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Terça-feira, Outubro 19, 2021

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Fátima | Peregrinação do Migrante: “Pelos nossos irmãos que correm tantos riscos para chegar à Europa”

A peregrinação de 12 e 13 de agosto ao Santuário de Fátima é dedicada ao migrante e ao refugiado. Com mais de um milhar de peregrinos presentes de 12 países e muitos emigrantes, este é um momento que tradicionalmente serve de reflexão sobre os que partem, os que chegam e os que fogem dos seus países. Na sua homilia, o Cardeal cabo-verdiano convidado, Arlindo Furtado, deixou o exemplo do Uganda como um exemplo de bom acolhimento a refugiados.

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Na conferência de imprensa de domingo, 12 de agosto, que antecedeu as cerimónias da peregrinação aniversária de agosto, o Cardeal D. António Marto abriu a sessão chamando a atenção para o “drama humanitário da transmigração epocal de povos que se dirigem à Europa, vindos do Médio-Oriente e de África”.

“É um exército de pobres que aqui chega, após dois anos de viagem pelo norte de África. Não estão em causa os números, mas pessoas concretas, com uma história, uma cultura, uma família, sentimentos, dramas e aspirações”, disse, ao lançar um olhar crítico sob o passado colonial das potências ocidentais europeias, que “explorou e roubou” África, e que manteve aquele continente numa “condição de guerra permanente”.

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“Assim se destrói a vida de milhões de pobres, obrigados a partir para não morrerem vítimas da miséria, da fome e da guerra. Crianças sem país, e pais e mães sem filhos. Sabemos tudo isto e não nos podemos calar.”

Bispo e Cardeal Arlinfo Furtado presidiu às cerimónias de agosto Foto: mediotejo.net

Assumindo-se como intérprete deste drama, o bispo de Leiria-Fátima lembrou uma partilha que o Papa Francisco deixou na rede social twitter, no passado dia 20 de junho, Dia Mundial do Migrante, onde o Santo Padre defende que “a dignidade da pessoa não depende de ela ser cidadã, migrante ou refugiada. Salvar a vida de quem foge da guerra e da miséria é um ato de humanidade”.

“É um exército de pobres que aqui chega, após dois anos de viagem pelo norte de África. Não estão em causa os números, mas pessoas concretas, com uma história, uma cultura, uma família, sentimentos, dramas e aspirações”

Ao recordar os números de vítimas do flagelo desta migração humanitária de refugiados que tentam entrar na Europa, D. António Marto insistiu na ideia, já apresentada pelo Sumo Pontífice, da “implementação de pactos globais sobre os refugiados e sobre uma migração segura, ordenada e regular, com a cooperação de toda a comunidade internacional, sob a égide das Nações Unidas”.

Já Arlindo Furtado defendeu uma solução global para os problemas globais da migração, que “olhe não só para os que governam países que acolhem, mas também para os que governam país que geram migrantes forçados”, que considere uma reflexão crítica sobre o passado com vista a um “futuro mais sólido”. “Toda a história colonial deve ser refletida para perceber o que houve de errado e que não deve continuar a repetir-se no futuro, para que o mundo seja mais equilibrado”, referiu, segundo nota informativa do Santuário de Fátima.

O também bispo lembrou ainda a questão da integração dos emigrantes de segunda geração, “um problema muito complexo e delicado”, porque, “estes não se sentem bem no país onde nasceram nem no país dos pais”.

Arlindo Furtado defendeu uma solução global para os problemas globais da migração, que “olhe não só para os que governam países que acolhem, mas também para os que governam país que geram migrantes forçados”

Na sua homilia de dia 13, segunda-feira, Arlindo Furtado deixaria ao presentes o exemplo do Uganda, país africano que acolheu e deu oportunidades de trabalho  a milhares de refugiados, “que ganharam autoestima e agora cuidam de si mesmos, sem depender de ajudas externas. Sim é necessário e possível acolher, promover e integrar os migrantes e refugiados”.

Correr riscos por novas oportunidades e voltar a casa

A presença de grupos da Costa do Marfim não estava enumerada na lista oficial de grupos estrangeiros inscritos nas celebrações de 12 e 13 de agosto, mas o mediotejo.net encontrou no recinto do Santuário um grupo de 43 pessoas que se deslocou a Fátima em “ação de graças”. “Viemos em ação de graças porque a Virgem Maria é a mãe de todo o mundo”, explicou Brou Celestin, salientando o quanto a viagem é importante para os vários elementos do grupo, que “quando vêm sentem muita graça”.

Questionado sobre a importância de se celebrar o migrante e o refugiado, Brou Celestin comentou que este é também um momento para orar pela paz na Costa do Marfim “e por todos os nossos irmãos que por razões diversas atravessam o mar, correndo tantos riscos para chegar à Europa”. “Que possam chegar sem problemas”, desejou.

Nelson Marques (dirt) é filho de portugueses, nasceu na Venezuela e vive atualmente em Portugal. Entregou 100 quilos de trigo a Nossa Senhora Foto: mediotejo.net

Os pais de Nelson Marques, naturais de Anadia, partiram há cerca de meio século para a Venezuela, onde este nasceu há 40 anos. Por lá fizeram vida e criaram negócios, mas Nelson regressou a Portugal há duas décadas. Sempre que pode desloca-se a Fátima por altura da peregrinação do migrante, envergando este ano a bandeira da Venezuela pelos ombros. “Tem um significado diferente, é difícil explicar”, referiu ao mediotejo.net.

Não pensa voltar para Venezuela, reconhece, uma vez que ficou com má memória do país, onde os portugueses não eram, na sua perspetiva, bem tratados, apesar do seu pai ter empregado vários venezuelanos na sua padaria. “O venezuelano tratava mal o português, porque este tinha algum dinheiro”, recorda.

A crise de 2008 não o fez querer abandonar Portugal, mas não coloca a hipótese de emigrar de parte caso as circunstâncias o exigem. Voltar à Venezuela não está entre as hipóteses, mas eventualmente outros países. “Quem sabe várias línguas é diferente, posso sempre voltar a partir”, comenta.

A vinda de Nelson Marques insere-se ainda numa tradição particular das peregrinações de agosto: a entrega de trigo a Nossa Senhora. O luso-venezuelano trouxe este ano quatro sacos de trigo, com um total de 100 quilos, que ofereceu no decorrer da cerimónia, juntamente com outras pessoas. “É o peso dos meus filhos”, dois rapazes adolescentes que o acompanham. “É uma maneira de contribuir, em vez de dar dinheiro”, explica, “é o meu contributo à Igreja”.

Estavam inscritos na peregrinação três grupos portugueses, dois grupos alemães, um da Áustria, um da Bélgica, três de Espanha, três de França, um da Guiné-Conacri, um do Iraque, um da Irlanda, três de Itália, um da Polónia e um do Reino Unido. O recinto do Santuário não encheu, com o frio e alguma chuva miúda a marcarem as primeiras horas das celebrações de segunda-feira.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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