Quinta-feira, Fevereiro 25, 2021
- Publicidade -

“Funil”, por Armando Fernandes

O leitor ao ler esta crónica pode pensar em desvario do autor porque «toda» a gente sabe o que significa e para que serve um funil. Talvez. As generalizações são perversas, por isso vários e desvairados políticos, civis, militares e religiosos impuseram a lei do funil.

- Publicidade -

Tal como os chapéus, funis há muitos, estanhados, esmaltados, de aço e alumínios inoxidáveis, de zinco, de plástico, com torneira ou vareta de modo a ser regularizado o escoamento dos líquidos, minúsculos e gigantes, os primeiros empregues no preparo de confeitos, bolos, e rebuçados, os segundos na trasfega de vinhos que nalgumas regiões recebiam o nome de embude (não confundir com embude isco vegetal para apanhar peixes gulosos), sim para simbolizar a denominada lei do funil, para lá da utilidade vinícola criar tremendas irritações nos dias de Entrudo na categoria de instrumento essencial para a serração das velhas.

Por lei do funil entende-se a centenária prática política de para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os restantes cumpre-se a lei bem mitigada.

- Publicidade -

Nas caricaturas antigas mostra-se um funil no qual na parte larga está a camarilha amiga bem nutrida, na parte estreita raros indivíduos famélicos de ventres sumidos. Nos rituais de passagem, de renovação e regeneração, a serração das velhas caracterizava-se (caracteriza-se) pela crítica impiedosa às mulheres e raparigas cujas práticas de toda a natureza são sopradas pelo embude que amplia e distorce a voz do narrador.

Muitos leitores sabem muito bem os efeitos da serração das velhas nas comunidades onde se praticavam. Sabem e têm saudades!

PS. A maioria dos funis são côncavos, os ovais destinam-se a vazar a aguardente.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).