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Domingo, Maio 16, 2021

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FÁTIMA | 1919-1920: Os anos em que a pneumónica levou dois santos e consolidou um culto nacional

Dois anos depois das Aparições, por ocasião do regresso dos soldados da I Guerra Mundial, o pastorinho Francisco Marto morria vítima da epidemia de gripe espanhola, que matou na época mais de 50 milhões de pessoas, em todo o mundo. Foi o primeiro dos três pastores a desaparecer. Jacinta morreria no ano seguinte, em 1920, também de pneumónica, no Hospital Dona Estefânia. Cem anos depois da sua morte, um vírus semelhante impede, pela primeira vez, as peregrinações ao santuário mariano. Recordamos a evolução do local ao longo dos anos, desde que se ergueu uma pequena ermida no local da azinheira, atualmente conhecida como Capelinha das Aparições. Dinamitada em 1922, reconstruída e remodelada ao longo das décadas, encontra-se fechada ao público desde os anos 80, mas permanece central nas celebrações do santuário. Tornou-se, na linguagem da Igreja Católica, uma “relíquia”, integrando a sua edificação a própria narrativa mística das Aparições de Fátima.

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“Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.” A Irmã Lúcia, última vidente de Fátima a falecer, em 2005, aos 97 anos, relatou nas suas Memórias que Nossa Senhora lhe terá deixado, a 13 de outubro de 1917, a indicação para que se construísse na Cova da Iria uma capela em sua honra. A edificação da estrutura não foi porém imediata. O ano de 1918 é ausente de episódios significativos na cronologia dos acontecimentos de Fátima, retomando-se a narrativa já em 1919, nomeadamente com a morte do primeiro dos videntes, Francisco Marto, a 4 de abril.

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Tinha então 10 anos. Tocador de pífaro, criança sociável, isolou-se após os acontecimentos da Cova da Iria, abandonando também a escola primária, que iniciara com a irmã Jacinta e a prima Lúcia. Até adoecer no final de 1918, dedicou-se à oração, passando largas horas na Igreja Paroquial de Fátima a contemplar o sacrário. 

Já a construção da capelinha das aparições (abril a junho de 1919) ficou a dever-se sobretudo ao zelo de Maria dos Santos Carreira (1872-1949), uma mulher do povo que acompanhou desde o início as aparições e foi guardando as esmolas que permitiram levar a bom termo o projeto. Narra a história de Fátima que esta mulher, mais tarde cognominada “Maria da Capelinha”, foi quem inicialmente limpou o mato e enfeitou a azinheira onde os três pastorinhos afirmavam ter visto Nossa Senhora com fitas. Posteriormente construiria com o marido o arco que ali se encontrava aquando o milagre do sol, a 13 de outubro. Acabaria por se tornar zeladora da capelinha após a sua edificação, guardando em sua casa a imagem original de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, razão pela qual esta escapou incólume à dinamitação de 1922. 

Esta imagem foi também encomendada em 1919, neste caso por um crente de Torres Novas, Gilberto Fernandes dos Santos. A escultura foi elaborada pela Casa Fânzeres, em Braga, tendo sido inspirada numa imagem de Nossa Senhora da Lapa e nos relatos dos videntes, segundo foi transmitido ao escultor, José Ferreira Thedim, pelo Cónego Manuel Formigão.

Pastorinhos de Fátima. Foto: DR

Existindo já uma capela e uma imagem para adoração, Jacinta Marto morre em 1920, com 9 anos, no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Lúcia começa a ser afastada do assédio do público e inicia o seu percurso na vida religiosa algum tempo depois, já com 14 anos. Fátima vê-se assim, num curto espaço de tempo, sem as crianças que deram corpo ao mistério, num período de radicalismo anticlerical fomentando pela instauração da I República mas ainda de crenças religiosas fortemente enraizadas. 

A 6 de março de 1922 a capelinha das aparições foi dinamitada por desconhecidos, tendo o telhado ficado destruído. Seria reconstruida ainda nesse ano. Ao longo de 60 anos a estrutura manteve-se igual a si própria – uma ermida como muitas espalhadas pelas serras portuguesas – mas foi sendo sobrecarregada com placas em pedra com mensagens à Virgem nas suas paredes exteriores. Ao longo do tempo construiram-se também em seu redor sucessivos alpendres, por forma a proteger o edificado original. O espaço permaneceu sempre visitável, podendo os peregrinos contemplar de perto a imagem da Virgem.

Em perto de um século, o que mais mudou na Cova da Iria não foi porém a capela em si mas a paisagem. O terreno pedregoso e acidente começou lentamente a ser nivelado, com os grandes portões que fechavam inicialmente o recinto a serem edificados e depois demolidos, obtendo por fim a imagem ampla e aberta, alcatroada, que existe hoje. 

No início dos anos 80 a capelinha recebeu a derradeira intervenção que a iria tornar no espaço inacessível que é hoje. Um extenso alpendre foi construído em seu redor, com a estrutura a centrar-se no altar, numa posição elevada. Fechada aos olhos do público, a imagem de Nossa Senhora seria colocado no exterior e envidraçada.

“Até aos anos 50 houve projetos para a reconstrução da capela”, narrou ao mediotejo.net o diretor do Museu do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte, no âmbito da inauguração de uma exposição, patente até outubro de 2019 nas galerias inferiores da Basílica da Santíssima Trindade, sobre o centenário da edificação da capelinha das aparições. Alguns destes projetos, bem mais complexos e ricos artisticamente que a estrutura remanescente, estão expostos nesta mostra, designada Capela Múndi. “Mas [a construção rústica] foi entendida como símbolo maior e a rudeza do edifício como um desejo vindo do Céu”, explicou.

Jacinta ao colo de um militar, no local das Aparições, em 1917. Foto DR

Esta é assim uma capelinha que resistiu à tentação da erudição artística e manteve os seus traços populares, acabando por ser encarada ela própria como uma “relíquia”, ou seja, parte integrante da santidade do próprio local. É esta a razão, explicou ao mediotejo.net Marco Daniel Duarte, pela qual a capelinha original está fechada e foi construída uma cópia na exposição, para que a população tenha noção da sua pequenez. “A capelinha das aparições fica mais distanciada dos peregrinos, mas surge mais valorizada” no seu aspeto simbólico, de pedido que veio de Nossa Senhora, podendo ser observada de todos os lados.

Afinal foi em redor da ermida que se construiu o culto, além do próprio Santuário, e é nela “que se mostram os gestos mais significativos, desde a oração do terço a momentos de intimidade”. Disso dão conta as centenas de placas de pedra de agradecimento e oração que o Santuário recebeu ao longo das décadas, algumas das quais chegaram a estar afixadas na capelinha.

“Temos cerca de 400 placas na nossa reserva”, adiantou o diretor, e um grande arquivo de mensagens privadas sobre o qual se têm debruçado vários investigadores. “São mensagens de agradecimento e de súplica”, referiu o responsável, que quando são cedidas para estudo científico muitas vezes vão sem identificação do autor. A guerra colonial foi uma temática recorrente, referiu.

A história da capelinha das aparições estava assim narrada ao longo de nove núcleos, que focavam não só a sua edificação e memória (estavam presentes as primeiras lages da “passadeira dos penitentes”, onde os peregrinos ainda hoje fazem as promessas de joelhos), como as manifestações de fé e a temática mariana. Um dos episódios expostos era o do naufrágio dos pescadores de Caxinas em 2011, em que os homens rezaram a Nossa Senhora de Fátima para se salvarem, encontrando-se o terço oferecido em exposição.

A mostra era ainda composta, por forma a dinamizar a narrativa, de obras de arte sacra provenientes de todo o país, de elevado valor artístico e patrimonial. Um dos destaques era a presença do quadro de Josefa de Óbidos, “Cordeiro Pascal”. O antigo andor de Nossa Senhora, retirado para reabilitação, também se encontrava exposto, assim como esculturas dos Santos Jacinta e Francisco Marto.

Os anos de 1919-1920 marcaram pois uma transição na história de Fátima: este foi o momento em que os rostos infantis que lhe deram origem começaram a desaparecer. Com eles partiram as dúvidas e o ceticismo que rodearam os seis meses de aparições, ficando apenas a fé no testemunho narrado, que não pôde mais ser contrariado.  

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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