- Publicidade -

“Filhos de Ninguém – parte 2”, por Vânia Grácio

Voltamos ao tema da semana passada que tanto abalou as diferentes classes profissionais que trabalham na área da proteção da criança. Permitam-me antes disso que me sinta lisonjeada por ver uma representante do Instituto da Segurança Social (ISS) a defender o sistema, que foi formada na mesma instituição de ensino que eu. Modéstia à parte, e não sendo isso o mais importante, é para mim um orgulho ver que as bases estão lá e que quem defende o sistema, sabe do que fala. Ver duas Assistentes Sociais em defesa dos colegas e do próprio sistema num programa de televisão, é quase um facto inédito.

- Publicidade -

Lisonjeios à parte vamos focar-nos na vergonha que foi mais um programa do Sexta às 9 ou às 11, da televisão paga por todos nós e que mais não fez do que tentar “derrubar” o sistema que neste país protege as crianças. Como já referi anteriormente, bons e maus profissionais existem em todo o lado, mas não podemos deixar nunca que a exceção venha generalizar o bom trabalho que se faz nesta área.

O que assistimos neste programa foi uma “cabala” montada pela jornalista e pelos advogados de defesa das famílias visadas na reportagem, contra quem representa o sistema. Mais, vimos um grupo de advogados das famílias, quando se falava em alguns casos de adoção. Ora, a jornalista esqueceu-se de esclarecer o público, que em sede de debate judicial (necessário quando está em causa uma adoção), as crianças também têm um advogado, que defende os seus interesses e não os interesses da família ou dos “técnicos”.

- Publicidade -

Não os ouvimos, nem foi dito que foi tentado um contacto. Possivelmente porque não interessava. Além disso, quando julgávamos que o debate não podia baixar mais de nível, ao vermos retirarem do contexto palavras da Presidente da Associação de Profissionais de Serviço Social (que fossem ao encontro da mensagem que a reportagem queria transmitir), quando as partes que defendem o sistema, são atacadas e interrompidas na sua defesa e os “atacantes” são ouvidos sem interrupções e até reforçados nos seus comentários, vem um dos advogados acusar o Presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCC) de ser presidente também de uma instituição que intervém nesta área, mas que para além de receber apoios do Estado, recebe de empresas privadas com processos em Tribunal, criando a suspeita de uma relação menos clara e transparente. Isto confirma o objetivo do programa.

Durante todo o debate e reportagem, sublinham-se as falhas de alguns profissionais, sem explicar ao público o funcionamento do sistema de promoção e proteção. Chega-se ao ponto de chamar “Comissões de Proteção de Menores” a instituições que se chamam “Comissões de Proteção de Crianças e Jovens” desde 1999. O rigor da informação jornalística chega aqui.

Os advogados e a jornalista focam-se em questões descontextualizadas, factos isolados que não espelham a realidade (provavelmente), não explicando sequer o que pretendem dizer. Por exemplo, um dos advogados diz que um relatório referia que a família não tinha condições para ter as crianças. Não tem condições? Isso quer dizer o quê? A mim, não me diz nada. São condições materiais, instrumentais do dia-a-dia, são afetivas, emocionais? São o quê? Foi bem contra-argumentado pelos representantes do ISS e da CNPDPCC que 90% dos casos acompanhados pelas comissões e 70% dos casos acompanhados pela Segurança Social são apoiadas as famílias a garantirem todas as condições para as suas crianças. Quer através de apoio social, educativo, psicológico ou mesmo económico. O interesse do programa foi tão só encontrar um culpado para as tragédias ocorridas e para os casos de “insucesso”. Insucesso é quando não conseguimos que uma criança tenha direito a uma família e a todos os cuidados que merece, seja na família biológica ou numa adotiva.

Senhora jornalista e senhores advogados, apesar de apenas estarem representados os Assistentes Sociais, muitos mais profissionais trabalham nesta área, psicólogos, educadores, entre outros, que não estiveram representados. Seja como for não conseguiram retirar-me a confiança no sistema. Canalizem essas energias para prover o sistema dos meios necessários para melhorarmos todos os dias, para evitarmos falhas. Não existe um sistema perfeito, existe um sistema feito por pessoas, para pessoas.

Espero efetivamente que o dinheiro gasto na proteção das crianças, mas também no sistema público de informação, seja aproveitado para promover uma responsabilização de todos. Sem acusações falsas, ou juízos de valor. Todos somos responsáveis pelo que fazemos hoje e pelo futuro que construímos. Pelo menos que o façamos conscientes de todos os factos, sem subjetividades e sem casos isolados que são generalizados.

 

 

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).