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“Galito”, por Armando Fernandes

Galito, ou mais conhecido como garnizé, ainda não possui estatuto de galo e, por ser jovem, tem menos canto capaz de entusiasmar as frangas. As galinhas não os levam a sério – ao invés, as cozinheiras dedicam-lhe afeição, preparando-os assados, panados, ou grelhados, sendo muito (eram, nos tempos de outrora) úteis para enriquecerem as merendas e as refeições nos dias de romarias, festas e fainas campestres, ou quando surgiam visitas inesperadas nas casas de cada um.

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Sendo jovens, o seu peso rodava o meio quilo ou mais cem gramas. Os galitos, ao contrário das frangas, estavam destinados a viverem pouco tempo: as donas de casa guardavam aqueles que eram destinados a galar, os restantes acabavam cozinhados depois de temperados fortemente (sumo de limão, malagueta, pimenta e o recente piripiri), porque como muitos de nós sabemos, a sua carne não possui o gosto das fêmeas e dos galos quando cozinhados no pote.

Os galitos fazem parte do nosso sistema alimentar desde sempre, o seu esganiçar e prosápia de quem ainda não é mas quer parecer, serviram (servem?) de modelo e inspiração a artistas, poetas e escritores, para lá de humoristas de vários quilates.

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Elemento animal da nossa paisagem rural, carrega nas suas asas a representação de figuras de profissões e ofícios da sociedade portuguesa de antanho que concebiam arrebatamentos e purgavam desgostos quando o ânimo juvenil sucumbia à experiência. Encontramos inúmeros exemplos na obra de Gil Vicente, de que o “Fidalgo Aprendiz” é paradigma.

Pois, bem sei, no auge das plataformas e dos conteúdos digitais aproveitar-me do galito do campo não será muito bonito, porém o chamamento aos clássicos é a prova provada de os jornais serem veículos de cultura e, imaginar um galito no pote em ensopado de pão de trigo, como então se dizia. Deixo a sugestão: ler belos escritos e comer em consonância. Que lhes aproveite!

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Armando Fernandes
Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris. Escreve no mediotejo.net aos domingos

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