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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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Ferreira do Zêzere | Tradições populares do concelho reunidas num livro de quase 400 páginas

Durante dois anos, uma equipa da Fundação Maria Dias Ferreira andou pelo concelho de Ferreira do Zêzere a fazer um levantamento o mais completo possível das tradições populares, um património imaterial em risco de se perder. O resultado foi um livro de 378 páginas lançado no dia 20 de novembro, na sede da Fundação, na Cerejeira.

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Responsos, esconjuros, rezas e benzeduras, mezinhas, trava-línguas, lenga-lengas, cantilenas, provérbios e superstições são alguns dos conteúdos que constituem a primeira parte do livro “Tradições populares do Concelho de Ferreira do Zêzere”, numa compilação feita em texto e imagem, mas que também foi registada em vídeo, imagens que podem ser vistas no site da Fundação.

Para essa recolha foi necessário que a equipa contactasse sobretudo as pessoas mais idosas, que ainda têm na memória tradições comunitárias como as descamisadas, o entrudo, as pulhas, a serração da velha ou os maios, relatados neste livro ao pormenor com recurso a depoimentos de habitantes das aldeias e a alguma bibliografia existente.

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As festas e romarias, das mais antigas às mais recentes, como as marchas de Santo António, merecem também referência e foram alvo de um levantamento exaustivo.

São tradições populares que representam “um importante capital na vida de uma região”, e uma “herança cultural” determinante para a “compreensão da nossa história”, como referiu o Presidente da Fundação durante a sessão de apresentação do livro.

José Afonso de Sousa começou por passar em revista os livros editados anteriormente e que fazem parte da coleção “Etnografia, tradições e saberes do concelho de Ferreira do Zêzere”.

ÁUDIO | José Afonso de Sousa 

Em 2015 foi lançado o livro “Trajes tradicionais do concelho de Ferreira do Zêzere – final do século XIX e início do século XX”, com base sobretudo nos ranchos folclóricos da região e que contou com a colaboração de José Joaquim Marques, da Federação Portuguesa de Folclore.

Da mesma temática, o folclore, foi publicado em 2016 o livro “Danças e Cantares tradicionais do concelho de Ferreira do Zêzere”, que registou mais de 30 danças da região.

Em 2017 a obra “Artes e Ofícios tradicionais do concelho de Ferreira do Zêzere” deu a conhecer mais de três dezenas de profissões, algumas das quais com origem há séculos, umas já desaparecidas outras em vias de extinção.

Em 2019, o livro “Saberes e Sabores do concelho de Ferreira do Zêzere” reuniu o resultado do levantamento do património gastronómico do concelho.

Surge agora o livro sobre tradições populares, que encerra a coleção “Etnografia, Tradições e Saberes do Concelho de Ferreira do Zêzere”, cinco livros publicados pela Fundação Maria Dias Ferreira em parceria com a Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere.

Cátia Salgueiro e Rute Tavares, autoras da obra. Foto: mediotejo.net

“O mais trabalhoso de todos os livros”

Conforme referiu o Presidente da Fundação, este foi “o mais trabalhoso de todos”. Para a sua produção estiveram envolvidas mais de 100 pessoas e demorou mais de dois anos a ficar concluída, devido também à pandemia.

O livro “Tradições populares do Concelho de Ferreira do Zêzere” dá a conhecer “a estória da linguagem tradicional, as crenças e medicina populares, as expressões de sabedoria popular, as tradições comunitárias, bem como as feiras, as festas e as romarias das gentes ferreirenses”, como escreveu José Joaquim Marques no prefácio.

Na introdução, acrescenta-se que o livro se baseou na missão de resgatar algumas características desse passado do povo. O objetivo passava por “recolher, salvaguardar e divulgar um conjunto de expressões da tradição oral e do património imaterial que enformam a alma do povo deste concelho e reforçam a sua individualidade. E atribuir a este géneros e subgéneros da tradição literária oral e popular a notoriedade e importância que merecem”.

Bruno Gomes. Presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere. Foto: mediotejo.net

Parceria com a Câmara é para continuar e aprofundar

Bruno Gomes, Presidente da Câmara recém-eleito, usou também da palavra na sessão de apresentação do livro. Depois dos agradecimentos aos dirigentes e colaboradores da fundação, a quem elogiou “pelo trabalho magnífico que ao longo destes anos têm feito” e que representa “uma mais valia para o concelho”, na opinião do autarca.

O novo Presidente da Câmara defendeu que a parceria entre o Município e a Fundação “tem tudo para continuar e deve ser reforçada e tornar-se mais próxima”.

Quanto ao livro sobre as tradições populares, considerou que traduz uma “cultura identitária extremamente importante” para Ferreira do Zêzere. “Se nós não tivéssemos esta Fundação, com certeza já teríamos perdido muito. Acredito que não é agora que daremos ao devido valor a estes livros, mas daqui a 100 ou 200 anos todas estas obras terão um valor ainda maior”, concluiu Bruno Gomes.

Apresentação decorreu nas instalações da Fundação Maria Dias Ferreira. Foto: mediotejo.net

“Uma viagem de descoberta bastante emocionante”

Para Cátia Salgueiro, uma das investigadoras e autoras do livro, “o tema das tradições populares do concelho de Ferreira do Zêzere foi uma grande surpresa – mas uma surpresa das boas – e veio a revelar-se uma viagem de descoberta bastante emocionante”.

O livro começou por ser uma sugestão de José Joaquim Marques como uma forma de completar e encerrar o ciclo de temas etnográficos que se iniciara em 2015 com o primeiro livro da coleção, de que ele foi autor juntamente com a sua mulher, Rosária Marques.

Conforme explicou Cátia Salgueiro, a ideia inicial “visava essencialmente juntar o património oral, ou seja, aquele que é transmitido entre gerações por via da oralidade, e que contempla desde as rezas e orações às lengalengas, adivinhas, provérbios, trava-línguas”.

O ponto de partida foi um conjunto de recolhas feitas pelos três ranchos folclóricos e ainda um núcleo de informações cedido pelos professores, que havia sido recolhido por eles no concelho na década de 70 do séc. XX, quando aqui lecionavam. Depois disto, a equipa conseguiu também fazer as suas próprias recolhas de informação junto de vários ferreirenses, identificados como “informantes”.

ÁUDIO | Cátia Salgueiro

Com o material recolhido elaboraram-se os dois primeiros capítulos do livro dedicados às crenças e à medicina populares e às expressões da oralidade.

No entanto, à medida que a equipa se deslocava no terreno contactando as pessoas para recolher as informações, foi-se percebendo que muito mais poderia caber no livro. E, assim, decidiu-se alargar o objeto de estudo às tradições comunitárias, ou seja, aquelas tradições que envolviam na sua realização toda a comunidade ou uma boa parte dela, e principalmente aquelas que se encontram em risco de extinção ou as que desapareceram e só existem na memória de algumas pessoas que as vivenciaram. Este viria a ser o assunto para o 3º capítulo do livro.

Mas o tema das tradições populares do concelho não se esgotava por aqui. Havia ainda as feiras, festas e romarias. Estas festividades, desde as mais recentes até às mais antigas, a cuja informação foi possível à equipa aceder, acabaram por ficar condensadas no 4º e último capítulo.

Cátia Salgueiro destaca o entusiasmo dos informantes, o seu gosto em recordar e manter vivas as tradições. “Porque todas elas fizeram, noutros tempos, parte da sua vida quotidiana, faziam parte da vida de todas as pessoas dentro da comunidade e ajudavam a uni-las, a manter a comunidade coesa, eram como que uma força motriz e até uma fonte de alegria para todos”, realça.

Por isso, como refere a investigadora, o livro faz, “não só uma descrição formal das tradições do povo ferreirense, mas também um registo da sua memória coletiva afetiva”.

O livro está à venda (20 euros) em algumas livrarias de Tomar e Ferreira do Zêzere, bem como no Posto de Turismo em Ferreira do Zêzere ou através do site da Fundação em www.fundacaomariadiasferreira.org

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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