Gavião | A história do ingrediente que dissolve o coronavírus está no Museu do Sabão

Lavar as mãos com sabão azul e branco é uma das medidas mais eficazes para travar a infecção por covid-19, porque este velho aliado das limpezas domésticas dissolve a camada de lípidos em torno do coronavírus. O concelho de Gavião tem, em Belver, o único museu em Portugal que conta a história deste secular produto que volta a ter importância máxima em tempos de pandemia. O Museu do Sabão, que assinala este ano o seu sétimo aniversário, está, por agora, encerrado, mas bem que merece uma visita no pós covid-19.

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Recentemente, a presidente da parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) “Água e Saneamento para Todos”, Catarina de Albuquerque, afirmou que a covid-19 só será estancada quando todos tiverem acesso a água para lavar as mãos. Mas esta prática tão defendida como meio de prevenção pelo novo coronavírus – lavar as mãos com sabão – é “um luxo” para 40% da população mundial, ou seja, 3 mil milhões de pessoas.

Em declarações à agência Lusa, a jurista portuguesa sublinhou a importância das medidas preventivas contra a infeção pelo novo coronavírus. Recordou que estas questões se passam a nível mundial mas também a nível nacional, onde ainda existem comunidades em habitações sem água canalizada, sem acesso a água potável e muito menos a água e sabão.

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DICA
Junte água e algumas lascas de sabão num recipiente com doseador e utilize em vez de sabonete líquido para a lavagem de mãos, uma vez que é mais eficaz na destruição do vírus.

De acordo com estimativas da ONU, duas em cada cinco pessoas em todo o mundo, não têm água potável ou sabão em casa para lavar as mãos, uma medida considerada “crítica” na prevenção de várias doenças, incluindo a propagação do novo coronavírus. Destas, 1,6 mil milhões têm acesso limitado a água e sabão e 1,4 mil milhões não têm simplesmente acesso.

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Situação que não é nova, também no passado ter acesso ao sabão foi “um luxo”, condição que teima em não desaparecer para os cidadãos mais vulneráveis da sociedade. A história do sabão e dos saboeiros de Belver, no concelho de Gavião, pode ser conhecida no Museu do Sabão, único em Portugal, que por certo merecerá uma visita após a pandemia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu do Sabão em Belver é muito representativo da história daquela vila, uma vez que no século XVI a produção de sabão assumiu inegável importância económica e social na região. Nesta localidade foi instalada uma Real Fábrica do Sabão, que funcionou em regime de monopólio régio. Sem vestígios reais da dita, o Município decidiu recuperar a história dos saboeiros e dignificá-la aproveitando uma antiga escola primária para ali instalar o único Museu do Sabão em Portugal, o terceiro na Europa e o quarto do mundo.

Durante séculos as gentes de Belver tiraram o pão do fabrico do sabão mole e naquela vila funcionou a Real Fábrica do Sabão, da qual não resta qualquer registo físico, a não ser documentação e registo histórico confirmando a escolha régia.

O monopólio régio do sabão em Portugal atravessou quatro séculos (do século XV ao século XVIII), variando entre duas formas: reserva total dos benefícios para a coroa; e partilha dos privilégios entre o rei e os nobres. A lei instituiu sanções muito severas, que poderiam ir até à prisão, para quem fabricasse, importasse ou vendesse sabão ilegalmente, punindo inclusive a produção de uso doméstico.

Estas medidas tão repressivas estiveram na origem de numerosas revoltas da população, pois não era facilmente aceite a proibição do fabrico caseiro deste produto. Em consequência, proliferaram pequenas produções e vendas clandestinas, o que levou ao seu encarecimento e especulação.

A revolta também se estendeu a Belver. A 16 de maio de 1846, aproveitando um clima de rebelião, os saboeiros e almocreves decidem pôr fim unilateral aos monopólio saboeiro. Esta e outras histórias o visitante fica a conhecer no Museu do Sabão, incluindo o que foi a Guerra da Patuleia.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O Museu nasceu em 2013 com o objetivo de recordar a memória coletiva dos saboeiros de Belver. A recuperação e transformação da antiga escola primária no Museu do Sabão pretende criar um espaço de divulgação dos conhecimentos adquiridos pelos antepassados dos belverenses e homenagear a memória coletiva dos saboeiros de Belver.

Três fatores fundamentais para a escolha daquela vila: a localização, o acesso ao rio Tejo facilitava o transporte via fluvial até Lisboa; a abundância de matéria prima, uma zona rica em oliveiras e azeite; e também pelo saber do povo. Além da Real Fábrica do Sabão há registo de oito saboarias em Belver.

Passados séculos, curiosamente, no momento em que vivemos, o sabão voltou a adquirir uma importância vital. Lavar as mãos com sabão é uma das medidas preventivas para travar o novo coronavírus, porque o sabão dissolve a camada de lípidos (gordura) em torno do vírus.

Micela. Museu do Sabão em Gavião. Créditos: mediotejo.net

Para se perceber como o sabão limpa, é necessário conhecer as suas moleculas individualmente, o que o Museu ajuda a compreender. Passamos a explicar: o sabão é constituído por uma estrutura molecular de átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio e sódio ou potássio. Cada molécula de sabão tem duas partes: a cabeça (extremidade polar que gosta muito de água) e a cauda (extremidade apolar que não gosta muito de água mas gosta de óleos). A cauda é constituída por uma longa cadeia de átomos de carbono e hidrogénio. A cabeça por átomos de sódio ou potássio e oxigénio.

Esta estrutura é responsável por algo muito importante: a dissolução das sujidades e das gorduras através da água. A cabeça da molécula de sabão é atraída pela água, enquanto que a cauda é atraída pelas gorduras ou pela sujidade. A cauda envolve a sujidade solidificando-a e emulsionando-a. Quando passamos água, a cabeça da molécula do sabão é atraída por esta, puxando literalmente a sujidade através da cauda. Perante este processo as moléculas organizam-se em forma de micelas.

E o que é uma micela? Quando a água, o sabão e a sujidade se encontram, forma uma micela. A micela é como uma bola, a parte exterior está cheia de cabeças e a parte interior está cheia de caudas, no centro está a gordura/sujidade. As caudas “cravam-se” na gotícula de gordura ou sujidade, solidificando-a e desintegrando-a. As cabeças, puxadas pela água, ficam apontadas para o lado de fora, solubilizando na lavagem toda a estrutura.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

“O sabão de Belver era feito com cinza, borras de azeite, cal como aditivo para branquear e água. Este sabão ficava mole por causa das cinzas e não era utilizado para a pele”, refere ao mediotejo.net Sílvia Bernardo, responsável pelo Museu. O sabão em Belver foi fabricado até meados do século passado mas “atualmente já não existe nenhum saboeiro vivo” na freguesia.

A produção de sabão mole em Belver foi assegurada por algumas famílias até à primeira metade do século XX, mas sendo considerado um produto essencial a partir de 1930, o sabão foi racionado em muitos países durante a II Grande Guerra. A sua escassez abriu uma oportunidade ao ressurgimento do fabrico em Belver.

Depois, ficaram as memórias e a alcunha de ‘saboeiros’ que tinha na vila “uma conotação negativa” explica Sílvia e só com o Museu, Belver se reconciliou com o passado e voltou a ter orgulho em tal ofício como parte integrante da sua história. O Museu, em jeito de homenagem, tem um espaço onde dá a conhecer as fotos e os nomes dos principais saboeiros de Belver do século XIX.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, a investigação sobre novos processos de fabrico foi acelerado surgindo os primeiros produtos de origem sintética (detergentes, e compostos resultantes da indústria petroquímica) que também podem ver vistos no Museu.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

O visitante pode ainda apreciar o antigo traje do racho folclórico de Belver, recuperado do espólio para mostrar como se vestiam os saboeiros na época em que se fabricava sabão em Belver. E alguns monumentos do concelho de Gavião em pequenas esculturas de sabão, iniciativa para comemorar o quinto aniversário do Museu do Sabão em 2018, e conhecer os utensílios de fabricação do sabão mole de Belver.

Assim, através de uma experiência interativa – física e visual – o visitante pode fazer uma viagem sobre o sabão e a sua história. Na mesa interativa, com os mesmos conteúdos expostos nas paredes do Museu, oferece-se uma diferente viagem no sentido de uma melhor compreensão de todo o processo. Ao lado, dois monitores com jogos onde se pode rebentar bolas de sabão e ganhar pontos.

Este talvez seja o espaço preferido dos mais pequenos, apesar deste Museu oferecer a história do sabão contada através de fantoches num espaço próprio com a forma do Castelo de Belver. Tal como o filme que passa continuamente com uma síntese da informação do Museu onde se pode ver uma pequena animação referente aos componentes químicos.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Nesta visita é também apresentada a história do sabão no mundo, do seu aparecimento na antiga Mesopotâmia, Egito e Grécia, a lenda do Monte Sapo associada à sua origem tal como a palavra de onde derivam as diversas etimologias: sapone em italiano, sabão em português. E a evolução até aos dias de hoje.

Entre as diversas curiosidades, ficamos a saber que no século XVII a Inglaterra se assume como o país com maior consumo de sabão, isto porque a rainha Elizabeth I instituiu o hábito de tomar banho com regularidade (de 4 em 4 semanas).

E naturalmente, a história do sabão em Portugal, a sua importância económica do século XIV ao século XVIII, tal como a exposição de alguns produtos que marcaram gerações.

Logo à entrada do Museu, informações sobre a composição química do sabão mostram-nos a imagem da molécula do sabão e as diferenças entre sabão mole (composto por potássio) e sabão duro (composto por sódio). Após a receção, uma “parede” de sabão envidraçada.

Museu do Sabão, Belver

“É uma forma bastante fácil de explicar a diferença entre sabão mole e sabão duro. Aparentemente ambos são duros mas na realidade não. O sabão amarelo composto maioritariamente por sódio é mole, o sabão azul mais duro. O sabão amarelo em contacto com a água desgasta mas não desfaz, enquanto que o azul racha e parte em pequenos pedaços”, explica Sílvia Bernardo.

No centro do espaço uma vitrina que expõe sabonetes de emblemáticas marcas portuguesas e estrangeiras e também caixas de detergentes, além de uma escultura em forma de hélice feita com sabonetes de glicerina.

Museu do Sabão, em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Mais ao lado outra vitrina dedicada ao famoso sabonete Lux que inclui um anúncio ao dito, ilustrado com o rosto de Amália Rodrigues, uma das “nove em cada dez” estrelas de cinema, apesar de ser fadista, que usavam o sabonete fabricado em Portugal, mais concretamente em Sacavém, na Unilever.

As explicações são dadas aos visitantes por Sílvia Bernardo em visitas guiadas com duração entre 45 e 60 minutos, que podem ser em português ou inglês, uma vez que os conteúdos existem apenas em português embora as brochuras já sejam bilingues.

Em todo o mundo, são quatro museus dedicados ao sabão: Além do português – o único que refere o sabão mole –, em Espanha (Barcelona), França (Marselha) e Líbia (Sidon). O Museu de Belver conta em média com quatro mil visitantes anuais, sendo muitos estrangeiros, nomeadamente espanhóis.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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