FEL: O músico pousou a guitarra e está a trabalhar nas obras, na Áustria

O músico Humberto Felício chegou esta semana à Áustria, onde começou a trabalhar na construção civil. "Esta fotografia foi tirada pelo Ibrahim, o sírio que trabalha comigo. Comunicamos por gestos e com o olhar, triste olhar mas francamente generoso, pois não temos outra alternativa de linguagem para comunicar. Bom homem, divide o café comigo e oferece-me água fresca, deve ter mais ou menos a minha idade e deve ser pai também." Nota irónica do músico, sobre a marca da pá que é agora o seu instrumento de trabalho: "Austria Star"

O músico Humberto Felício (FEL) é um dos ‘Novos Talentos’ de 2016 selecionados a nível nacional pela Fnac e um dos 10 Comissários das Comemorações do Centenário da Cidade de Abrantes. Tem um percurso criativo de excelência, marcado por vários projetos musicais, e lembra, com orgulho, um concerto dos Kaviar em que teve os Xutos e Pontapés na primeira fila. A Rádio Nacional de Espanha dedica-lhe uma hora de antena, já amanhã, 16 de setembro. Mas este mês o músico cancelou espetáculos e pôs-se a milhas. Foi trabalhar para as obras, na Áustria. A sustentabilidade familiar, nomeadamente do seu filho, falou mais alto. O mediotejo.net falou com Humberto Felício a partir da cidade de Insbruck.

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MT – O que o levou a tomar esta decisão de procurar trabalho numa área tão diferente e como surgiu a Áustria?

FEL – Foi a minha última opção. O meu pai está aqui estabelecido, trabalha por conta própria, disse-me que há muito trabalho nesta altura do ano e que me ajudava a recuperar a minha estabilidade. Cá estou. Andava desde o início do ano passado a tentar também estabelecer-me por conta própria em Abrantes, fiz a criação do próprio emprego no IEFP e, em simultâneo, uma parceria com um empresário que tinha todas as características para ser um bom parceiro mas que se revelou, lamentavelmente, o contrário. Não cumpriu com o que acordámos. Na esperança de ver dias melhores fui dando tempo ao tempo… e todo esse tempo de espera foi-me arruinando lentamente. Não só a mim mas também à minha família. Infelizmente não foi só isto, foram uma série de acontecimentos maioritariamente negativos.

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Humberto Felício (FEL) Foto: DR
Humberto Felício (FEL) Foto: Paulo Jorge de Sousa

MT – Que acontecimentos?

Sinceramente, acho que tudo começou com o fim dos Kaviar. Era aquilo que me fazia acordar cheio de energia e alegria. Torrei rios de horas (e de dinheiro) durante anos a fio e quando a banda acabou eu acho que também acabei por uns tempos. Fiz um percurso em paralelo desde os meus 19/20 anos, fui vendedor, depois consegui entrar na indústria farmacêutica e fui delegado de informação médica até aos meus trinta e tal anos, onde obtive, na maioria das experiências, sempre excelentes resultados. Não era fácil mas conseguia conciliar os Kaviar com esse emprego. Os concertos eram quase sempre ao fim-de-semana. Não me esqueço que tinha de manter em segredo a vida artística. Em 2010, quando fizemos a primeira parte dos Xutos nos Mourões, num domingo, último dia das festas de Abrantes, passadas poucas horas lá estava o Humberto todo engravatado numa sala em Lisboa a levar uma esfrega de análise de vendas. Não cabia de contente no meu lugar, parecia ter sonhado a noite inteira mas, não podia partilhar com ninguém naquela sala a minha euforia por termos acabado a noite com o Kalu e o Zé Pedro a bater palmas no final do nosso concerto, ali na aba do palco. Nessa noite o Kalu convidou-nos para irmos tocar ao HardClub no Porto e o Zé Pedro repetiu dias depois no seu programa na Radar aquilo que nos disse ali nos Mourões: estava impressionado com os Kaviar.

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Vivi assim até conseguir. A banda começou a “ganhar cabelo”, começámos a ficar mais conhecidos e em menos de nada o meu chefe já sabia de tudo. Pouco tempo depois despedi-me. Não só por estar farto de me esconder como artista mas por motivos que tinham mais a ver com a prepotência e a falta de sanidade daquela gente. Nessa altura tentei criar uma produtora em Abrantes mas fui ameaçado e empatado por quem já tem o lobby montado. Comecei a procurar emprego para não me chatear com ninguém, “prefiro ser artista”, pensei eu.

Achei que devia contar que era artista mas a chefe de área, provavelmente a pessoa mais vil que já conheci na vida, ameaçou-me imediatamente, dizendo que não me queria nessas andanças e que se tivesse conhecimento de tal coisa eu iria para o olho da rua. Para garantir o emprego disse-lhe que não se preocupasse porque a banda já tinha “fechado a loja”… e era mais ou menos verdade.

Numa manhã de sábado estava eu com a minha mulher e o meu filho numa esplanada da praça Barão da Batalha e uma rapariga que conhecia de vista veio desafiar-me a enviar o currículo para uma empresa que vende aparelhos auditivos, porque estavam a procurar alguém para a zona de Abrantes. Nunca me tinha passado pela cabeça que havia tanta gente a ouvir mal. Adorei descobrir a área da saúde auditiva, fiquei fascinado com o poder melhorar a audição e a qualidade de vida de alguém. Ficava simplesmente radiante quando o conseguia fazer. Achei que devia contar que era artista mas a chefe de área, provavelmente a pessoa mais vil que já conheci na vida, ameaçou-me imediatamente dizendo que não me queria nessas andanças e que se tivesse conhecimento de tal coisa eu iria para o olho da rua. Para garantir o emprego disse-lhe que não se preocupasse porque a banda já tinha “fechado a loja”… e era mais ou menos verdade. Quando estava a terminar a formação de Audioprotesista, no Natal de 2013, fizemos o último concerto no cine-teatro de São Pedro em Abrantes. Logo a seguir, inspirado naquela profissão e na falta de escrúpulos generalizada daquela malta, criei um projeto que batizei de “Experiências com Humanos” e voltei a andar na vida artística em segredo, durante um ano. Como nunca consegui atingir os objetivos de vendas, que é basicamente a única coisa que importa naquelas empresas, no final do segundo contrato fui despedido e foi aí que tentei começar novamente a trabalhar por conta própria. Desta vez como Audioprotesista independente.

Como a parceria não estava a funcionar arranjei uma cunha (sim, toda a gente sabe que é assim que funciona), para ir trabalhar na linha de montagem da fábrica de travões de Alferrarede. Fui humilhado repetidamente e, por me ter defendido, fui despedido. Aparentemente ninguém se incomoda com isto. Andei a trabalhar no campo, andei por aí e fiz um pouco de tudo o que consegui arranjar para fazer.

Hoje acho que devia ter emigrado logo nessa altura mas não, andei a perder o meu precioso tempo com gente que nem a si própria se respeita. Como a parceria não estava a funcionar arranjei uma cunha (sim, toda a gente sabe que é assim que funciona), para ir trabalhar na linha de montagem da fábrica de travões de Alferrarede. Fui humilhado repetidamente e, por me ter defendido, fui despedido. Aparentemente ninguém se incomoda com isto. Andei a trabalhar no campo, andei por aí e fiz um pouco de tudo o que consegui arranjar para fazer. Concluí novamente que o empreendedorismo é para quem tem dinheiro e influência e não para quem tem ideias e vontade de construir um mundo melhor. Isso são conversas utópicas, é o que me dizem. Trago uma revolta interior enorme e estar aqui a falar de outras pessoas sem elas se poderem defender não me agrada de todo. Mas estou muito magoado por tudo. Acho que fui usado indiscriminadamente por muita gente de grande influência local, criaram-me falsas expectativas. Fiz de tudo para que tudo corresse bem e vim parar aqui. Com esta brincadeira andei para levar a minha mãe à falência, e à loucura também. Agora resta-me apenas trabalhar para pagar os disparates e procurar deixar esta agonia para trás.

MT – Quanto tempo planeia ficar fora de Portugal?

FEL – Pretendo voltar no Natal, por uns dias. Depois vou procurar voltar ao estrangeiro, mas de uma maneira que consiga estar regularmente com a família, a de sangue e a da música. Estou a preparar-me para conquistar isso. Não quero viver sempre em Portugal. Hoje é possível estar com regularidade em lugares distintos e é isso que me motiva neste momento.

MT – Como está a ser o trabalho? Está a ser como esperava?

FEL – Sim, está a ser como esperava. Quando era pequeno andava sempre com o meu pai para todo o lado. Ele está “igual”. Tem 62 anos mas levanta-se às cinco e meia da manhã pra ir trabalhar e deve pensar lá no subconsciente que tem 26 anos… Só pára por volta das oito da noite. Janta, agarra-se aos papéis um bocado e vai dormir. Trabalha no duro de sol a sol e nesta altura do ano, como tem mais trabalho, os dias da semana são poucos para entregar todos os trabalhos a tempo. Gosto de estar a ajudá-lo também. Sinto que estou a fazer um período intensivo de reflexão e como o meu pai também fez todas as asneiras a que teve direito e teve que se levantar sozinho, estou a ter uma verdadeira lição de sobrevivência. Vamos ver se ele me consegue aturar até ao Natal.

FEL foi escolhido este ano pela Fnac como um dos "Novos Talentos" a ouvir. Foto: Instagram de FEL
FEL foi escolhido este ano pela Fnac como um dos “Novos Talentos” a ouvir. Foto: Instagram de FEL

MT – Este ano foi selecionado como Novo Talento pela Fnac. É Comissário das Comemorações do Centenário de Abrantes. Tem um percurso criativo marcado por vários projetos artísticos. Como vê o atual panorama para os criadores e artistas portugueses?

FEL – O panorama de quem não tem dinheiro e influência não é fácil. Especialmente se quiser criar algo novo. Demora muito tempo a construir uma carreira e despertar o interesse sobre o nosso trabalho. Tirando o oásis Antena 3, RTP2, Radar e pouco mais, percebe-se claramente a mediocridade dos restantes meios. As comunidades esbanjam dinheiro com espetáculos e artistas profundamente entediantes, são sempre os mesmos e tocam todos a mesma coisa, reparem nos cartazes das festas de verão e dos municípios. Os municípios são os principais clientes dos agentes e deviam ser os primeiros a puxar pelos novos projetos, mas a partidocracia cultural que conhecemos, música para massas, impede qualquer vereador da Cultura de fazer o seu melhor. Há que servir os partidos, é isso que dá votos. No próximo ano vamos ter eleições autárquicas, é um ano de grande faturação para estes agentes que ganham milhões e investem zero em novos projetos. Salvo raras excepções, em ambos os casos. Na maioria dos casos, os projetos mais interessantes não fazem parte destes cartazes. São convidados para se apresentarem gratuitamente em festivais de verão, depois quem tem capacidade para investir aceita, quem não tem… normalmente fica em casa.

MT – Como foram as reações das pessoas mais próximas e dos amigos quando souberam o que ia fazer para a Áustria?

FEL – Alguns ficaram com o coração nas mãos, sabem que me custa profundamente estar longe do meu filho e da minha banda. Hoje não vou acompanhar o primeiro dia de escola nem o aniversário do meu filho daqui a pouco tempo, cancelei concertos e tudo isto não é simples de resolver na minha cabeça. Mas todos me tentam motivar a acreditar em dias melhores.

MT – É preciso coragem para também dizer publicamente o que está a fazer. Embora se costume dizer que vergonha é roubar, não trabalhar. Porque não dizer, simplesmente, que estava de férias? Ou não dizer nada, desaparecer simplesmente?

FEL – Não tenho nada a esconder nem a temer. Assumi responsabilidades, como por exemplo na promoção do disco Novos Talentos Fnac, também assumi a responsabilidade na Comissão das Comemorações do Centenário da cidade, acompanhava a saúde auditiva de várias pessoas, etc, etc. Não podia mentir ou simplesmente ficar em silêncio. Depois também enchi a paciência de me andar a esconder como artista para arranjar emprego. Sou aquilo que sou e o que penso. É isso que me valoriza. Prefiro ser autêntico e ter que lutar contra a minha revolta do que andar a tentar construir uma fachada, como tanta gente faz. Como é normal, adoro o meu público e os meus amigos, e preciso de partilhar com eles o que aqui vai dentro.

Acho que fui usado indiscriminadamente por muita gente de grande influência local, criaram-me falsas expectativas. Fiz de tudo para que tudo corresse bem e vim parar aqui. Com esta brincadeira andei para levar a minha mãe à falência, e à loucura também. Agora resta-me apenas trabalhar para pagar os disparates e procurar deixar esta agonia para trás.

MT – A Rádio Nacional de Espanha vai divulgar na sexta-feira, 16, o seu projeto FEL. Como vê este interesse de uma rádio nacional de Espanha no seu trabalho?

FEL – Ajuda-me a acreditar no objectivo que já referi e a perseguir o seu rasto. Quando numa segunda-feira destas acordei com a mensagem da Cristina Moreno a informar que queria fazer uma peça sobre o FEL na Rádio Nacional de Espanha fiquei super feliz, é a prova de que lá por ser uma canção cantada em português isso não a impediu de passar a fronteira. Neste momento a canção só está disponível no disco da Fnac, numa versão mais curta, e no Soundcloud, numa versão mais longa, e esta plataforma permite-me saber onde está a minha música a ser ouvida, o que é muito interessante de saber.

MT – Será que esta experiência o poderá inspirar a escrever outro tipo de música?

FEL – Isso já está a acontecer. O “Paraíso” foi gravado entre Abrantes, São Paulo e Lisboa com as participações especiais da Janayna e do nosso brilhante Nathanael. A produção do Fred e a sua participação na bateria foram excepcionais. Só ter conseguido reunir estes três artistas numa canção já foi uma vitória pessoal e foram eles que quiseram, não andei a pedir nada a ninguém. Esta canção é uma experiência que me parece estar a correr bem e quero continuar a explorar sonoridades diferentes das que já experimentei com artistas de outras áreas geográficas e artísticas. O núcleo duro da minha banda, José Pedro Gonçalves Tomás aka Mossy, o Pedro Sousa e o Hugo Minds, têm feito um trabalho genial nos arranjos das minhas canções. São os meus irmãos de coração e a eles serei eternamente grato por tudo.

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