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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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“Festejar o 25 de Abril”, por Armando Fernandes

O leitor dirá: os tempos não vão bons para festejar. É verdade, os tempos, e não estou a referir-me à meteorologia, de qualquer forma, os leitores deste jornal de idade inferior a cinquenta e cinco anos façam o favor de pensarem na vulgar Coca-Cola.

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É, a denominada água suja do capitalismo nos idos tempos da contestação, sim, a Coca adocicada, a fazer piquinhos no palato, dada a bom casamento com rum, daí a mistura ganhar o epíteto Cuba livre tão do desagrado dos seguidores dos barbudos, se a queríamos tomar tínhamos de ir a Espanha. Ir a Espanha exigia passaporte, cumprimento de horários, revistas aos caramelos trazidos de Badajoz, contagem das pesetas, olhares desafiadores dos membros da PIDE/DGS polícia política postada nas fronteiras e em tudo quanto cheirasse a contestação ao regime ditatorial.

Os maduros cinquentões e as quarentonas agora não balzaquianas não fazem o quotidiano sem pizza, hambúrgueres, pasta, sushi, cachorros em forma de salsichas, raviólis, shots, cerveja à grande e à fartazana, frangos de churrasco ao portador em horário alargado; pois bem por alturas da eclosão do movimento que nos restituiu a liberdade (25 de Abril de 1974) não existia nada disso. Só para alguns e a maioria dos produtos acima referidos apenas se podiam apreciar no estrangeiro.

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Os rapazes naquele tempo tinham direito a serviço militar obrigatório (ainda devia existir, resmungo eu).

A maior parte desses rapazes malhava com os ossos nas florestas e matas africanas matando e morrendo não sabendo bem qual a razão, subsistia o dever de defender a Pátria e, Portugal prolongava-se até Timor anunciava a propaganda do regime, enquanto as Mães invocavam os santos da sua preferência a fim de protegerem os filhos combatentes.

Foi em Angola, Guiné e Moçambique que se habituaram a grelhar frangos a untá-los empregando uma mistura chamada gindungo ou piripiri, a beberem uísque, a fumarem cigarros dotados de filtro. Milhares e milhares dos forçados combatentes comeram bananas pela primeira vez, o mesmo sucedendo relativamente aos abacaxis, mangas, papaias, hoje tão comuns nos hipermercados de recente criação. Os meninos e as meninas não se lembram de tais carências. Ainda bem.

Vou festejar a efeméride. Ao meu modo. Recordar os mortos imerecedores de morrerem naquelas circunstâncias, alguns camaradas de guerra, reflectir. Uma certeza tenho eu: o 25 de Abril abriu-nos as portas da  liberdade, sem tal gesto vindo da parte dos «capitães de Abril» a finitude da ditadura teria sido bem mais dolorosa, quiçá sangrenta contemplando funcionalidades justiceiras pelas próprias mãos.

Os avós das crianças deviam explicar o 25 de Abril aos netos, dizer-lhe a verdade, fazerem o contraste ante o antes e o depois. A maioria não o faz, faz muito mal!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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