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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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“Fustas e galeotas no Médio Tejo”, por Fernando Freire

“Em 1415 era magnificente o quadro que oferecia o Tejo. Em frente do Restelo fundeada em extensa linha, adornada de estandartes e de pendões vistosos, balanceava ao ondular das vagas a esquadra de el-rei. Já perto outra frota numerosa, ricamente adornada de toldos e bandeiras vinha largar âncora. Era a frota do Porto onde tremulavam as insígnias do Infante D. Henrique, e guarnecida de basta soldadesca e de remeiros vinha incorporar-se à armada que D. João alistara para a guerra cujo objetivo ainda não era conhecido. Ao som dos tambores e charamelas (instrumento de sopro medieval) respondiam as gritas dos tripulantes saudando a terra e a esquadra. Nas popas das galés (embarcação de vela e remos) e da fustalha (embarcações a remos), reluzentes nas cotas de ferro e nos capacetes emplumados, poder-se-ia reconhecer de terra alguns dos capitães e fidalgos mais ilustres (…) o prior de Crato Gonçalves Camelo, o mestre de Cristo (…). Nunca tão formosa esquadra nacional em tom de guerra se reunira no Tejo, (…) homens de armas, galeotes e remeiros, se tinham apresentado para seguir el-rei por mar em busca de belicosas aventuras (…). Em 25 de julho largou a frota (…).”1

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Inicio do ano de 1415. Desconhecendo o que andava a cogitar e a planear o Rei D. João I, o rei D. Fernando de Aragão, como soberano bem-avisado e rival do reino de Portugal envia para Lisboa, Ruy Dias de Vega, embaixador-espião, com a delicada missão de saber o que andavam a preparar os portugueses.  Sabemo-lo através da correspondência entre ambos, nomeadamente:

Carta de 3 abril de 1415 – D. Fernando, rei de Aragão, escreve ao embaixador-espião Ruy Dias de Vega, a ordenar-lhe que informe sobre quantos pilotos leva consigo, na armada, o rei de Portugal, qual a sua naturalidade e linguagem, quais vitualhas (mantimentos e víveres) e mercadorias transporta e ainda sobre todas as demais circunstâncias.

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Carta de 23 de abril de 1415 – Relato do espião escrito em Lisboa, a dar ao rei a minuciosa notícia, entre outras coisas, dos preparativos da armada que então se organizava em Portugal, dos navios de que se compunha, com indicação da respetiva origem, tonelagem, tripulação e soldo, dos boatos que corriam no país a propósito do seu destino, nomeadamente contra o reino da Sicília, e a oferecer-se para obter a retirada imediata dos barcos do seu soberano e para lançar fogo a todos os restantes fundeados no Tejo, se o monarca lhe der autorização.

18 de maio de 1415 –  D. Fernando acusa a receção da carta do espião e ordena que escreva tudo por largo (discriminado).

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28 julho de 1415 – O espião comunica a morte da rainha de Portugal (D. Filipa de Lencastre) e os acontecimentos supervenientes, mormente a partida da frota para o norte de África.

Para a presente crónica interessa-nos sobremaneira a missiva escrita em Lisboa a 23 de abril de 1415.

 

Ruy Dias de Vega para além de dar conta do tamanho da frota portuguesa, da sua composição, do número de efetivos, do soldo, dos boatos que corriam a propósito do seu destino, e da elaboração de engenhos de ataque e de proteção, de várias peças de artilharia neurobalística, duas delas já prontas, provavelmente trabucos e trabuquetes, para além de uma grande quantidade de escadas faz uma referência ao nosso território (3.º parágrafo), concretamente ao rio Zêzere, “que é cerca de Punhete (Constância)” onde se encontravam em fase de acabamento “sendas galeotas de sessenta remos cada uma”, mandadas fazer pelo prior e mestres das ordens militares, com exceção da de Santiago.2   

Das várias cartas acima e dos relatos do espião aragonês, mormente a introdução das armas de fogo na hoste régia, podemos vislumbrar Portugal a trabalhar para o mesmo fim, a conquista do norte de África: D. Henrique, no Porto a aprontar as galés e as fustas que estarão no Restelo para a partida; o Prior e os Mestres que mandando fazer galeotas de 60 remos no vale do Zêzere; Nuno Álvares e outros nas suas terras a fabricar biscoutos e a preparar as carnes de vaca e carneiro. Em síntese, no primeiro semestre de 1415, toda a logística de guerra estava a ultimar para a incursão ao continente africano.

Que tipo de embarcações foram construídas no Zêzere, e no cais do Cafuz, as quais partiram do Restelo, em Lisboa, para Ceuta no dia 25 de julho desse mesmo ano? Eis a questão!   

Importa lembrar que o limite do julgado de Paio de Pele, atual Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, à data pertencia à comenda da Quinta da Cardiga.

Tal perímetro territorial vem descrito nos Tombos da Ordem de Cristo, comendas do Médio Tejo, um levantamento exaustivo e executado entre 1504-1510, o que nos dá uma visão global do então do território onde hoje vivemos e como ele era à época dos Descobrimentos.  

 

“O limite e julgado de Paio de Pele que à dita Comenda da Cardiga pertence, começa primeiramente pelo pé do monte onde está o castelo do Zêzere, e se mete o dito rio no Tejo, e vai-se pelo meio do Zêzere e pelo dito rio de Tomar (Nabão) acima (…)” Do título de Paio de Pele.4

Analisando toda a descrição do tombo, a história da comenda da Cardiga e de Almourol, o património então presente e a economia do julgado de Paio de Pele não vislumbramos qualquer referência a florestas de onde se retiraria a madeira fundamental para a construção naval. Também é inexistente a referencia de cais para embarcações. Há de facto alusão aos caneiros do Zêzere e à barca de passagem (vide fls. 139 v.º e 140) uma vez que destes bens proveria receita para a coroa.

Mas não estranhamos a omissão da existência de sólidos cais de embarque ou construção de embarcações pois sabemos quanto sigiloso, porque estratégico, era o tema para a época. Quem estivesse mais avançado no conhecimento e possuísse o segredo das novas técnicas náuticas tinha grande probabilidade de ir, parafraseando Luís Vaz de Camões, além da Taprobana!

A inexistência de floresta significativa, bastante e suficiente para a construção náutica também se encontra omissa neste tombo.  

Eis a segunda questão. De onde viria toda a madeira para este empreendimento?

Dizia eu que o espião do reino de Aragão conta na missiva ao rei de Aragão que os portugueses estavam a construir “sendas galeotas de sessenta remos cada”.

Vejamos quais as embarcações que existiam à data do relato.

A fusta. Tem origem no mar mediterrâneo e é muito referenciada nos relatórios medievos. Este nome era utilizado para as embarcações de características diferentes, de tamanho pequeno, como os bergantins (embarcação de um a dois mastros e velas redondas ou latinas) ou grandes como galés (embarcação comprida e pouco elevada de velas e remos). No século XV, o nome fusta valia para um navio de remos colocado logo abaixo da galeota. A fusta encontra-se aludida em escritos portugueses desde 1397, ou seja, 18 anos antes do relato do espião. Navio muito popular entre os portugueses e principalmente entre os piratas e corsários era utilizado para a guerra naval. Segundo Gomes Eanes de Zurara seria uma embarcação longa e aplanada, de velame latino e remos, bandada, com um ou dois mastros, sendo ornada com florões. Tinha várias dimensões e possuía, segundo se julga, até 26 bancos e vários remos. Existiam fustas quase tão grandes como galés e outras tão pequenas que se assemelhavam a bergantins. Os degredados eram presenteados para servir nestas embarcações.

No Diário de Noticias de 27/8/1960, num artigo de Jorge Martins Barata, artista de belas artes, e Eng. Pacheco de Almada, sob o título: Os navios do infante, podemos ler que “(…) As naus dos séc. XIV e XV não são muito frequentemente representadas fora do meio especialista. Por isso, no receio de que os barcos feitos agora pareçam um pouco insólitos a algumas pessoas, pedem-me os organizadores da reconstituição uma breve justificação dos mesmos. Como seriam as naus e as galés da frota de Ceuta (1415)? O problema é sedutor, mas difícil (…)”

Em resumo, naquele artigo os autores procuraram reconstituir as embarcações e chegaram aos esboços apresentados acima.  

Outrossim, a “Tavoada da Agvada do Xeqve”, ilustração executada entre os anos 1538-1539, mostra-nos as imagens dos navios portugueses da época.

 

Na tábua figuram as principais embarcações em que se baseou o poder naval português nos descobrimentos: a nau, o galeão, a caravela redonda, a galé, os bergantins e as fustas.

Importa relembrar que, em 1415, estamos no início do processo de expansão marítima. Recordo que a guerra ao infiel no norte de África era vigorosamente patrocinada pela Santa Sé.  

A praça de Ceuta é conquistada por D. João I em 21 de agosto de 1415. Só mais tarde, no ano de 1458 D. Afonso V, conquista Alcácer-Ceguer.

Certo é que em 1409 é comendador da Cardiga Frei Gonçalo Dias e em 1416 é Frei Gonçalo Velho, navegador. Nesta data há uma nova expedição às Canárias e além deste arquipélago, missão ordenada pelo Infante D. Henrique.

No corpo torreado da direita, parede da capela da fachada principal da Quinta da Cardiga para que aquele navegador não fique esquecido, foi colocada uma lápide com a seguinte inscrição: “FREI CONCALO VELHO / COMMENDADOR DA / CARDIGA NA ORDEM DE / IESVS CRHRISTO ABRIV O CAMINHO / MARITIMO DA INDIA EM 1416 / CHEGANDO A TERRA ALTA E O / DAS AMERICAS EM.1431.1432./ DESCOBRINDO OS AÇORES/+PARA PERPETVA MEMORIA DE/TÃO ECRECIO VARÃO SE COLOCOV/ESTA LAPIDE A PEDIDO DO INSTITVTO / HISTORICO DO MINHO CELEBRANDO / O . V . CENTENARIO DO PRIMEIRO / DESCOBRIMENTO PORTVGUEZ / + MCCCCXVI + MDCCCCXVI +”

Importa recordar que do local do cais de construção das galeotas, no Cafuz, Praia do Ribatejo, margem direita do rio, ao Convento de Cristo, sede e escola náutica da Ordem de Cristo, distam 15 km de distância.

Grande parte do estudo e da meditação do Infante D. Henrique e dos seus colaboradores, teria sido feito no Convento de Cristo, que esteve sobre a sua administração de 1420 a 1460.

Do relato do espião retiramos que as embarcações em construção no Zêzere teriam 60 remos cada uma.  Mas que tipo de embarcação estavam os portugueses a fazer no Zêzere?

No meu modesto entendimento seriam galeotas muito similares à fusta.

Incorporariam velas (uma ou duas) e possuíam 60 remos, conforme esboço abaixo.

 

Embora as galés do fresco, figura supra, sejam birremes (2 remos), as dos planos de Veneza sejam trirremes (3 remos), fórmula, aliás, tão antiga como aquela, e as da expedição de Ceuta pudessem ter sido de um só remo para vários remadores, vê-se que a evolução da galé, em dois séculos, foi muito pequena, não acompanhando, nem de longe, a que sofreu o navio à vela que evolui de sobremaneira.5

 

Mas de onde viria madeira necessária e bastante para a construção naval desta frota?

O transporte fluvial de pessoas e madeiras fazia-se pelo curso do rio. A construção de embarcações exigia madeira de boa qualidade e em abundância. Os nossos antepassados foram-na buscar às regiões montanhosas a montante e próprias para a cultura florestal. A terrenos e localidades próximas das massas de água, pelo Nabão e pelo Zêzere, e pelos afluentes, entre outras, a ribeira de Alge (Lousã e Figueiró dos Vinhos): a ribeira de Pera (Lousã, Castanheira de Pera e Pedrogão Grande) e a ribeira Grande (Sertã e Oleiros).

Os troncos de lenha seriam agrupados em grupos por espécie arbórea ao longo de margens dos afluentes para facilitar a sua colocação na água. Amarrados uns aos outros eram conduzidos, por mão humana, até ao cais de destino e trazidos pela correnteza. Posteriormente, eram retirados da água, classificados por tamanho e espécie e dispostos em pilhas para uso dos carpinteiros mais tarde serrações.  

A título meramente exemplificativo, direi que na minha terra natal, Oleiros, a postura municipal de 20 de abril de 1685 impunha uma multa de 2$000 rs a quem cortasse carvalho, azinho verde, verga de castanho ou de carvalho, nos coutos das vinhas ou na serra da Lontreira. Além deste testemunho há várias povoações com nomes de árvores de floresta: Azinheira, Vale da Sobreira, Ameixoeira, Vale de Souto, etc, a que tais árvores deram o nome de lugar. Três freguesia há com nomes ligados a árvores: Sobral (topónimo de mata de sobreiros), Madeirã (terra de madeiras) e Amieira (terra de amieiros). Acontece que todas estas três freguesias deste concelho são banhadas pelo rio Zêzere. Não é por acaso…

Para fabricar as embarcações era utilizado o sobreiro pela sua dureza e resistência à humidade. Para além do sobreiro era utilizada a azinheira, o carvalho, o abeto e o pinheiro.

A construção de embarcações teve o seu apogeu nos séculos XV e XVI. Para a história os descobrimentos iniciam-se em 1415, aquando da conquista de Ceuta por D. João I.  Nesse célebre ano de 1415 a azáfama no Médio Tejo estava ao rubro. Certo que num lugar escondido do rio Zêzere acontecia inusitada atividade ecoando por todo o vale sons dos malhos na madeira e sussurros dos carpinteiros e dos marítimos …

George Orwell dizia “a história é escrita pelos vencedores”. Por ironia do destino, aqui a base da narrativa foi escrita por um espião cabendo ao cronista tão só fazer a investigação.   

BIBLIOGRAFIA

1 OLIVEIRA, João Braz. Influencia do Infante D. Henrique no progresso da marinha portuguesa: navios e armamentos. Club Militar Naval, 1894

2 RODRIGUES, Victor Luís Gaspar. A coabitação das armas de propulsão neurobalística e das armas de fogo na primeira fase do processo expansionista português em Marrocos (1415-1458), Revista de la AIHM (siglos IV-XVI), 2017

3 DIAS, José Alves Dias. Paio de Pele: A vila e a região do século XII ao XVI, Junta Distrital de Santarém e Câmara Municipal de V. N. da Barquinha, 1989

4 GONÇALVES, Iria. Tombos da Ordem de Cristo : Comendas do médio Tejo (1504-1510). Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2005

5 Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. XXIII, fascículo 3-4, 1960

 

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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