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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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Ferreira do Zêzere | Vidas que a barragem de Castelo do Bode obrigou a mudar há mais de 70 anos

Casal da Barca, Aderneira, Castanheira, Foz da Ribeira, Cunqueiro, Foz do Codes, Hortas, Foz da Ribeira das Trutas e Foz da Isna. São alguns nomes de aldeias que jazem no fundo da albufeira de Castelo de Bode. Há mais de 70 anos, com a construção da barragem de Castelo do Bode, centenas de moradores foram obrigados a abandonar as suas casas e propriedades.

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A subida inexorável das águas foi engolindo centímetro a centímetro, metro a metro, hortas, azenhas, casas, pontes, açudes e até um lagar e uma escola. Aquilo que era o rio Zêzere ficou transformado num lago com cerca de 60 quilómetros de extensão e 120 metros de profundidade junto à barragem.

Números que forçaram vidas à mudança. Ainda há moradores nas margens da agora albufeira de Castelo do Bode que viveram e se recordam desses tempos difíceis e atribulados. O projeto “Registar”, da Fundação Maria Dias Ferreira, de Ferreira do Zêzere, tem vindo a recolher alguns desses depoimentos.

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A barragem de Castelo do Bode foi inaugurada a 21 de janeiro de 1951, na presença de Oliveira Salazar, chefe do governo, e do Presidente da República Marechal Carmona. Mas para as populações que moravam nas margens férteis do rio Zêzere, a história começa cerca de cinco anos antes quando começaram as obras da barragem.

A família de Maria de Lurdes nascida na Junqueira, antiga freguesia de Dornes, tinha uma azenha à beira do rio. Mais de 70 anos depois diz que ainda gostava de recuperar as mós que ficaram debaixo de água. Da estrutura da azenha já pouco resta, o edifício desmoronou.

Palmira Ferreira da Silva nasceu na Bairrada há mais de 80 anos. Lembra-se ainda muito bem da subida das águas porque foi o seu pai que acompanhou os engenheiros da “Hidráulica” no processo de identificação dos proprietários dos terrenos.

As indemnizações dadas pelo Estado eram muito baixas conforme consta nos depoimentos recolhidos.

Uma das azenhas que ficou debaixo de água. Foto: DR

“Abalámos e as aldeias ficaram lá no fundo”

“As pessoas estavam muito tristes, ninguém queria vender”, relata Palmira. É que, para além da indemnização ser baixa, as melhores hortas e pomares ficavam localizadas à beira do rio e naturalmente ficaram submersas, isto numa altura em que as populações viviam basicamente da agricultura de subsistência. Era daquelas margens férteis à beira do rio que tiravam o seu sustento. “Havia muitos terrenos amanhados”, recorda-se.

Foi em 1946 que se começou a falar da barragem e da subida das águas do rio. Diz Palmira que “muitas pessoas não acreditavam que a água subisse”. Mas a água subiu muito rapidamente devido às fortes chuvadas.

“Em 1950 o rio já tinha passado para cima da ribeira do Codes, depois, no verão já estava cá no cimo, encheu tudo”, recorda-se com emoção. Durante o processo de enchimento lembra-se que um dia foi passear de barco com amigas e chegou a navegar junto à copa de árvores de fruto, chegando a apanhar nêsperas.

Se para quem era de fora a subida das águas era um motivo de atração, os moradores estavam tristes e choravam. Palmira fala até num caso de suicídio.

Ainda houve quem arrancasse oliveiras e outras árvores de fruto que eram arrastadas pelas encostas para serem transplantadas, mas os terrenos eram muito inclinados e pouco férteis, facto que levou a que muitos optassem por ir morar para outras paragens.

Nas memórias de José Nunes, 88 anos, de Dornes, estão dois lagares, uma ponte romana e outra de metal que faziam a ligação ao concelho da Sertã. Em anos de seca extrema, quando o nível das águas desce acentuadamente, ainda são visíveis algumas dessas estruturas.

“Abalámos para este lado e as aldeias ficaram lá no fundo”, conta Antónia da Conceição Dias, 88 anos, nascida na aldeia de Hortas, no concelho de Vila de Rei.

Lembra-se bem quando começaram a falar da barragem e da subida das águas. Ao seu pai os engenheiros da Hidráulica ofereceram 50 contos pela sua casa e terrenos. “Era poucachito” para uma família com 10 filhos. O seu pai era teimoso e não aceitou a proposta até ao limite, porque havia sempre a esperança de que oferecessem mais dinheiro. Por isso, foi daqueles casos em que a família só abandonou a casa quando a água estava a chegar ao degrau da porta.

Ilda Cristóvão (ilustração) e Armando Cotrim (texto) são os autores do livro. Foto: DR

“A terra que o Zêzere escondeu”

O drama vivido por esta gente que vivia nas zonas ribeirinhas do rio Zêzere levou a Fundação Maria Dias Ferreira a editar um livro infantil intitulado “A terra que o Zêzere escondeu”, obra da autoria de Armando Cotrim ilustrado por Ilda Cristóvão.

EM declarações ao mediotejo.net, o autor explica que a ideia para a realização do livro, surgiu em primeiro lugar pela sua profissão uma vez que trabalha há 22 anos com os livros e com a mediação para a leitura na Biblioteca de Ferreira do Zêzere. Mais recentemente tem colaborado com a Fundação Maria Dias Ferreira em vários projetos de recolha de memórias ferreirenses. Ao longo dos anos cruzaram-se algumas conversas sobre o impacto da construção da Barragem de Castelo do Bode nas gentes da terra e tudo isso contribuiu para que propusesse a ideia, depois de amadurecida, à Fundação.

Um dos projetos da Fundação é a coleção “Lendas e narrativas de Ferreira do Zêzere”. Desde 2015 tem convidado vários escritores e ilustradores que recontam histórias de Ferreira do Zêzere. Para Armando Cotrim o drama vivido pelas populações ribeirinhas merecia ser contada neste formato. A proposta foi aceite pela Fundação e pela Câmara e começou a trabalhar a história, ao mesmo tempo que iniciou a pesquisa documental e trabalho de campo junto das populações ribeirinhas. Convidou para a ilustração do livro a artista Ilda Pêgas Cristóvão, uma ferreirense natural da Bairrada.

Capa do livro. Foto: DR

Para escrever o livro, o autor entrevistou várias pessoas que viveram, quando crianças e jovens, esta experiência marcante nas suas vidas. Palmira Silva, José Nunes, Dina Cotrim e Antónia Dias, são já testemunhos raros do impacto que a construção da Barragem teve na vida das aldeias ribeirinhas, em centenas de famílias, fez agora 70 anos.

“Foram muitas histórias emocionantes contadas na primeira pessoa por quem viveu este drama nesta terra que o Zêzere escondeu e ter que deixar para trás não só os seus haveres, mas toda uma vida cheia de sentimento, relações, hábitos e reconstruir uma vida nova”, explica Armando Cotrim. Dá o exemplo da D. Dina, de Dornes, que contou como a sua família perdeu tudo, a casa, a azenha e os terrenos de cultivo.

Dos relatos que foi recolhendo, surgem histórias de muitas famílias e amigos separados pela albufeira. Conforme escreve no livro, uns construíram casas mais acima, mas a maioria teve de procurar terreno e recomeçar a vida noutras freguesias e até noutros concelhos. As crianças tiveram de mudar de escola e muitos perderam o contacto com os seus amigos e vizinhos.

“Há muitas histórias interessantes da vida nessas aldeias. As casas cheias de filhos e os sacrifícios para os criar, os trabalhos e utensílios agrícolas, a ligação ao rio, o peixe em abundância, o precioso meio de transporte barco de três tábuas, etc”, realça o autor.

Para escrever o livro, a sua principal preocupação foi construir uma história simples, baseada em acontecimentos reais de muitas famílias que viveram neste vale do Zêzere. 70 anos depois foi necessário enquadrar conceitos explicando às crianças como viveram os seus avós.

O trabalho árduo de Sol a Sol nos pinhais ou na resina, a caracterização da floresta, os meios de transporte, a agricultura rudimentar, a confeção dos alimentos ao lume, as casas sem energia elétrica, as arcas salgadeiras para conservar os alimentos, a beleza, pureza e tranquilidade das nossas terras, a alegria dos longos percursos até à Escola Primária, as brincadeiras e jogos desses tempos e até as dolorosas reguadas da Professora.

Por isso, defende Armando Cotrim, “este livro pode ser abordado nas disciplinas de história, geografia ou português a vários níveis de ensino”.

Obras de construção da Barragem de Castelo de Bode. A barragem foi inaugurada há 70 anos. Foto: DR

“Uma história de muitas histórias, de vidas, de memórias”

Ilda Cristóvão, a ilustradora, apesar de ter nascido em França tem uma grande ligação ao rio e às tradições. A sua origem e raízes familiares são da Bairrada, uma aldeia à beira rio onde vive e cresceu durante a sua infância.

Para ilustrar o livro diz que a sua principal inspiração foi a memória da avó e dos seus relatos preciosos e a lembrança da sua casa com os objetos antigos. Além disso, a sua mãe “foi o mais valioso contributo para confirmar os detalhes das imagens e ajudou com as descrições daqueles tempos, dos modos das pessoas, dos objetos e costumes tradicionais”.

Ilda fez várias pesquisas de imagens e de fotos antigas ou desenhos de Alfredo Keil, nos livros; “Trajes tradicionais do concelho de Ferreira do Zêzere ” e ” Tojos e Rosmaninhos”, livros da escola primária antigos, na Internet e até através de imagens partilhadas no Facebook de grupos ligados à região. Ao mesmo tempo, fez um registo ao vivo da vegetação local, perto do rio e nas serras.

Já com experiência na ilustração de livros, Ilda considera “A terra que o Zêzere escondeu”, um livro “extraordinário pelo momento histórico que aborda e para que fique a memória”.  “É um livro muito emotivo também porque cada um pode identificar se. É uma história de muitas histórias, de vidas, de memórias, daquilo que era, do que não volta, do que será depois”, conclui.

A recetividade ao livro “tem sido muito boa”, refere Armando Cotrim. Devido à pandemia não foi possível para já fazer uma apresentação pública ao livro junto ao rio como era intenção, mas os autores já tiveram oportunidade de apresentar o livro a todas as turmas do 1º e 2º ciclos do concelho. “Foi muito bom sentir o interesse e a curiosidade das nossas crianças”, realça. Assim que for possível pretende-se apresentar o livro nas escolas dos concelhos vizinhos e até nos lares de idosos.

O livro já esgotou em alguns locais, neste momento está apenas disponível para venda (8 euros) no Posto de Turismo de Ferreira do Zêzere.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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