia, que brotaram da dor de barriga de um menino cuja avó lhe preparou uma infusão de flor de sabugueiro para acalmar a maleita, transformando-o num apreciador que décadas mais tarde encontrou nas plantas um complemento da reforma.

Ainda recorda a segunda infusão que tomou: erva príncipe. “O meu padrinho trabalhava na Marinha Mercante e certo dia trouxe a planta de Angola. Gostei tanto que nunca mais deixei de beber chá.”

O cultivo de erva príncipe, aliás, foi uma das primeiras tentativas de João, mas infelizmente revelou-se “infrutífera” porque “os terrenos têm muita água e a erva não gosta de terras alagadiças, de difícil drenagem de água”.

João Chambel proprietário da marca de chás ‘Aromas de Guidintesta’ tem o sua plantação junto à Ribeira das Barrocas, em Atalaia, Gavião. Plantação de hortelã pimenta. Créditos: mediotejo.net

Mas não desistiu. Atualmente a residir em Torres Vedras, após uma mudança de Azeitão, João Chambel nunca esqueceu as suas raízes rurais, com pais agricultores que o “contagiaram” com os prazeres da ruralidade, nem as terras que herdara do avô materno em Gavião. Há cerca de cinco anos, após a reforma antecipada, – hoje conta com 62 anos – decidiu aproveitar o que tinha e desenvolver um negócio de chás biológicos.

As memórias dos chás na infância “não foram o verdadeiro motor”, confessa, mas sim a necessidade de encontrar uma ocupação para um envelhecimento ativo, que juntou à “paixão pelas plantas e pelo campo”. Além disso, “o chá estava muito na moda”, diz. “Eram muitos os projetos em todo o País ligados ao chá e eu achei que combinava comigo. Era um produto a dar os primeiros passos, que gostava e não tinha grandes problemas em cultivar”, como é o caso das hortelãs, da lúcia-lima, das flores desde a perpétua roxa à camomila passando pela calêndula ou rosa mosqueta, explica. Em 2020, João pensa apostar na equinácea e diz que o maracujá, já existente nas terras, adquire classificação Bio.

Depressa percebeu que a aposta teria de ser “nas plantas que as pessoas já conhecem”, notando que também a sua marca apresenta infusões de cardamomo, anis, gengibre, canela. “Fazemos algumas misturas, mas 90% destas especiarias os clientes conhecem, até o cravinho e a pimenta. Fazemos uma boa tisana com pimenta!”, assegura.

A Azenha das Barrocas, datada de 1709, já não mói cereais mas vigia as plantas e vê passar os turistas pelo trilho do PR2. Créditos: mediotejo.net

A base do conhecimento recebeu-a “dos mais antigos”, o tal eixo que permite evoluir e perceber, por exemplo, que o mentrasto, também conhecido como catinga de bode ou picão-roxo, é uma planta medicinal que possui propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes, sendo muito útil na agricultura biológica, servindo como repelente de insetos nas culturas onde os inseticidas não são bem-vindos. “Não há inseto nenhum que pouse no mentrasto”, afirma, falando também na hortelã de cão, “muito boa na sopa de peixe”.

Manuais de etiqueta à parte, João ensina-nos a sorver o chá, no caso um bule de cidreira conseguido com produtos da envolvente colhidos na hora. “É assim que deve ser bebido o chá para despertar os aromas. A forma socialmente aceite de beber chá não permite a explosão de aromas, e um sabor mais intenso”.

Inicialmente o negócio arrancou com hortelã pimenta e hortelã verde, até que começou a perceber que “poderia ter algum futuro”. Aumentou as produções de lúcia-lima, tomilho, cidreira e flores.

“Neste trajeto, além de identificarmos as plantas aromáticas que prosperam com este habitat, muito húmido, quente e pouco sol, fui experimentando sempre, ligado à figura do agricultor tradicional que produz de uma forma artesanal”. Nesse trabalho estava incluída a secagem das plantas e a embalagem. O produto final era então colocado em alguns supermercados do concelho de Gavião e da grande Lisboa.

João Chambel proprietário da marca de chás ‘Aromas de Guidintesta’ tem o sua plantação junto à Ribeira das Barrocas, em Atalaia, Gavião. A Azenha das Barrocas, datado de 1709, já não mói cereais mas vigia as plantas e vê passar os turistas pelo trilho do PR2. Plantação de rosa mosqueta que cresce pelos telhados. Créditos: mediotejo.net

A certificação Bio – de produto biológico – apresentou-se também como um requisito inicial, realizada por uma empresa portuguesa. “A área de transformação e de secagem também tem certificação Bio, o que é raro” sublinha. Contudo, o seu projeto “só faria sentido ser Bio, senão era um igual aos outros todos que existem no mercado”, observa. E nem o preço atrapalha. As embalagens com dez saquetas de chá “encontram-se à venda dentro dos preços normais. Há infusões não Bio mais caras”, revela.

Atualmente, o negócio atinge um patamar “confortável”, diz. “O consumidor prefere o chá em saqueta e por isso investi em maquinaria. O produto em pacote é excelente mas não é tão procurado. E a rentabilidade prende-se com o índice cultural do consumidor. Já paga as despesas mas desengane-se quem entra neste negócio para ganhar muito dinheiro. Até porque vejo o chá como um negócio de qualidade, e um bom produto nunca pode ser em grande quantidade”, explica, dizendo que, ainda assim, os ‘Aromas de Guidintesta’ continuam a oferecer pacotes para quem pede, e “nunca mereceu uma única reclamação”.

Os produtos chegam aos supermercados de Gavião, a casas da especialidade em Torres Vedras e Azeitão “e estamos a aumentar”, garante João Chambel, que marca presença também na Mostra de Artesanato, Gastronomia e Atividades Económicas e ainda na Feira de Natal de Gavião. Sem esquecer outras dinâmicas, como a oferta solidária do seu produto a hospitais e lares de idosos, para dia 18 de junho tem agendado um workshop de chá na Universidade Sénior de Gavião.

Os chás ‘Aromas de Guidintesta’ depois de empacotados e embalados. Créditos: mediotejo.net

A produção é anual, isto é, as plantas de um ano são embaladas e vendidas apenas naquele ano. Nos finais de junho ocorrem os primeiros cortes. “É bom que seja sempre a meio da tarde por causa do sol. As plantas cortadas são logo metidas à sombra, têm um tempo para chegar ao secador, que não pode ter temperaturas muito baixas de noite (cerca de 18º centígrados), bem ventilado, à sombra, e em cinco a seis dias atinge o ponto de secagem”, indica, exemplificando com a cidreira, uma planta muito sensível. “Qualquer diferença de temperatura ou de humidade do ar faz com que a planta, depois do corte, adquira um tom acastanhado, o que não é bom. O ideal é ser cortada em dias de vento suão”.

A secagem é outro passo fundamental uma vez que, “bem feita, preserva o conteúdo aromático da planta”. Após a secagem, a planta “fica quietinha, inteira e só vai para trituração quando é para ensacar”, no caso com a ajuda de uma máquina de ar comprimido, com robôs pneumáticos e elétricos, “temperatura e pressão no corte e soldagem nas saquetas” de algodão e fibras vegetais, afirma. A embalagem é feita à mão por João com a ajuda da sua mulher.

O empresário conta, para breve, com um exportador francês também com certificação Bio como fornecedor das especiarias que junta às suas plantas e multiplica a diversidade de um negócio ainda de pequena dimensão mas “com sucesso” e perspetivas de crescimento.

A máquina que chegou do Oriente para empacotar o chá dos ‘Aromas de Guidintesta’. Créditos: mediotejo.net

Os horizontes alargam-se agora para a oliveira Bio. “Tenho algumas centenas de oliveiras, algumas já certificadas, e é uma possibilidade para muito breve”, diz, contado com a expectativa da construção de um lagar Bio no vizinho concelho de Ponte de Sor.

Quer também avançar para o cultivo de vinha. “É uma zona de produção vinícola, apesar de se ter perdido há cerca de 100 anos a tradição do vinho”, acredita, após ter escutado as palavras de um familiar entretanto desaparecido “muito conhecedor desta área” que apontou como causas “o aparecimento de geada, que queimou as vinhas”.

Ou seja, da Azenha das Barrocas até Vale da Vinha, “eram só vinhas… talvez isso justifique o topónimo. De Gavião até ao rio Tejo, pelos socalcos, reinava a vinha. Um conhecimento que infelizmente perdemos”. João confessa querer de volta essa tradição e contribuir, podendo até recuperar algumas das castas que se cultivavam no concelho, há mais de um século.

Mercado de Natal no Largo do Município em Gavião. Os Aromas de Guidintesta de João Chambel de Atalaia. Foto: DR

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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