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Sábado, Janeiro 22, 2022
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Fátima | “Esta crise na hotelaria irá passar, a questão é saber se aguentamos até lá” – Alexandre Marto

Para o CEO do grupo Fátima Hotels, Alexandre Marto, vive-se em Fátima a “tempestade perfeita”. Todo o esforço realizado para promover a marca Fátima na última década tornou a cidade mais atrativa, mas transformou-a também num destino mais dependente dos mercados internacionais. Quando os grupos da Coreia do Sul começaram a desmarcar em janeiro, Alexandre Marto percebeu que o ano ia ser difícil. A chegada do vírus da covid-19 à Europa matou as expectativas de retoma no verão. Mantendo o otimismo mas com alguma ansiedade quanto ao futuro, o responsável acredita que os portugueses vão regressar em breve à cidade religiosa e o comércio poderá começar a recuperar. Já a hotelaria poderá ter que aguardar um ano até regressar a valores de 2019. “A questão é saber se aguentamos até lá”, constata.

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Os 10 hotéis que compõem o grupo Fátima Hotels estão em layoff. São 500 quartos de oferta que ficaram completamente vazios neste 12 e 13 de maio e várias dezenas de funcionários com um destino incerto. Nas últimas semanas, com o anúncio do Santuário de Fátima de que as celebrações seriam à porta fechada, os hotéis empreenderam a difícil tarefa de confirmar as reservas para data. Todas foram canceladas. Os poucos clientes que restavam foram sendo transferidos de hotel em hotel, até todos os hotéis do grupo estarem encerrados. O tempo é de insegurança e incógnita.

Para o povo português, para o católico, pode haver um regresso à Igreja num sentido de procura de respostas a perguntas que as pessoas tinham deixado de fazer.

Alexandre Marto está atualmente na Associação de Hotelaria de Portugal (AHP) e tem noção do impacto da pandemia a nível nacional. Fátima, com a sua realidade própria, não está diferente do resto do país, mas sente-o de maneira particular. Nos últimos anos, a promoção da marca Fátima e o crescimento dos negócios, em número e qualidade, tornou a cidade mais dependente dos estrangeiros. Na hotelaria, a dependência ronda os 70 por cento.

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Se o comércio poderá retomar assim que o confinamento atenuar, beneficiando de um mercado nacional que procura Fátima com frequência, o mesmo cenário não se aplica a hotéis. A abertura das linhas aéreas é essencial para permitir que as reservas se mantenham. Alexandre Marto não esconde a preocupação e apela por medidas nacionais fortes que permitam à hotelaria manter os seus compromissos e não despedir funcionários.

Mediotejo.net (MT): Diz que a hotelaria de Fátima vive uma “tempestade perfeita”. O que quer dizer com isso?

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Alexandre Marto (AM): Um conjunto de fatores. O timing da crise de Fátima não foi exatamente o mesmo timing de outros destinos turísticos. Os primeiros sinais de crise foram anteriores. Ao contrário do resto do país, Fátima depende muito mais de mercados como o asiático e este impludiu logo no início do ano. Logo a seguir foi o mercado italiano e o mercado espanhol, também muito importantes, que tiveram um impacto enorme nas reservas em Fátima.

Portanto, é o tipo de exposição que temos no mercado internacional e os mercados internacionais que foram afetados primeiro [pela pandemia]. Que também vão ser os últimos a arrancar, porque dependem da confiança e de ligações aéreas.

A Coreia do Sul é um mercado extremamente importante para Fátima. Provavelmente o ano passado (os números ainda não foram publicados) terá havido cerca de 100 mil coreanos a dormir em Fátima.

Em segundo lugar, pela tipologia da operação que se faz para Fátima, que decorre em autocarro. São grupos. As pessoas chegam ao aeroporto e fazem visitas normalmente multi-país, em autocarro. Neste momento, as pessoas têm medo de viajar em grupo.

Em terceiro lugar pela faixa etária das pessoas que vêm até Fátima. Esta é uma doença que tem maior risco para pessoas com idade mais avançada e a idade média das pessoas que visitam Fátima também é mais avançada.

Portanto são estes três eixos que fazem com que Fátima seja mais afetada.

Quando é que começou a perceber que Fátima iria ter um ano mau?
Logo no início. Ali em fevereiro, quando o mercado asiático caiu. A Coreia do Sul é um mercado extremamente importante para Fátima. Provavelmente o ano passado (os números ainda não foram publicados) terá havido cerca de 100 mil coreanos a dormir em Fátima.Percebi que ia ser um ano mau, mas que podia ser salvo por um bom verão, uma época tradicional forte. Quando o vírus surgiu em Itália e começaram a aparecer os primeiros cancelamentos no início de março, isso foi uma confirmação de que o ano ia ser terrível. Começámos a receber cancelamentos não só de Itália mas também de mercados extra-europeus, que cancelavam as suas operações porque iam para Portugal e Itália. E logo a seguir Espanha. Foi muito rápido.

Itália e Espanha que basicamente são os grandes mercados internacionais de Fátima, não é?
Claro. O problema sanitário em Espanha e Itália contamina Fátima de duas formas. Uma primeira porque há uma quebra de procura desses mercados. Mas também porque mesmo que Portugal não tivesse qualquer tipo de problema sanitário, ao haver problemas na Europa, em países que tipicamente fazem parte dos circuitos de turismo religioso, isso afeta a visita de brasileiros, norte-americanos ou de asiáticos. Um norte-americano que visita o Santuário de Fátima, tipicamente visita também Compostela ou Lourdes. Estamos todos no mesmo barco, digamos assim.

A recuperação só se fará não quando Portugal tiver uma situação sanitária controlada, mas quando houver uma perceção de segurança em relação a outros países que fazem parte dos circuitos. Eu diria mais, era preciso uma perceção de segurança para a Europa. Porque estes povos têm na cabeça viajar para a Europa.

Daí eu achar que todas as operações que têm origem fora da Europa este ano vão estar condenadas. Também porque a logística é mais complicada. Não se sabe o que vai acontecer com as companhias aéreas; as fronteiras dentro da Europa; como os autocarros vão funcionar, porque cada país vai ter as suas regras. Isto tem que ser tudo homogeneizado, se não vai ser uma confusão. As companhias aéreas têm que se adaptar a isto e neste momento estão preocupadas em sobreviver. A situação é extremamente complicada.

Como viveu o grupo Fátima Hotels esta pandemia? Fecharam os hotéis todos?
Sim. Não fecharam todos ao mesmo tempo. Alguns destes hotéis são familiares e podem reabrir facilmente, os mais pequenos, porque é a família que garante a abertura do hotel. Quando houver procura, pode abrir imediatamente. Mas foram fechando e foram transferindo as reservas uns para os outros, à medida que o número de reservas só permitia dar viabilidade a um ou dois hotéis. Até ficar só um com algumas reservas e depois nós próprios passámos a transferir para outros, num sentido até que eu diria exemplar de entreajuda entre hoteleiros.

Houve uma altura que tínhamos 13 hotéis de Fátima a transferir para um do nosso grupo e nós depois passámos a transferir para um hotel terceiro. Mas as reservas eram mínimas.

mesmo que Portugal não tivesse qualquer tipo de problema sanitário, ao haver problemas na Europa, em países que tipicamente fazem parte dos circuitos de turismo religioso, isso afeta a visita de brasileiros, norte-americanos ou de asiáticos. Um norte-americano que visita o Santuário de Fátima, tipicamente visita também Compostela ou Lourdes. Estamos todos no mesmo barco

Neste momento os hotéis do grupo estão todos fechados?
Está tudo fechado.

Como se procedeu com este 13 de maio? Houve tentativas de reservas ou foi-se desmarcando tudo?
Já havia reservas há muito tempo, estas reservas para o 12 de maio muitas vezes são feitas de ano para ano, ao longo de muitos meses, muito antes da pandemia. Primeiro as reservas de operação, mais uma vez, que envolvem voos, deslocações em mais que um país, etc., foram canceladas logo em março, porque era impossível manter a organização. Os hotéis passaram a ter logo uma taxa de ocupação previsível muito baixa.

Depois os individuais foram cancelando também. Uns por iniciativa própria, outros pelos nossos telefonemas. Nos últimos 15 dias estivemos a contactar os hóspedes para lhes dar conta da situação, para sermos honestos com eles, porque sabíamos que o Santuário não ia ter cerimónias abertas. As pessoas cancelaram. Neste momento não temos nenhuma reserva.

Não têm reservas até quando?
Temos ainda algumas reservas para maio, mas é provável que também cancelem. Depois em junho há mais, em julho há mais. O número de reservas vai sempre aumentando. A questão é saber se as pessoas vêm.

Como tem sido a gestão do grupo? Os hotéis estão em layoff?
Sim, os hotéis estão em layoff. Essas decisões foram tomadas pelos hotéis, que são independentes.

Qual a sua perspetiva para esta situação? Quando haverá alguma recuperação?
Eu vejo isto em quatro etapas. Na primeira etapa, esta que estamos agora ultrapassar, espero que comece a existir desconfinamento e acredito que a haver algum novo surto este não seja tratado com a mesma violência económica do primeiro. Porque o SNS já estará mais preparado para acolher as pessoas e porque também haverá uma melhor aceitação do número de mortos, em contrapartida à violência económica – e por isso também sanitária, psicológica, mas também de saúde, de fome até – que um lockdown implica. Julgo que mesmo que haja um novo pico a sociedade estará mais tolerante a uma eventual economia mais aberta. A economia não é só dinheiro na conta das pessoas, afeta tudo.

Com o desconfinamento os hotéis vão poder abrir, com alguns clientes. Acredito que possa ser suficiente para cobrir os custos variáveis dos hotéis, desde que o Estado continue a dar a possibilidade de manter uma figura de layoff ou similar para cobrir custos variáveis, essencialmente salários. Caso contrário os hotéis vão ter que despedir pessoas.

Se o Estado apoiar com layoff ou outro tipo de ferramentas para manter o emprego – redução de TSU, por exemplo – acho que os hotéis podem manter o pessoal todo, desde que as vendas cubram os custos variáveis.

Nos últimos 15 dias estivemos a contactar os hóspedes para lhes dar conta da situação, para sermos honestos com eles, porque sabíamos que o Santuário não ia ter cerimónias abertas. As pessoas cancelaram. Neste momento não temos nenhuma reserva.

Em setembro/outubro eu espero que as companhias aéreas já comecem a voar com maior regularidade. Neste momento 90% dos aviões estão parados.

O problema é que depois vem a época baixa. Aí sim eu penso que é uma época de começar a organizar a operação para o ano seguinte. Acredito que 2021, mesmo que não haja vacina, já pode ser melhor. Se existir vacina, ou um tratamento medicamentoso que reduza o número de mortos, nesse caso resta perceber qual vai ser o impacto económico. Até que ponto as economias vão recuperar.

Acho que a partir de abril do próximo ano já podemos voltar a ter uma fase mais feliz. A questão é saber se sobrevivemos até lá.

E sobrevivemos até lá? A economia de Fátima ainda é muito doméstica, de pequenas empresas familiares.
Eu acho que é uma obrigação do Estado e até do município em apoiar este tipo de negócios. A primeira coisa que deve acontecer é uma redução dos custos que são infligidos pelo Estado, que são essencialmente a nível de impostos. Não tanto os impostos varáveis. Mas seria importante, por exemplo, a nível da restauração descer a taxa de imposto para a taxa reduzida. Em Fátima é muito importante o IMI, porque os imóveis aqui estão avaliados em valores que são absurdos. Era muito importante perdoar o IMI ou pelo menos haver uma moratória para este ano e para o ano isentar as empresas da IMI. Porque são um custo fixo que vai retirar liquidez às empresas e colocá-las em graves apuros porque não têm nenhuma receita, ou quase nenhuma. Nos recursos humanos é manter o layoff.

As empresas mais pequenas podem ser as mais resistentes, porque têm uma estrutura familiar que se adapta. O problema, que é mais assustador, é ao contrário, é nas empresas que não são suficientemente grandes para fecharem – no sentido que não são relevantes do ponto de vista, por exemplo, político para fecharem – e não são suficientemente pequenas para se adaptarem. Estruturas com dezenas de trabalhadores vão ter mais dificuldades que uma estrutura que seja só marido e mulher e uma funcionária. Mas estas empresas médias são aquelas que criam emprego.

Isto não depende do município ou da região, mas essencialmente do Estado.

Fátima fez um caminho enorme para o crescimento destas empresas, na procura da qualidade, mas diria que está hoje mais vulnerável a uma crise económica porque conseguiu um nível de internacionalização recorde, em primeiro lugar, e estamos mais expostos a esta crise internacional. Mas também tem custos variáveis muito mais fortes porque criou muito mais emprego. O que era bom antes pode ser um ponto negativo.

Mas também não creio que voltar a ter aquelas estruturas mínimas, reduzir a qualidade dos hotéis, passar os hotéis a três estrelas, seja a solução, não faz sentido. Apesar de tudo penso que esta crise é passageira, temos é que aguentar até lá.

Qual será o impacto em números de turistas este ano?
Eu acho que apesar de tudo, já a partir de julho, os portugueses vão voltar a Fátima. O povo português identifica-se com Fátima. A questão é saber se vão pernoitar, porque é isso que define o turista. Se não dormir é excursionista. É altamente provável que não pernoitem, que era o que já acontecia antes. Por isso que temos 70% de internacional [ocupação dos hotéis].

Em Fátima é muito importante o IMI, porque os imóveis aqui estão avaliados em valores que são absurdos. Era muito importante perdoar o IMI ou pelo menos haver uma moratória para este ano e para o ano isentar as empresas da IMI. Porque são um custo fixo que vai retirar liquidez às empresas e colocá-las em graves apuros porque não têm nenhuma receita, ou quase nenhuma.

Isto acaba por ser muito mais agressivo para a hotelaria que para o comércio…
Acho que há três níveis de impacto. O impacto mais grave vai ser na hotelaria, porque é a que tem maior exposição ao mercado internacional. Um segundo impacto, também brutal, é na restauração, por razões económicas e por causa destas regras do confinamento. O terceiro impacto, que também é grave, mas menos grave, é no comércio. Neste momento é grave para todos, mas o primeiro a arrancar vai ser o comércio com o mercado nacional.

Está otimista, pessimista… qual o seu sentimento sobre toda esta situação?
A curto prazo, até final do ano, estou pessimista. Não vislumbro uma solução. A partir do próximo ano estou muito otimista. Acredito que voltamos a níveis muito próximos de 2019. Porque continua a haver procura. Há muita gente que nos diz que quer vir, que está a adiar esta viagem para o ano que vem. Mesmo que haja uma crise económica, nós trabalhamos com um nicho de mercado que é mais resiliente, porque é menos afetado pela crise. São os reformados e pensionistas.

Fátima fez um caminho enorme para o crescimento destas empresas, na procura da qualidade, mas diria que está hoje mais vulnerável a uma crise económica porque conseguiu um nível de internacionalização recorde, em primeiro lugar, e estamos mais expostos a esta crise internacional. Mas também tem custos variáveis muito mais fortes porque criou muito mais emprego. O que era bom antes pode ser um ponto negativo.

Podemos então assistir até a um boom de turistas depois disto tudo?
Sim. Porque as pessoas estão a adiar, porque o nosso mercado é mais resiliente, e também por um factor, que eu acredito que seja muito forte, que é o retorno à espiritualidade. Porque as pessoas nestes momentos de força foram obrigadas a parar e a pensar na vida. Têm que encarar uma coisa que é a morte, que está muito ligada à espiritualidade. A partir do momento em que as pessoas caem em si e percebem que não são imortais, procuram respostas, soluções, nem que seja por mera curiosidade intelectual. Acredito que haja um regresso à espiritualidade, que pode passar pelo Santuário, ou, noutras perspetivas, pela aproximação à natureza.

Para o povo português, para o católico, pode haver um regresso à Igreja num sentido de procura de respostas a perguntas que as pessoas tinham deixado de fazer.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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