“Francisco Coelho – o homem mais odiado da Sertã”, por Sartagografia

O seu nome foi esquecido quase como uma maldição que se pretende apagar da memória. Mas os seus actos tresloucados chegariam para encher um livro de crónicas policiais, à boa maneira dos romancistas ingleses.

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Mas passemos às apresentações: Francisco Coelho nasceu no lugar do Vale da Junqueira, na freguesia do Nesperal, pelos anos de 1893. Nada se sabe da sua infância, nem tampouco da juventude, apenas que partiu para Lisboa com 18 anos, onde se entregou ao crime e à vadiagem. Praticou vários delitos menores, sobretudo furtos, e esteve detido algumas vezes.

Parece ter regressado ao concelho da Sertã em 1916, tendo-se enamorado da filha de uma taberneira do lugar da Portela da Oliveira, na freguesia de Cernache do Bonjardim. A moça era bastante cobiçada, contando-se entre os pretendentes o comerciante Manuel Rodrigues, natural das Besteiras (concelho de Ferreira do Zêzere).

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No final da tarde de 24 de Dezembro de 1916, a coisa deu para o torto na taberna da Portela da Oliveira. Francisco Coelho que já andava desconfiado das investidas de Manuel Rodrigues pediu-lhe explicações e a conversa azedou: Coelho puxou de um revólver e desferiu um tiro à queima-roupa, que se revelaria fatal.

A polícia foi chamada mas o assassino escapou, segundo se crê com a ajuda da mãe e filha, proprietárias da taberna. O administrador do Concelho da Sertã, António Augusto Rodrigues, dirigiu-se ao local e reuniu diversos indícios. Ordenou que o cadáver fosse transportado para a sede do município e as duas mulheres detidas para averiguações.

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Francisco Coelho estava em local incerto. A caça ao homem durou vários dias, até que em meados do mês de Janeiro de 1917, chegava a notícia da sua detenção. Uma brigada da Guarda Nacional Republicana da vila alentejana de Arronches detivera um homem com um revólver, para o qual não tinha licença. Conduzido a Elvas, um dos guardas que o escoltavam, o soldado de Cavalaria, n.º 22, João Emídio de Almeida, notou certa agitação no preso e interrogou-o, vindo a descobrir ser ele o autor do então conhecido por «Crime da Portela da Oliveira».

Enviado para a cadeia da Sertã – onde ficou a aguardar julgamento – encontrou na sua cela, João Farinha, natural de Proença-a-Nova e condenado a prisão por ter ateado diversos incêndios. Os dois rapidamente travaram amizade e gizaram um plano de fuga. A ideia inicial era abrir um buraco no tecto, pelo qual escapariam em direcção à rua.

O plano teve que ser abortado devido à falta de materiais mas rapidamente os dois criminosos perceberam que se ateassem fogo ao tecto da cela, o mesmo cairia, abrindo caminho para a fuga. O único problema era arranjar o petróleo para atear o incêndio? Não foi difícil! A prisão estava situada no piso térreo dos Paços do Concelho e os presos comunicavam através das grades com os transeuntes. Aliás, era hábito que os populares lhes entregassem vinho, tabaco e outros ‘presentes’.

Albina de Jesus, natural do Outeiro da Lagoa, que se apaixonara por João Farinha, aquando da sua estada naquela prisão por ter envenenado a mãe e uma irmã, era visita frequente. O preso convenceu-a a arranjar petróleo e na madrugada do dia 4 de Fevereiro de 1917, o tecto da cela foi untado com tal composto.

O que ambos não calcularam foi a força das chamas, que rapidamente se propagaram ao resto do edifício dos Paços do Concelho, reduzindo a escombros o maior símbolo do municipalismo sertaginense.

Ao alarme de fogo, dado pelos outros presos, respondeu uma população apavorada pelo espectáculo que ali se assistia. Sem qualquer hipótese de travar as chamas, conseguiram, ainda assim, impedir a fuga dos dois presos, que não fosse a rápida intervenção da polícia teriam sido linchados no local.

Francisco Coelho e João Farinha foram depois conduzidos para fora da vila. Uma multidão seguiu-os bem de perto, lançando impropérios e tentando fazer justiça pelas próprias mãos. Nada conseguiram! Transportados para Lisboa, foram ambos presentes ao juiz, que lhes deu voz de prisão.

Nunca mais se soube nada de Francisco Coelho.

 

 

Mais informações em: http://www.sartagografia.pt/index.php/percursos-de-vida/galeria-de-criminosos/218-francisco-coelho-o-homem-mais-odiado-da-serta

 

 

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