Terça-feira, Dezembro 7, 2021

“Fenómeno – de costas voltadas com a realidade”, por Carlos Alves

A emoção é muito mais imediata e próxima, mais espontânea e natural, mais rápida e exequível do que a análise, o silogismo ou a meditação. Nesta hora, a derrota e o desespero turbaram o raciocínio e deram rédea solta às paixões. Para qualquer ser humano, os arrebatamentos emocionais são fulminantes e quase gratuitos. O que é verdade, sim, é que tendemos a sobrevalorizar a vontade e o coração, em prejuízo da razão e da serenidade.

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Ando completamente confuso com os tempos que atravessamos e o estado em que a nossa vida social se tem afundado. Não teria ousado pôr em letra de forma as minhas reflexões sobre a crise de ideologias, se não fosse o que tenho assistido de modo brusco e reiterado, com a pertinaz cegueira de uns aprimorados compatriotas que me têm motivado a ressuscitar panaceias anacrónicas. São eles o estímulo que me levam a alvorecer o pensamento que me leva a compreender as vicissitudes da política.

Estou realmente a uma distância astronómica de qualquer um deles. Para descrever em traços simples um fenómeno tão vasto e tão atual como o agonizar das ideologias e de algumas pessoas que se presenteiam com irracionalidades e tombos de malabarista, vale a pena tirar conclusões polémicas evitando muletas do argumento de autoridade.

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Trata-se de um monopólio que ameaça ruir. O marginal e acessório toma existência e sentido pelo seu enraizamento no que é substantivo e sólido: a ideologia que é factor de tensão social, ameaça decair, tal não é a conjuntura de apatia política e de lassidão que vivemos.

Eu disse, ao princípio, ao que vinha. Todos nós temos ideias, embora algumas sejam uma espécie de ideias, uma vez que sem ideias não é possível pensar e agir racionalmente. O que devemos determinar é que as ideias não são para ermitas, mas sim para cidadãos. Porque uma ideologia, ou um conjunto de ideias não serve para consumo das minorias, mas das grandes massas. Uma ideologia nasce para uso dos estratos mais modestos do género humano.

A ideologia falha quando é popularizada por uma casta, ou um grupo de pessoas. Quando se fala de políticos e não de políticas, quando não se discutem os programas eleitorais, quando se fala do futuro deles em vez de falar do futuro de todos, quando não existe distinção entre autarquia e partido. Nestes pressupostos é mais difícil ao Homem, que é uma animal que pensa, ter de improvisar soluções conceptuais. Por falta de tempo, ou por falta de entendimento, ou de forças para saber, limita-se a opinar sobre a sua existência. É neste contexto que as opiniões se manifestam como saídas de emergência, recursos improvisados, compromissos entre a vontade e o intelecto, que se substituem ao verdadeiro conhecer.

Duas coisas que formo na minha consciência: alguma soberba inata e uma angustiosa adesão de quem necessita de uma arma que julga decisiva, aquela que lhe vem à mão.

Quando as opiniões são compartilhadas por pequenos números e não se referem a interesses comuns, e passam a ser uma operação individual que se coletiviza, adquire uma especial virulência. Um partido fechado sobre uma casta que trata dos seus interesses, das suas ambições, do seu lugar político. Estas atuações que são movidas por interesses criam tensões sociais que levam à decadência: menos militantes, menos fervorosos acompanhantes.

Pois bem, a predominância da forma, quando levada ao extremo de tornar quase indecifrável o conteúdo, deixa de ser arte para o povo. Não quer dizer que o povo não aceite requintes formais, construções caprichosas. Aceita e muito, mas é preciso que a ideia salte aos olhos, que seja apreensível à primeira análise e que o esforço da atenção não seja complexo e complicado no conceito e na estrutura.

O povo tem quase sempre razão.

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

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