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Sexta-feira, Maio 14, 2021

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Gavião | A “arriscada” aposta turística de quatro alfacinhas que a pandemia mudou para Belver

A capital portuguesa, cidade que estava na moda sendo uma das preferidas de turistas de todo o mundo, com a covid-19 passou a ser o pesadelo dos empresários do turismo e dos novos e arrojados negócios criados só para visitantes. Perante a “desertificação” turística Teresa Fazendeiro, Luciano Pereira, José e Margarida Brejo trocaram Lisboa pelo Gavião, no Alto Alentejo. O restaurante O Belver nasce dessa mudança para o interior.

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Em Gavião, especificamente em Belver, borbulham novas ideias de negócios. Edifícios recuperados, aposta no alojamento local – como é exemplo a Casa do Sobreiro Doce -, empregos criados, a dinamização do artesanato, a vinda de três tuk-tuk silenciosos e elétricos e a crença nas vantagens do interior para o crescimento do turismo. Teresa Fazendeiro há muito que sonhava com o campo e a pandemia acelerou o processo.

Mantendo a sede da sua agência de viagens com soluções de transporte, nacionais e internacionais, em Lisboa, abriu uma filial em Belver com vista para o rio Tejo.

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“Estávamos no topo. Em 2019 organizámos a reunião anual dos ministros da Juventude, com 500 pessoas, e terminámos o ano sendo os fornecedores oficiais da Web Summit. Em janeiro de 2020 a Agenda Direta já tinha reservas até setembro, quando em março surge a pandemia. Esse foi o choque maior. todos os cancelamentos. Devolvemos o dinheiro e começámos a cair na real. Quebrei 98% de faturação” tendo fechado o ano anterior com 750 mil euros, contou Teresa ao mediotejo.net, tendo aproveitado “esta fase” como uma oportunidade para desenvolver o projeto no interior do país.

Luciano Pereira deu o pontapé de saída. Com uma casa de herança de família em Gavião, o motorista na empresa Agenda Direta de Teresa Fazendeiro, hoje é seu sócio, juntamente com o cunhado e a irmã da empresária, José e Margarida Brejo, ambos taxistas em Lisboa.

Os quatro deixaram Lisboa definitivamente e apostaram em Gavião para investir, criar o seu próprio posto de trabalho e gerar emprego, recuperar património degradado, dinamizar atividades culturais e revitalizar o comércio local.

Luciano Pereira era motorista de turismo em Lisboa. Com a pandemia apostou num restaurante em Belver, Gavião. Créditos: mediotejo.net

Em Belver “a natureza é realmente diferente. Tive a sorte de ter um escritório em frente ao Tejo e isso deu-me tranquilidade. Apaixonei-me pelo Gavião!”, afirma Teresa. Agora vive no Alto Alentejo, da interioridade continua a gerir os transferes de e para Lisboa (ou para qualquer outra zona do país) e tem para oferecer “uma série de programas”, designadamente passeios turísticos em todo o concelho indo “a todos os pontos para divulgar a quem nos visita”.

A complementar a oferta, está em marcha uma nova unidade de alojamento rural com quatro suites, sala, uma zona comum, outra de lazer e piscina com vista para o Castelo e para o rio, quase à entrada do PR1.

Apesar da aposta, Teresa considera que “o Estado está a perder a oportunidade de trazer gente para o interior porque os apoios não são automáticos e é preciso estar atento aos prazos das candidaturas. Há falta de informação e esclarecimento”, critica, lembrando histórias de pessoas tristes e desesperadas na capital.

“No meio da desgraça” a Agenda Direta contou com o apoio de “180 mil euros de créditos que vamos ter de pagar. Esse montante foi para suportar a empresa e substituirmos as responsabilidades do Estado” no apoio a colaboradores, assegura.

Em Belver, “não fazemos mais porque não há apoios”. Nota que “não há comércio, não há uma única loja [de artesanato]! Sendo que em 2020 o Castelo de Belver teve 10 mil visitas. Como é possível? O turista vem, depois passeia pela vila, que parece o Bairro Alto, para ver casas devolutas?”, interroga a empresária pensando em atrair mais turistas, e estes “que se sintam bem” na ruralidade.

A ideia de Teresa passa, então, por dinamizar a economia local, designadamente o artesanato, a pensar numa qualquer lembrança belverense que o visitante possa levar para casa. Sendo que a vila de Belver conta atualmente com três mercearias, um café, um restaurante e um quiosque no Largo Luís de Camões, no qual o visitante pode refrescar-se com um sumo ou comer uma sanduiche.

Restaurante O Belver, no concelho de Gavião. Créditos: DR

O restaurante apresenta-se a parte “mais complicada” desta aposta. O Belver abriu no dia 6 e encerrou no dia 13 de janeiro, por decreto governamental. Os quatro sócios estavam longe de imaginar um segundo confinamento. “Funcionamos em take away mas estamos ansiosos pela reabertura” no dia 20 de abril, refere ao mediotejo.net Luciano Pereira, no seguimento da perspetivada terceira fase de desconfinamento.

Quando a sala – com capacidade para 88 pessoas embora com número reduzido a metade – voltar a receber clientes, naquele restaurante rústico poderá encontrar naco do lombo na pedra, pratos regionais, frango no churrasco, espetadas várias e outras especialidades no carvão. “Inovar e qualidade” é o lema proposto. Outra proposta passa por servir almoços desde as 11h30 às 18h00. Para os jantares das 19h00 até às 23h00.

Apesar de ser um espaço arrendado onde, num passado recente, funcionou outro restaurante, encerrado precisamente em cenário de pandemia, “mesmo assim investimos 50 mil euros”, nomeadamente em equipamentos, acrescenta Teresa.

Em novo turbilhão, a equipa não voltou às costas à responsabilidade social e optou por “entregas ao domicilio” a custo zero. “Já fomos quase a Ponte de Sor… mas se tenho um senhor de 93 anos que precisa, nós vamos”, relata Teresa, contando a surpresa que fizeram no Dia do Pai. “Acabamos por ser um complemento aos filhos, proibidos de circular entre concelhos, e substituímos um bocadinho esse papel. A solidão mata!”, lembra.

Teresa Fazendeiro sonhava em deslocar a sua empresa para o interior do País. Créditos: mediotejo.net

Todos manifestam-se “ansiosos” para voltar a abrir portas, incluindo as duas profissionais contratadas; uma cozinheira e uma assistente de cozinha. Até porque O Belver não acompanhou no primeiro passo da abertura no serviço em esplanada – permitido desde o dia 5 de abril – tendo de aguardar mais duas semanas, pela 3ª fase de desconfinamento.

“Estamos a acreditar que vai correr bem. Temos de ter muita garra”, afirma Teresa. “E temos um verão para trabalhar porque não sabemos como será o inverno”. A empresária manifesta dúvidas quanto ao próximo inverno: ”acho que volta a fechar”, teme, falando em preparação não só dos empresários mas também dos decisores políticos.

Integrado neste projeto, em Gavião abriu-se uma nova janela para o Alto Alentejo na ‘Casa do Sobreiro Doce’, o tal alojamento local de Luciano que agora começou a ser publicitado.

“A partir de maio tenho a certeza que estará cheio. É pequeno, apenas com quatro quartos e dá para oito pessoas. Todos os que criarmos aqui vão ser pequenos”, explica. Esta aposta prende-se na “mudança do mundo. De alguma forma passámos a valorizar mais a família. Agora as pessoas não querem conviver com muita gente, num hotel onde entramos num elevador e estamos de máscara. Acho que nos próximos dois anos vamos ter de viver com cuidados. Portanto, o importante é o turismo local e pequeno, cada um ter um cantinho agradável mas isolado”, opina.

A unidade de alojamento local Casa do Sobreiro Doce, em Gavião. Créditos: DR

Apesar de estar no interior do País, o negócio foi pensado em modo “praia”, ou seja, sazonal. E no inverno “ser parte ativa no meio onde está”, nota Teresa. Com a ideia de prolongar a entrega ao domicilio, mesmo depois de instalada “a normalidade” considera que os empresários “têm de ser ativos e contributivos para com a população envelhecida, e que foram os homens de ontem”, diz.

As propostas destes investidores são pensadas para “a classe média. Sempre a conseguir ajustar valores para aqueles que querem vir mas não podem pagar os apresentados. Já fazemos esse ajuste”.

Há 47 anos em Lisboa, onde nasceu, Luciano Pereira não se imaginava a viver na terra onde passava os verões em criança. Acabou por pegar no projeto do pai, um militar da Guarda Nacional Republicana, e requalificou a casa em Gavião para turistas, em setembro de 2019, mantendo-se na capital onde viveu toda a vida.

Só que o trabalho de motorista na área do turismo “caiu a pique até ao zero”. Em plena pandemia percebeu que em Gavião estava o futuro. “Um diamante em bruto, com poucas camas” para acomodar os turistas. A covid-19 reuniu as condições para fortalecer a parceria, até pela enchente turística verificada no concelho no verão do ano passado.

Luciano, já instalado em Gavião, aponta falta de organização e considera que a Câmara, como entidade pública impulsionadora do turismo “deveria coordenar melhor o comércio. Não se entende como é que quatro restaurantes encerram para férias ao mesmo tempo na primeira semana de setembro, em plena época alta”, critica. Situação “inusitada” que acabou por animar a aposta dos quatro sócios.

A unidade de alojamento local Casa do Sobreiro Doce, em Gavião. Créditos: DR

Nos únicos seis dias abertos em janeiro último, Luciano fala em “dias espetaculares, com clientes de fora do concelho, de Marvão, de Santarém, e também de Arriacha, Areia, Alvisquer. Clientes que saíram da A23 para virem a Belver de propósito”. Com a noticia do encerramento surgiu o pânico mas a decisão foi “por manter a casa aberta” com take away, surpreendendo-se com os belverenses. “Passou a palavra. Um fator muito positivo!”.

Como negativo, aponta a falta de apoios ao comércio local, exemplificando com “a oferta da renda” às concessões municipais. “Acho muito bem! Mas nós nem a água deixámos de pagar […] não vem aqui uma instituição política perguntar se precisamos de alguma coisa, a uma empresa que abriu no concelho em pela pandemia”, lamenta.

Por seu lado, Margarida Brejo, de 62 anos, há precisamente um ano demitiu-se do trabalho que tinha, vendeu a casa em Vila Franca de Xira em três dias e mudou-se para o Médio Tejo definitivamente “sem saber o que ia fazer”.

Atualmente vive no concelho de Mação onde tinha uma casa de férias. Quando a pandemia chegou era taxista na capital, sócia de uma conhecida cooperativa com uma contribuição mensal superior a 900 euros e sem possibilidades de lay off. Com a falta de clientes o negócio tornou-se incomportável.

Antes de ser taxista trabalhou, desde os 13 anos, numa oficina de encadernação, oficio pelo qual se apaixonou. “Trabalho manual, livros antigos, com encadernação em pele… era a minha paixão. Aos 17 anos já tinha a minha empresa, trabalhava com todos os ministérios, encadernava os Diários da República, ordens de serviço, fazíamos dossiers, caixas de arquivo, um mundo…”, recorda.

Com 30 anos, “quando chegaram os computadores em força, a pouco e pouco fui ficando sem trabalho. Vieram as fábricas ficámos sem os dossiers, depois os separadores, depois as caixas de arquivo. Ficámos com os livros vieram as disquetes e acabou, fechei a oficina”.

Margarida virou as costas à sua paixão para abraçar outro amor; a condução de um táxi, herdando a profissão do pai. “Na altura não haviam mulheres motoristas de táxi. Tive uma enorme dificuldade em arranjar alguém que me cedesse um carro para trabalhar. Foi lutando contra tudo e contra todos” numa profissão onde permaneceu três décadas.

Vista da entrada do restaurante O Belver, Gavião. Créditos: DR

A batalha atualmente é no comando da cozinha do restaurante O Belver, uma proposta da irmã que confessa não ter recebido de “braços abertos”. Margarida “não queria. Adivinhava o que me esperava. É uma grande responsabilidade mas um desafio engraçado e gosto daquilo que estou a fazer”, explica.

Antes desta aventura ainda se aventurou a trabalhar numa padaria da região, onde aprendeu a trabalhar com os fornos e a fazer tigeladas, um primeiro passo para o novo oficio que iria enfrentar a partir do dia de reis.

“Tivemos azar! Depois de muitos meses de preparação para a abertura de um investimento de risco. Abrimos e dias depois fechámos a porta. Estamos a trabalhar no restaurante desde setembro e até agora sem um cêntimo de ordenado. Os salários que conseguimos pagar são os das pessoas que contratámos. Vamos ficar à espera de melhores dias!”.

O restaurante o Belver, fica à entrada da vila com vista para o rio Tejo. Créditos: mediotejo.net

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Lendo toda a entrevista que a senhora Teresa Fazendeiro deu retenho que a própria não fez reconhecimento do local porque se assim fosse saberia que existe uma lola de comércio local com mercearia fruta fresca carnes frescas, peixes e carnes congeladas, todos os produtos de limpeza para casa ou pessoal charcutaria e até pão fresco todos os dias, etc, até produtos locais. Sei-o porquê eu própria sou a dona Mercearia Ilda Arrais,. Existe mais um restaurante e um café, e uma esplanada bastante acolhedora e bastante visitada pelos nossos turistas. Valorizo bastante a vinda de novos investidores para belver porque nos temos tudo o que o turista de todo o mundo procura quando quer usufruir de sossego tranquilidade e ar puro. Convido – a a visitar o nosso espaço bastante acolhedor típico do comércio rural.

  2. Boa noite. De certeza que não será o mesmo Belver que conheço. Aconselho que vocês antes de escrever ou publicar o que quer que seja, fizessem o trabalho de campo e aproveito para vos convidar a conhecer caso ainda não conheçam embora a reportagem tenha sido feita em Belver. Aos empresários em questão, sugiro a empresaria que dê uma volta maior (não precisa ser longa) ou então um passeio a pé a partir do seu estabelecimento no sentido ascendente já que no meu entender o Sr Luciano não precisa pois parece-me que conhece alguns dos comerciantes, e a Sr empresaria irá ver que existe uma MERCEARIA conhecida das gentes da Freguesia de Belver e não só, com muita variedade de produtos, um quiosque com esplanada em zona central com óptima vista de frente para o castelo, um CAFÉ, numa distância relativamente curta tem FARMÁCIA, e imagine-se outro RESTAURANTE bastante conhecido na região. Para além do edifício da sede da Freguesia com Multibanco e o posto local de saúde n mesma artéria dos anteriores. Penso também que a comparação que fez entre “Bairro Alto” e Belver não é de todo abonatória e de certa forma desvaloriza não só as gentes da terra que a muito custo continuam a viver ou sobreviver neste cenário pandemico como também os referidos milhares de visitantes ao Castelo. Se há falta de publicidade ao comércio local, a culpa poderá estar nas entidades competentes, o que não me parece ser o caso olhando a época natalícia transata em que o município teve em curso um programa de incentivo ao comércio local. Não querendo de todo com isto desvalorizar o espírito empreendedor que é sempre bem vindo e de louvar que exista, mas algo de errado não está correto nesta reportagem. Cumprimentos, Paulo Oliveira

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