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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“Fialho de Almeida”, por Armando Fernandes

Nasceu em Vila de Frades, Vidigueira, no ano de 1857. Jornalista de mérito, folhetinista virulento, contista ternurento, o autor de Os Gatos, também se dedicou a estudar a cozinha tradicional portuguesas, a praticar nas locandas existentes nos arrabaldes lisboetas, nas tascas e restaurantes por onde passava, mas fundamentalmente na capital do reino.

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Nutro por este autor enorme estima, a sua obra completa concede-me gratos momentos de prazer, a descrição das pessoas, dos costumes, das usanças e modos de apreciar produtos e comidas obrigam-me a reler os seus textos consagrados à nona arte – a gastronomia – que Albino Forjaz de Sampaio crismou Volúpia, inserindo nessa obra as opiniões de Fialho relativamente às artes culinárias e à gastronomia. Na dita obra podemos ler a reflexão de Fialho sobre o que é um «prato nacional» e analisar a célebre receita de perdizes ao seu modo.

Existe, pelo menos, um receituário consagrado ao autor de Lisboa Galante e Barbear e Pentear, no meu entender os interessados ganham se lerem os seus livros. A prosa torrencial, o manejo industrioso e faceto das palavras, a argúcia no desmantelamento dos muros caiados repletos de porosidades facultam-nos bravos momentos de hilaridade, inebriamento ao verificarmos a sua audácia no castigar públicas virtudes, vícios privados, descritos elegantemente, não caindo na vulgaridade, muito menos na boçalidade.

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O fialho gourmet/cozinheiro encanta estilisticamente levando-nos ao desejo de experimentarmos, no tocante às perdizes assim procedi, os prelúdios produziram choques, o primeiro porque as perdizes dependuradas em local fresco principiaram a dar conta de si originando franzir de narizes, depois os trâmites dos trabalhos culinários sujaram, mancharam, desviaram, tachos, panelas, utensílios, louças e vidros a eito suscitando resmungos, até remoques.

No final, da caçarola brotaram suculentos eflúvios, colocada sobre a mesa, trazido o vinho aberto meia hora antes, colocado o guardanapo em volta do pescoço, iniciei demorada apreciação do cozinhado. Ofereci a quem de direito, não aceitou, limitou-se a provar, o ter visto as perdizes decomporem-se ainda revestidas de penas levou à renúncia. Alegre e meticulosamente foram saboreadas, tinham vindo do restolho, no decorrer de três refeições porque o meu amigo Higgs Madeira é generoso, daí a oferta de cinco aves.

Se «reportagem» referente ao enterro do rei Dom Luís é considerada grave monumento literário dada a cortante enumeração da prosápia ridícula dos cortesãos, contundentemente aprecia a sociedade nos finais do século XIX. Por exemplo em a Cidade do Vício revela-nos ângulos episódios sórdidos de uma elite a decompor-se e incapaz de resistir à mudança anunciada cuja matricialidade entroncava na tríade – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – a irradiar desde a implantação em 1789, da Revolução Francesa.

O alentejano vindo muito moço para Lisboa, tendo estudado num Colégio cuja prática pedagógica assentava nos maus tratos físicos e psicológicos, trabalhou durante anos numa farmácia, acabando por se licenciar em medicina, nunca exercendo a profissão de médico.

Na idade madura abandonou a condição de solteiro casando com senhora detentora de avultados bens, Fialho passou a residir em Vila de Frades. Passado pouco tempo após o casamento ficou viúvo, longe do frenesim da capital, atacado pela doença morre aos 54 anos.

Um notável escritor injustamente esquecido. É o fatum…

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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