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Sábado, Novembro 27, 2021

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Gavião | A aposta de três amigos no turismo de aventura, sem medo da pandemia

Sara e Bruno quiseram aliar o espírito aventureiro e desportivo ao trabalho, qualidade de vida e tranquilidade. Juntou-se a vontade de sair da confusão da Grande Lisboa, onde o tempo escasseava e a vida passava ao lado. A oportunidade e o saber fizeram o resto, com o apoio do amigo Francisco, já a viver em Gavião. A Gavi Adventure nasceu no verão de 2020, em plena pandemia, mas a aventura tem um risco controlado: nenhum dos três promotores depende financeiramente da empresa.

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A primeira viagem de barco Tejo abaixo pode não ser longa, ou a parede de escalada não ser demasiado alta, mas nem por isso qualquer um dos monitores, Bruno, Sara ou Francisco, descura as regras obrigatórias impostas a qualquer participante em atividades ditas de aventura, práticas que exigem segurança ao mesmo tempo que permitem aproveitar um momento de lazer ou algo mais radical.

Na Gavi Adventure, a cada novo desafio não se avança sem verificar se está tudo em ordem. Contudo, o desafio maior passou por trocar a Grande Lisboa por um pequeno concelho no Alto Alentejo e arriscar investir num negócio turístico.

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Talvez a empresa não tenha nascido de uma ação irrefletida mas a decisão de viver no campo foi certamente impulsiva, perante a oportunidade. No fundo, foi dar seguimento a uma ideia antiga na qual Sara Tibúrcio, de 38 anos, natural de Gavião, e Francisco Mata, um alfacinha de 50 anos que há 14 adotou aquela vila, trabalharam no passado.

Tinha emprego em Lisboa, numa empresa de multimédia “e vinha a Gavião aos fins de semana para ajudar nas atividades” da empresa de um amigo, conta Francisco que algum tempo depois acabou por se mudar definitivamente para Gavião. O gosto pelo desporto e pela possibilidade de fazer canoagem, passeios de BTT e outras atividades que tiram os pés do chão, falou mais alto.

Já Bruno Marques, de 38 anos, tem outra história, ligada à de Sara, que conheceu em Rio Maior para onde aquela, que hoje é sua mulher, foi estudar Desporto Aventura. Várias aventuras depois, com Sara empregada numa cadeia de ginásios em Lisboa, e Bruno no GIOP – Grupo de Intervenção de Ordem Pública da Guarda Nacional Republicana, com horários inopinados, o casal sentia não ter tempo para si. A situação complicou-se com o nascimento da filha Melissa, ficando a pairar no horizonte o desejo de uma vida mais tranquila.

Passadiços do Alamal, Praia Fluvial do Alamal, Gavião. Foto: mediotejo.net

“Era chegar a casa todos os dias entre as 21h30 e as 22h00… Não havia tempo”, refere Sara. Portanto, quando surgiu a oportunidade de trabalhar em Gavião num projeto de ação social, o CLDS – Contratos Locais de Desenvolvimento Social, não olhou para trás. Por coincidência, abriu um curso para integração no Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS), atualmente designado por Unidade de Emergência de Proteção e Socorro, e Bruno concorreu, sendo colocado em Ponte de Sor.

Sara atribui a mudança ao “destino” que indicava o caminho até Gavião e, há dois anos, venderam em três dias a casa que, seis meses antes, tinham comprado na Quinta do Conde, na margem sul da capital. “Arriscámos sem pensar em muita coisa. A decisão foi tomada em dois meses”, diz Sara.

Uma vez em Gavião, “passámos do stress de 98% para ter todo o tempo do mundo. Chegávamos a casa às 17h00 e faltava-nos qualquer coisa” para complementar o tempo adquirido com o pacote de qualidade de vida próprio do interior. E desta forma nasceu o projeto Gavi Adventure, uma empresa firmada em plena pandemia, a única de desporto e aventura no Alto Alentejo, convidando o amigo Francisco a integrá-lo, devido à sua experiência e ao conhecimento que possui do território.

Francisco, Sara e Bruno da Gavi Adventure, no passadiço do Alamal, em Gavião. Créditos: mediotejo.net

E não há arrependimentos por terem trocado a agitação da cidade grande pela tranquilidade da ruralidade. “Damos valor ao apoio do Município, sabermos que a nossa filha vai para a escola e tem tudo, seja a refeição, sejam os livros ou as atividades. Agradeço, porque do sítio de onde viemos, em Sesimbra, isso não existe. Tudo o que quiséssemos dar à nossa filha, nomeadamente atividades extra curriculares, era bem pago. Falamos de cerca de 400 euros por mês que poupamos”, reflete Bruno.

Por seu lado, Francisco diz ter sido a decisão mais certa que tomou na vida: mudar-se para Gavião. “Não me arrependo! Aqui tenho qualidade de vida e tempo para tudo.” Francisco Mata conta que morava na Costa da Caparica e demorava hora e meia para chegar a Lisboa em hora de trânsito – o mesmo tempo que leva de Gavião à capital.

“Gosto de desporto, a minha vida sempre esteve relacionada com essa área, e notávamos que em Gavião fazia falta” uma empresa de multiatividades de natureza e desporto, explica Bruno. O projeto dos três oferece, para já, canoagem, descidas de rio, stand-up e paddle, paintball, rappel, BTT, tiro com arco e zarabatana, team building, fitness (zumba, fitness, pilates), e passeios pedestres.

Há ainda o assalto ao castelo, “onde as pessoas saem da praia do Alamal num caiaque ou a pé e depois são colocadas numa zona inferior ao castelo [de Belver]. A tarefa é subir a encosta. Temos também as visitas aos museus existentes” no concelho e ainda os passeios culturais, numa parceria com a hotelaria e restauração local.

“Um percurso pedestre, um restaurante, pequenas paragens com direito a degustação dos produtos locais”, uma proposta que devido às restrições da pandemia ainda não conseguiram executar. Sem marcação, a Gavi Adventure aluga os caiaques e as pranchas de paddle. Outro serviço que a empresa pode prestar, assim que os clientes apareçam, passa pelos campos de férias para as crianças e jovens.

A Gavi Adventure é uma empresa de aventura e desportos. Créditos: Gavi Adventure

Mesmo com a excelência da praia fluvial do Alamal, do Castelo de Belver e dos museus, Bruno explica que o turista “se passasse dois ou três dias” no concelho “tinha pouco mais que a praia”. Por isso, ainda a empresa não estava oficialmente constituída já contava com marcações, designadamente para o acompanhamento nos passeios pedestres nos PR1, PR2, PR3 e PR4.

“Apesar de os percursos estarem marcados, muitos turistas procuram alguém que conheça o terreno”, explica Francisco, acrescentando que enquanto monitores também fazem a descrição da fauna e da flora da região, dada a sua diversidade e beleza paisagística, seja nos quase dois quilómetros de passadiço à beira do rio Tejo, que atualmente sofre uma intervenção para o seu prolongamento, seja num passeio ao Observatório de Avifauna do Outeiro.

Tendo em conta a “excelência do serviço” que querem prestar, a Gavi Adventure informa sempre o posto da GNR e aos bombeiros locais sempre que inicia um passeio pedestre. “Damos conhecimento que estamos a iniciar o percurso com certo número de pessoas e que vai demorar umas horas. Na eventualidade de haver alguma ocorrência, é mais fácil terem acesso ao local onde a pessoa possa necessitar de auxilio”, detalha Bruno.

Independentemente da pandemia, 2020 acabou por ser o melhor ano de sempre para o turismo do Gavião. Para a Gavi Adventure foi o primeiro verão. “Trabalhámos um mês e meio porque arrancámos com a empresa no inicio do ano”, e houve que ultrapassar “muita burocracia”, como seguros, licença, alvarás ou registos no Turismo de Portugal.

“Quisemos abrir em segurança com o certificado Clean & Safe, o nosso próprio protocolo de empresa onde nos regemos pelas regras da DGS e, como pedimos financiamento para a aquisição de material, quando tivemos tudo pronto era agosto”, mês em que Bruno, Sara e Francisco arrancaram com as atividades.

Esse mês de agosto, dizem, “foi espetacular”. Apesar da maior parte das atividades ter sido o aluguer, laçaram várias atividades, “duas delas com bastante sucesso: as descidas noturnas do rio” Tejo, enumera Bruno.

Rio Tejo na praia fluvial do Alamal. Créditos: mediotejo.net

Ou seja, por 17,50 euros por pessoa, com o acompanhamento dos bombeiros, os turistas (até ao máximo de 30) saem ao final do dia da praia fluvial do Alamal, hora que permite observar o pôr do sol, e navegar até à praia fluvial de Ortiga, no concelho vizinho de Mação. Naquele local é servido um repasto com especialidades gastronómicas da região e depois feito o percurso inverso, na envolvência da noite caída, impondo aos participantes o uso de colete de salvação e, pelo menos a um deles, a colocação de uma lanterna na cabeça. Um passeio com a duração aproximada de três horas. Ambicionam, em 2021, descer o rio Tejo desde a Barca da Amieira até ao Alamal.

Os três não esperaram por dias melhores para apostar no turismo mas Bruno Marques confessa que, se financeiramente dependessem da empresa, estaria encerrada. Paralelamente, cada um dos três mantém outras atividades profissionais. “Se dependêssemos só da empresa, neste momento, estávamos fechados. Já nem abríamos! Mas sendo uma empresa da qual não dependemos financeiramente conseguimos manter o serviço”, refere. Assim, até criam postos de trabalho: no verão contam com uma colaboradora no serviço de aluguer de caiaques. Firmaram ainda um protocolo com o Agrupamento de Escolas de Gavião, que conta com cursos profissionais de turismo, e este ano irão ter também um estagiário.

Cais flutuante da Praia Fluvial do Alamal, Gavião. Créditos: CMG

Não obstante a covid-19, Bruno, Sara e Francisco manifestam-se “otimistas” com a aposta principalmente pela localização da empresa, com um stand na praia fluvial do Alamal. “Com as condições que temos é possível proporcionar às pessoas que nos visitam o melhor, em qualidade e segurança”, refere Bruno, fazendo notar que “a empresa não é exclusiva do Gavião e pode deslocar-se a vários sítios, na realização de multiatividades. 

No futuro, a empresa gostaria de oferecer um leque ainda maior de atividades, incluindo o arborismo ou o slide. Dentro do concelho de Gavião existem espaços apropriados, como a Ribeira da Venda, e há a possibilidade do slide na praia fluvial de Ortiga, uma infraestrutura que é da responsabilidade da Câmara de Mação.

Gavião terá também brevemente um centro de BTT, algo de que a equipa da Gavi Adventure também quer fazer parte. “É uma mais valia ter um Centro desses e poder explorar os circuitos. Queremos também criar, principalmente no inverno, um percurso de canyon. Condições para isso existem, mas é preciso explorar e trabalhar”, acrescenta Bruno.

A parte má chama-se poluição. “Temos condições mas se depois existem fatores externos que não podemos controlar e que podem prejudicar a atividade… é uma preocupação”, desabafa Bruno, que também aponta a instabilidade dos caudais do rio Tejo como uma barreira ao desenvolvimento das apostas turísticas. “O que vemos é que os caudais não são constantes e dependem sempre das gestão que existe nas barragens do Fratel e de Belver.” 

Apesar de tudo, as expectativas para o verão de 2021 são elevadas. Até porque podem arrancar com as atividades logo no início da época balnear e no município abriram mais duas unidades hoteleiras.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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