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Ferreira do Zêzere | Professor investiga as capacidades físicas por vezes surpreendentes dos deficientes

Estudar as capacidades físicas de utentes com deficiência intelectual institucionalizados no CRIFZ – Centro de Reabilitação e Integração de Ferreira do Zêzere foi o desafio a que António Costa Marques, professor de educação física, se propôs para elaborar a sua tese de mestrado.

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Aproveitando o facto de trabalhar na instituição, o autor do estudo definiu uma amostra com utentes agrupados em diferentes escalões de peso, dos “normais” aos muito obesos.

A principal conclusão parece óbvia: à medida que o excesso de peso vai aumentando, os resultados dos exercícios são piores, mas, e este é que é o aspeto mais interessante, é que em alguns testes, os utentes mais pesados obtiveram melhores resultados do que os mais magros. O investigador reconhece que muitas vezes os utentes surpreendem pelas capacidades que revelam.

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Numa altura em que António Costa Marques se prepara para uma segunda fase do estudo, que consiste em avaliar as implicações da pandemia no peso e na capacidade física dos utentes, o jornal mediotejo.net entrevistou-o.

– Como surgiu a ideia desta investigação?

Estava no 2º ano do mestrado em Atividade Física na Faculdade de Desporto da Universidade de Coimbra, tinha de desenvolver uma dissertação e surgiu essa hipótese de fazer um estudo com os utentes do CRIFZ, instituição onde trabalho. Sempre gostei de trabalhar mais com populações especiais e diversificadas.

Defini um tema que consiste em analisar e avaliar as capacidades físicas e a flexibilidade de um grupo de utentes do CRIFZ, nomeadamente através de testes de flexões, de abdominais, de corrida, etc. Claro que tivemos de adaptar de acordo com a população que estamos a trabalhar, mas o tipo de exercícios são exatamente iguais aos de uma escola normal.

António Marques, professor de educação física, foi o autor da investigação. Foto: mediotejo.net

E que tipo de exercício se trata?

São testes de flexibilidade, de força, de resistência e de capacidade aeróbica, muito parecidos com os do ensino normal, mas aqui adaptados a população em estudo. O objetivo era avaliar essa capacidade e depois fazer uma comparação. Neste caso usei como fatores o índice de massa corporal (relação altura/peso) e o sexo. Dividi os utentes em quatro grupos distintos: peso normal, excesso de peso, obesidade 1 e obesidade 2, a mais severa. A partir daí foi fazer os testes.

Quanto tempo durou o estudo?

A elaboração dos testes demorou várias semanas até porque eu não trabalhava todos os dias e, além disso, os alunos cansavam-se, naturalmente. Tivemos de ir fazendo progressivamente até atingirmos os resultados pretendidos.

Qual foi a “amostra”?

Trabalhei com 22 utentes, nove do género feminino, 13 do género masculino e com idades entre os 18 e os 65 anos.

A que conclusões é que chegou?

Algumas conclusões parecem óbvia. À medida que o excesso de peso vai aumentando, os resultados são piores, exceto em alguns testes.

Por exemplo…

Por exemplo, no teste isométrico das flexões, ou seja, manter-se na posição de flexão parado e eu contava os segundos, o grupo com obesidade 1 teve melhores resultado dos que os do peso normal.

Há uma limitação no índice de massa corporal é que não distingue a massa gorda do musculo e isso por vezes provoca desvios nos resultados. Mas não deixa de ser um resultado interessante, o grupo de obesidade 1, com muito excesso de peso, ter melhores resultados num teste do que os do peso normal.

Outros dos exercícios onde isso se verificou foi no “trunk lift” (elevação do tronco). É um teste de flexibilidade em que houve também um melhor resultado do grupo dos com excesso de peso perante o grupo do peso normal.

Falou no critério do índice de massa corporal que pode provocar desvios nos resultados. Quer explicar melhor?

Há casos em que os utentes que têm mais massa gorda também têm mais musculo e conseguem melhores resultados do que os do peso normal.

Detetou alguma especificidade por se tratar de uma população especial?

É certo que alguns exercícios são adaptados com pequenas alterações, mas o facto de os utentes com quem trabalho serem portadores de deficiências nem sempre significa que tenham menos capacidades físicas. Muitas vezes até nos surpreendem por outras capacidades que revelam. Claro que há casos em que alguns são sedentários, outra são medicados e isso vai afetar a performance física.

Como é que os alunos reagiram ao desafio?

Reagiram muito bem porque qualquer coisa que é novidade eles adoram. A maior parte deles senão todos reagiram muito bem.

Qual foi o resultado da sua tese?

O resultado final da tese foi positivo. Eu próprio senti-me realizado, foi gratificante. Agradeço à minha coordenadora em Coimbra, Maria João Campos.

E como é que surge a possibilidade de apresentação do trabalho num simpósio nos Estados Unidos?

Foi a minha coordenadora que propôs no ano passado esse artigo para o simpósio realizado anualmente nos Estados Unidos, o 22º simpósio de atividade física ASAp e propôs esse artigo para ser apresentado lá. Foi aceite e apresentado.

Há possibilidade de publicação desse trabalho?

Sim, eu e a minha coordenadora estamos a organizar o artigo para publicar numa revista científica, estamos ainda em fase de aprofundamento da discussão e conclusão.

Tenciona aprofundar a investigação ou desenvolver outros trabalhos na área?

Já estou a trabalhar num estudo igual, com a mesma amostra, para depois comparar os resultados, antes da Covid-19 e pós-Covid-19. Prevejo que haja diferenças significativas até porque houve certamente aumento de peso porque os utentes deixaram de fazer tanta atividade física. Para já estou a fazer esta análise comparativa apenas por curiosidade, apesar de estarmos numa fase inicial, interrompida pelas contingências da pandemia. Mas talvez lá para meados deste ano 2021 haja resultados.

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José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.
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