“Futebol e violência”, por Nuno Pedro

Gennaro De Tommaso ('Genny 'a carogna') durante la finale di Coppa Italia tra Fiorentina e Napoli allo stadio Olimpico di Roma, 4 maggio 2014. ANSA/ETTORE FERRARI

Por muitas campanhas e acções de sensibilização que os organismos competentes promovam, o futebol mundial continua a ser palco privilegiado para comportamentos censuráveis daqueles que se dizem adeptos mas que não passam de um conjunto de facínoras, protagonistas de tudo quanto há muito já deveria estar erradicado, não só dos estádios de futebol mas da sociedade em geral. Tude se resume a uma palavra: criminosos. Porque cometem crimes, seja perpetrando actos de violência como também e que vulgarmente vão acontecendo, sendo autores de atitudes xenófobas e racistas.

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O jogo disputado na última terça-feira, a contar para a Liga dos Campeões, entre o Legia Varsóvia e o Real Madrid, realizado à porta fechada, é a antítese do que deve ser um jogo de futebol e todo o clima de festa de que deve estar rodeado. Um mau exemplo, como tantos outros que poderíamos enumerar, inclusivamente em Portugal e que resultou da sanção aplicada ao clube polaco na sequência dos incidentes registados na jornada inaugural da competição, aquando da recepção ao Borussia Dortmund, de índole racista e de uso de material pirotécnico.

E é aqui que reside o cerne da questão. Fazendo uso do velho provérbio “Paga o justo pelo pecador”, a realidade é só uma e de fácil tradução. Por culpa de alguns energúmenos, muitos outros são aqueles, os verdadeiros e genuínos adeptos, que ficam privados de desfrutar do espectáculo, da emoção, de ver um jogo de futebol ao vivo. Em bom rigor, acabam por ser estes os verdadeiros sentenciados e não os prevaricadores.

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Os tais a quem deveria estar vedado o acesso aos estádios de futebol quando os seus clubes jogassem, para não dizer mesmo que o melhor remédio era “armazená-los”, nem que fosse temporariamente, num estabelecimento prisional tipo Alcatraz. Ganhava o futebol, mas sobretudo o “meio ambiente”. O facto de continuarem a ser os clubes os alvos indiscriminados deste tipo de castigos aplicados pelas instâncias disciplinares e judiciais do futebol, assumindo solidariamente a responsabilidade dos “crimes” praticados pelos seus ditos adeptos, levanta-nos a questão da sua aplicabilidade, para não falar mesmo em legitimidade.

Até que ponto poderá ser um clube responsabilizado, exclusivamente, por exemplo, quando um qualquer indivíduo consegue fazer entrar num estádio um qualquer engenho pirotécnico que, accionado, poderá colocar em causa a segurança e mesmo a integridade física daqueles que o maior delito cometido foi assistir apaixonadamente a uma partida de futebol? Parece-nos estar a balança da justiça um pouco desequilibrada. E dou este exemplo porque a cada jornada disputada este é o tipo de episódio que cada vez ganha mais expressão. Direi mesmo a imagem de marca daqueles grupos de adeptos, cujo enquadramento legal ainda está a anos luz do exigível.

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Todos quantos acompanhamos o futebol, estamos recordados da tragédia vivida no Estádio Heysel Park, na Bélgica, em 1985, na final da então denominada Taça dos Campeões Europeus, agora Liga dos Campeões, que opôs o Liverpool à Juventus. Nesse dia negro para o futebol mundial morreram 38 adeptos, para além de se terem registado várias centenas de feridos. Contudo, daí extraiu-se algo de positivo. Foi início de uma cruzada levada a cabo pelas autoridades do Reino Unido contra o holiganismo e todos os fenómenos a ele associados, nomeadamente intramuros. Fruto do sacrifício de vidas humanas.

O paradigma do mundo em que vivemos reflecte-se de muitas formas.

O futebol é apenas mais um veículo dessa exteriorização, da frustração, da revolta interior de cada um, cujo objectivo é apenas mostrar que está vivo ou que apenas sobrevive. A violência no futebol nada tem a ver com o simples pontapé na bola num rectângulo verde. Resulta de tudo menos disso. Por muitos que existam mas que não o queiram admitir. O futebol é apenas o denominador comum, o palco mediático, onde a violência se vai eternizando. Trata-se de um combate de raças, de crenças, de… Lamentavelmente.

 

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