Ferreira do Zêzere | Em Dornes ainda se luta pela recuperação da sede de freguesia

Neste mês de outubro recorda-se um ano sob a morte de José Joaquim Alves, o líder do movimento “VivaDornes” que desde 2013 foi empreendendo um conjunto de esforços para que a sede de freguesia regressasse à aldeia e retomasse o nome próprio. Com o desaparecimento do mentor da causa, o pequeno grupo de moradores que o acompanhava ficou sem liderança e teme agora o desaparecimento da luta. Num momento em que Dornes se tornou o cartão de visita de Ferreira do Zêzere, a aldeia histórica de 23 habitantes vê perder, porém, e lentamente, a sua voz e elementos significativos da sua identidade.

O processo de reorganização administrativa já iria bastante avançado quando a população se apercebeu que iam juntar as freguesias de Dornes e Paio Mendes sob o nome de União de Freguesias de Nossa Senhora do Pranto. A junta ficaria sediada na Frazoeira.

A voz da revolta popular fez-se ouvir então por José Joaquim Alves, um dirigente associativo local. Numa declaração de protesto entregue na mesa eleitoral no dia das eleições autárquicas de 2013, a que o mediotejo.net teve acesso, apontou as “ilegalidades” no processo, uma vez que não decorrera qualquer consulta pública sobre a questão. Dornes, recordou, foi sede de concelho (1513 – 1836) e é a marca turística do concelho.

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O texto apontava culpas ao PSD, que chefiava o concelho e que, segundo José Joaquim Alves, teria assim encontrado uma forma de reconduzir o presidente de Dornes, que estava no limite dos mandatos. Outro crítica deixada na época foi a da atribuição de um nome religioso a uma freguesia, por si uma instituição laica. “É um recuo cultural no tempo de mais de 400 anos”, afirmou. “Quem despreza o passado não tem futuro”, notou.

José Joaquim Alves nunca obteve resposta dos seus empreendimentos e pedidos de explicações. Já a população só se juntou efetivamente à sua causa em 2015, quando o movimento “VivaDornes” se formou e levou a cabo um abaixo-assinado para recuperar a sede da junta de freguesia. O texto conseguiu reunir 140 assinaturas.

José Joaquim Alves foi a voz solitária que lutou pela freguesia de Dornes Foto: D.R.

“As pessoas assinavam sem ler”, recorda Jorge Silva, que acompanhou o esforço, realizado dias antes das eleições legislativas daquele ano. Mas houve também, adianta Dina Cotrim, quem não assinasse por medo de represálias.

No dia do ato eleitoral, o grupo tentou entregar o abaixo-assinado na mesa de voto. Segundo Jorge Silva e Dina Cotrim, o presidente da mesa não aceitou o documento e entendeu haver argumentos para chamar a GNR. O grupo chegou a prestar declarações, mas o caso foi arquivado. Jorge Silva garante que não causaram qualquer alarido, mas lembra que os acusaram de estar a perturbar o ato eleitoral ao querer entregar o abaixo-assinado.

Em 2018 voltaram a tentar recuperar a sede de freguesia, enviando uma carta ao Presidente da República, Primeiro Ministro e aos grupos parlamentares da Assembleia da República. No texto, é lembrado que Dornes tem “pergaminhos, históricos e não só, donde relevam o ter sido Comenda da Ordem dos Templários e de Cristo, sede do Município até ao século XIX, e é a Sede de uma Santuário Mariano.

O mesmo texto refere que se a freguesia tivesse assumido o nome de “União de Freguesias de Dornes e Paio Mendes”, talvez a indignação da população não se manifestasse. Mas é considerado “ofensivo” os nomes das terras terem sido substituídas por um orago. “Há que não esquecer o princípio constitucional de separação entre a Igreja do Estado”, refere.

O grupo nunca recebeu resposta de todas as suas tentativas de fazer ouvir a sua indignação. O tema também não chegou aos meios de comunicação social, restringindo-se à pequena comunidade de Dornes e, em grande medida, afirmam os amigos, à luta solitária de José Joaquim Alves. A 22 de outubro de 2019, este bancário nascido em Angola e estabelecido em Dornes, dirigente associativo bastante ativo no universo cultural da aldeia, faleceu aos 71 anos e ficou um vazio na luta.

Para quem ficou e acompanhou todo o esforço inglório pela manutenção da sede de freguesia, fica a frustração com a classe política. “Podiam pelo menos ter-nos instruído, mesmo que não ajudassem”, constata Dina Cotrim. “Havia e há muito revolta”, recorda. Por altura do abaixo-assinado “as pessoas estavam convictas que íamos conseguir algo, mas nunca quisemos politizar em excesso, não queríamos aproveitamento”.

A frustração tem crescido em particular devido ao último verão. Encontrando-se a dar apoio à loja do Santuário de Nossa Senhora do Pranto, Jorge Silva e Dina Cotrim aperceberam-se de um movimento acima da média e que dificilmente se tornará a registar. “É um pico que, penso, nunca mais se irá ultrapassar”, comenta Jorge Silva.

Dornes “já é visitado há muitos anos, muito antes das 7 Maravilhas e da pandemia”, acrescenta Dulce Godinho, hoteleira local, focando o turismo religioso ligado a Nossa Senhora do Pranto e aos círius e o interesse que começou a despertar a região entre a comunidade holandesa. Um outro núcleo de visitas, admite o grupo, é o facto de Dornes ser associado a um triângulo místico, juntamente com Fátima e Tomar, cujos crentes surgem frequentemente na aldeia e fazem inclusive perguntas na loja do santuário.

“Já havia turismo em Dornes, nas margens do Zêzere, há mais de 100 anos”, frisa Dulce Godinho.

No dia do aniversário da morte de José Joaquim Alves vai haver uma missa pela sua alma. Os amigos recordam a sua inteligência e cultura e todo o empenho que colocou na causa de Dornes. Ninguém quer deixar a causa morrer e querem finalmente ter voz mais ativa. Dornes é, afinal, um dos símbolos dos Templários e a localidade que mais atração traz ao concelho.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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