“Favas”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Em devido tempo escrevi uma crónica dedicada às favas onde historio a sua génese, trajectória, razão de uma fava ser incorporada no bolo-rei e por aí fora. É bem provável que um outro leitor cansado de ler o currículo da leguminosa me tivesse mandado à fava, nunca saberei se à rua da Fava existente em Setúbal porque em devido tempo, mormente em épocas de penúria, os portugueses obtinham farinha através da moagem de favas bem secas e com casca. Essa farinha misturada com a de centeio ou castanha permitia enganar a malvada fome, por essa razão importávamos favas vendidas em locais próprios: a rua ou travessa da fava.

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O famoso escritor e gourmet apurado, Alexandre Dumas e de outras, diziam as línguas viperinas, escreveu que as favas acabadas de germinar são boas para comer, crescidas manda a experiência retirar-lhe a casca se pretendermos cozinhá-las e das mesmas retirarmos prazer palatal. Assim, favinhas pequeninas cozidas no ponto concedem-nos a possibilidade de alegrarmos os sentido se as apresentarmos ao natural temperadas a gosto, eu gosto de a degustar regadas com um fio de azeite, borrifadas levemente com vinagre ou sumo de limão, na companhia de um bom vinho branco jovem e acídulo, ou ao invés, um colheita tardia, pois que um Tokay é demasiado castigador das carteiras, mais a mais neste tempo de sangria dos rendimentos da generalidade das pessoas.

As favas são muito bem aceites na cozinha portuguesa, seja na rural ou urbana, os receituários o confirmam, no entanto, graúdas, importa seguirmos o conselho do autor de Os Três Mosqueteiros, ou seja: propiciar-lhe uma cozedura, retirar-lhe a casca e a seguir cozinhá-las conforme aprouver. Durante a minha frequência de uma pós graduação na Universidade de Coimbra que durou dois anos, na época em que vicejavam ia comer «favas aporcalhadas» ao conhecido restaurante da baixinha da cidade dos estudantes O Zé Manuel, dos ossos acrescentavam os frequentadores habituais.

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Seja como elemento primacial de uma receita, seja na qualidade de acompanhamento as favas na sua época prestam-se a serem consumidas conforme queiramos – entradas, caldos ou sopas, acompanhamento de peixes e carnes e esparregados, recheios, até na pastelaria – sem esquecermos os arrozes, quem leu A Cidade e as Serras sabe do que estou a escrever.

Não foi só Eça de Queiroz a incluir as favas na sua obra, uma infinidade de escritores as referem e vão continuar a referir na justa medida de durante séculos serem elementares na cozinha da Europa enquanto não chegaram os produtos do Novo Mundo, pensemos na batata, o milho maís, o tomate, os feijões, as pimentas, o pimento e a mandioca.

Na doçaria popular o arroz doce com favas marcava presença em casamentos, baptizados e festas de todos os géneros. Eram tempos de carestia que julgávamos desaparecidos.

O aparecimento da pandemia está a gerar interesse no regresso a práticas agrícolas e usanças culinárias de outrora. Talvez as favas sejam incluídas no rol de matérias-primas a justificarem maior relevo. Se assim for, favinhas primaveris voltam a alargar a sua influência e consequente procura. Ainda bem. Umas favinhas tenras a darem réplica a rodelas de morcela de arroz, sem esquecer de linguiça e alheira, salvo melhor e esclarecida opinião, é festança estomacal de primeira ordem.

Pois são, porém, nesta matéria de gosto nada está escrito já advertiam os romanos, daí o leitor pode mencionar outras preparações envolvendo virutas de presunto, rodelas de paio alentejano, ervas de cheiro, entrecosto e tudo quanto lhe favorecer a vida nestes dias consubstanciados na obra Três Tristes Tigres, de Cabrera Infante.

E, a bebida de acompanhamento das favas e da leitura? Tinto de bom quilate, o genial escritor apreciava Veja Sicília, Riogas e congéneres. Na sossega charutos da sua querida Cuba chorada no forçado exílio imposto pelo «democrata» Fidel Castro.

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