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Quarta-feira, Maio 12, 2021

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Gavião | A história do ingrediente que dissolve o coronavírus está no Museu do Sabão

Lavar as mãos com sabão azul e branco é uma das medidas mais eficazes para travar a infecção por covid-19, porque este velho aliado das limpezas domésticas dissolve a camada de lípidos em torno do coronavírus. O concelho de Gavião tem, em Belver, o único museu em Portugal que conta a história deste secular produto que volta a ter importância máxima em tempos de pandemia. O VIII aniversário do Museu do Sabão é assinalado na terça-feira, dia 27 de abril, com reportagem em direto na Rádio TSF.

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Recentemente, a presidente da parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) “Água e Saneamento para Todos”, Catarina de Albuquerque, afirmou que a covid-19 só será estancada quando todos tiverem acesso a água para lavar as mãos. Mas esta prática tão defendida como meio de prevenção pelo novo coronavírus – lavar as mãos com sabão – é “um luxo” para 40% da população mundial, ou seja, 3 mil milhões de pessoas.

Em declarações à agência Lusa, a jurista portuguesa sublinhou a importância das medidas preventivas contra a infeção pelo novo coronavírus. Recordou que estas questões se passam a nível mundial mas também a nível nacional, onde ainda existem comunidades em habitações sem água canalizada, sem acesso a água potável e muito menos a água e sabão.

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DICA
Junte água e algumas lascas de sabão num recipiente com doseador e utilize em vez de sabonete líquido para a lavagem de mãos, uma vez que é mais eficaz na destruição do vírus.

De acordo com estimativas da ONU, duas em cada cinco pessoas em todo o mundo, não têm água potável ou sabão em casa para lavar as mãos, uma medida considerada “crítica” na prevenção de várias doenças, incluindo a propagação do novo coronavírus. Destas, 1,6 mil milhões têm acesso limitado a água e sabão e 1,4 mil milhões não têm simplesmente acesso.

Situação que não é nova, também no passado ter acesso ao sabão foi “um luxo”, condição que teima em não desaparecer para os cidadãos mais vulneráveis da sociedade. A história do sabão e dos saboeiros de Belver, no concelho de Gavião, pode ser conhecida no Museu do Sabão, único em Portugal, que por certo merecerá uma visita após a pandemia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu do Sabão em Belver é muito representativo da história daquela vila, uma vez que no século XVI a produção de sabão assumiu inegável importância económica e social na região. Nesta localidade foi instalada uma Real Fábrica do Sabão, que funcionou em regime de monopólio régio. Sem vestígios reais da dita, o Município decidiu recuperar a história dos saboeiros e dignificá-la aproveitando uma antiga escola primária para ali instalar o único Museu do Sabão em Portugal, o terceiro na Europa e o quarto do mundo.

Durante séculos as gentes de Belver tiraram o pão do fabrico do sabão mole e naquela vila funcionou a Real Fábrica do Sabão, da qual não resta qualquer registo físico, a não ser documentação e registo histórico confirmando a escolha régia.

O monopólio régio do sabão em Portugal atravessou quatro séculos (do século XV ao século XVIII), variando entre duas formas: reserva total dos benefícios para a coroa; e partilha dos privilégios entre o rei e os nobres. A lei instituiu sanções muito severas, que poderiam ir até à prisão, para quem fabricasse, importasse ou vendesse sabão ilegalmente, punindo inclusive a produção de uso doméstico.

Estas medidas tão repressivas estiveram na origem de numerosas revoltas da população, pois não era facilmente aceite a proibição do fabrico caseiro deste produto. Em consequência, proliferaram pequenas produções e vendas clandestinas, o que levou ao seu encarecimento e especulação.

A revolta também se estendeu a Belver. A 16 de maio de 1846, aproveitando um clima de rebelião, os saboeiros e almocreves decidem pôr fim unilateral aos monopólio saboeiro. Esta e outras histórias o visitante fica a conhecer no Museu do Sabão, incluindo o que foi a Guerra da Patuleia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu nasceu em 2013 com o objetivo de recordar a memória coletiva dos saboeiros de Belver. A recuperação e transformação da antiga escola primária no Museu do Sabão pretende criar um espaço de divulgação dos conhecimentos adquiridos pelos antepassados dos belverenses e homenagear a memória coletiva dos saboeiros de Belver.

Três fatores fundamentais para a escolha daquela vila: a localização, o acesso ao rio Tejo facilitava o transporte via fluvial até Lisboa; a abundância de matéria prima, uma zona rica em oliveiras e azeite; e também pelo saber do povo. Além da Real Fábrica do Sabão há registo de oito saboarias em Belver.

Passados séculos, curiosamente, no momento em que vivemos, o sabão voltou a adquirir uma importância vital. Lavar as mãos com sabão é uma das medidas preventivas para travar o novo coronavírus, porque o sabão dissolve a camada de lípidos (gordura) em torno do vírus.

Micela. Museu do Sabão em Gavião. Créditos: mediotejo.net

Para se perceber como o sabão limpa, é necessário conhecer as suas moléculas individualmente, o que o Museu ajuda a compreender. Passamos a explicar: o sabão é constituído por uma estrutura molecular de átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio e sódio ou potássio. Cada molécula de sabão tem duas partes: a cabeça (extremidade polar que gosta muito de água) e a cauda (extremidade apolar que não gosta muito de água mas gosta de óleos). A cauda é constituída por uma longa cadeia de átomos de carbono e hidrogénio. A cabeça por átomos de sódio ou potássio e oxigénio.

Esta estrutura é responsável por algo muito importante: a dissolução das sujidades e das gorduras através da água. A cabeça da molécula de sabão é atraída pela água, enquanto que a cauda é atraída pelas gorduras ou pela sujidade. A cauda envolve a sujidade solidificando-a e emulsionando-a. Quando passamos água, a cabeça da molécula do sabão é atraída por esta, puxando literalmente a sujidade através da cauda. Perante este processo as moléculas organizam-se em forma de micelas.

E o que é uma micela? Quando a água, o sabão e a sujidade se encontram, forma uma micela. A micela é como uma bola, a parte exterior está cheia de cabeças e a parte interior está cheia de caudas, no centro está a gordura/sujidade. As caudas “cravam-se” na gotícula de gordura ou sujidade, solidificando-a e desintegrando-a. As cabeças, puxadas pela água, ficam apontadas para o lado de fora, solubilizando na lavagem toda a estrutura.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

“O sabão de Belver era feito com cinza, borras de azeite, cal como aditivo para branquear e água. Este sabão ficava mole por causa das cinzas e não era utilizado para a pele”, refere ao mediotejo.net Sílvia Bernardo, responsável pelo Museu. O sabão em Belver foi fabricado até meados do século passado mas “atualmente já não existe nenhum saboeiro vivo” na freguesia.

A produção de sabão mole em Belver foi assegurada por algumas famílias até à primeira metade do século XX, mas sendo considerado um produto essencial a partir de 1930, o sabão foi racionado em muitos países durante a II Grande Guerra. A sua escassez abriu uma oportunidade ao ressurgimento do fabrico em Belver.

Depois, ficaram as memórias e a alcunha de ‘saboeiros’ que tinha na vila “uma conotação negativa” explica Sílvia e só com o Museu, Belver se reconciliou com o passado e voltou a ter orgulho em tal ofício como parte integrante da sua história. O Museu, em jeito de homenagem, tem um espaço onde dá a conhecer as fotos e os nomes dos principais saboeiros de Belver do século XIX.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, a investigação sobre novos processos de fabrico foi acelerado surgindo os primeiros produtos de origem sintética (detergentes, e compostos resultantes da indústria petroquímica) que também podem ver vistos no Museu.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O visitante pode ainda apreciar o antigo traje do racho folclórico de Belver, recuperado do espólio para mostrar como se vestiam os saboeiros na época em que se fabricava sabão em Belver.

Assim, através de uma experiência interativa – física e visual – o visitante pode fazer uma viagem sobre o sabão e a sua história. Na mesa interativa, com os mesmos conteúdos expostos nas paredes do Museu, oferece-se uma diferente viagem no sentido de uma melhor compreensão de todo o processo. Ao lado, dois monitores com jogos onde se pode rebentar bolas de sabão e ganhar pontos.

Este talvez seja o espaço preferido dos mais pequenos, apesar deste Museu oferecer a história do sabão contada através de fantoches num espaço próprio com a forma do Castelo de Belver. Tal como o filme que passa continuamente com uma síntese da informação do Museu onde se pode ver uma pequena animação referente aos componentes químicos.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Nesta visita é também apresentada a história do sabão no mundo, do seu aparecimento na antiga Mesopotâmia, Egito e Grécia, a lenda do Monte Sapo associada à sua origem tal como a palavra de onde derivam as diversas etimologias: sapone em italiano, sabão em português. E a evolução até aos dias de hoje.

Entre as diversas curiosidades, ficamos a saber que no século XVII a Inglaterra se assume como o país com maior consumo de sabão, isto porque a rainha Elizabeth I instituiu o hábito de tomar banho com regularidade (de 4 em 4 semanas).

E naturalmente, a história do sabão em Portugal, a sua importância económica do século XIV ao século XVIII, tal como a exposição de alguns produtos que marcaram gerações.

Logo à entrada do Museu, informações sobre a composição química do sabão mostram-nos a imagem da molécula do sabão e as diferenças entre sabão mole (composto por potássio) e sabão duro (composto por sódio). Após a receção, uma “parede” de sabão envidraçada.

“É uma forma bastante fácil de explicar a diferença entre sabão mole e sabão duro. Aparentemente ambos são duros mas na realidade não. O sabão amarelo composto maioritariamente por sódio é mole, o sabão azul mais duro. O sabão amarelo em contacto com a água desgasta mas não desfaz, enquanto que o azul racha e parte em pequenos pedaços”, explica Sílvia Bernardo.

No centro do espaço uma vitrina que expõe sabonetes de emblemáticas marcas portuguesas e estrangeiras e também caixas de detergentes, além de uma escultura em forma de hélice feita com sabonetes de glicerina.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Mais ao lado outra vitrina dedicada ao famoso sabonete Lux que inclui um anúncio ao dito, ilustrado com o rosto de Amália Rodrigues, uma das “nove em cada dez” estrelas de cinema, apesar de ser fadista, que usavam o sabonete fabricado em Portugal, mais concretamente em Sacavém, na Unilever.

As explicações são dadas aos visitantes por Sílvia Bernardo em visitas guiadas com duração entre 45 e 60 minutos, que podem ser em português ou inglês, uma vez que os conteúdos existem apenas em português embora as brochuras já sejam bilingues.

Em todo o mundo, são quatro museus dedicados ao sabão: Além do português – o único que refere o sabão mole –, em Espanha (Barcelona), França (Marselha) e Líbia (Sidon). O Museu de Belver conta em média com quatro mil visitantes anuais, sendo muitos estrangeiros, nomeadamente espanhóis.

O Museu do Sabão é municipal e encontra-se aberto durante todo o ano, de terça a sexta-feira das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. Aos sábados, domingos e feriados funciona das 10h00 às 13h00, enquanto durarem as restrições pandémicas.

Encerra à segunda-feira, sendo que, na terça-feira, 27 de abril, às 08:00, vai ser assinalado o VIII aniversário do Museu do Sabão com reportagem em direto na Rádio TSF.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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