Fátima | 100 anos depois, permanecem vivos os mistérios em torno do torrejano que ofereceu a estátua de Nossa Senhora (c/vídeo)

A história nem sempre descreve Gilberto Fernandes dos Santos, natural de Torres Novas, da forma mais favorável: para uns, teria maquinado o “teatro das aparições” com um espelho de guarda-vestidos, onde desenhou uma boneca e depois, com umas lanternas, “enganou os cachopos”; para outros, era apenas um homem em busca de dinheiro, sendo dele a ideia de vender “água de Fátima”, entre outros negócios controversos. Este 13 de junho celebra-se um século sob a chegada à Capelinha das Aparições da escultura original de Nossa Senhora que o torrejano encomendou à Casa Fânzeres, em Braga – oportunidade rara para ver mais de perto, numa exposição especial, a imagem que milhões de pessoas passaram a venerar.

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O Santuário de Fátima perdeu o rasto à família de Gilberto Fernandes dos Santos. Entre as fontes oficiais de Torres Novas e alguns contactos que o mediotejo.net empreendeu nas últimas semanas, pouco mais se sabe do que o facto de ter nascido em 1892 e ser natural do concelho. A dada altura mudou-se para Lisboa com a mulher e os filhos, tendo tentado a sua sorte num conjunto variado de negócios. Para a memória deixou um testemunho em livro, cuja edição de 1956 consultámos no arquivo do Santuário de Fátima: “Os grandes fenómenos da Cova da Iria. A história da primeira imagem de Nossa Senhora de Fátima”.

Se Maria Carreira foi a primeira “funcionária” do Santuário de Fátima, Gilberto Fernandes Santos foi o primeiro grande comerciante da Cova da Iria. O empreendedorismo parecia ser resultado de um misto de real convicção no milagre preconizado pelos três pastores e olho para o negócio, não obstante não haja registo de ter feito particular fortuna com as suas incursões pela exploração comercial do fenómeno de Fátima. O pragmatismo fê-lo, no entanto, deixar um legado, apropriado rapidamente de forma menos ética, segundo afirmava, pelos que se seguiram.

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Escultura de Nossa Senhora era mais roliça e não tinha coroa. A obra foi alvo de uma recuperação nos anos 50 que a modificou Foto: D.R.

Na ausência de familiares a quem pudéssemos pedir testemunho, restam-nos as suas memórias, as quais foram escritas mais de 30 anos depois dos acontecimentos. Afirmava então Gilberto Fernandes Santos que decidira empreender tal tarefa de redação para desmentir uma conjunto de boatos que corriam a seu respeito. Nomeadamente de que era “um ateu, anti-clerical, perseguidor da Igreja”, que foi a Fátima “com bombas explosivas nos bolsos para matar os pastorinhos”, e que “ao retirar as bombas explosivas dos bolsos estas se transformaram num rosário”, e que este “milagre” o convertera, e que por este motivo ele teria, então, oferecido a imagem para a capelinha. O torrejano nunca terá descoberto o inventor de tal “calúnia” que motivou esta narração das suas memórias.

Não desmente, porém, que fez campanha “pró-Fátima”, afirmando que as suas motivações se prenderam ao facto de acreditar profundamente nos acontecimentos. “Desde 13 de maio de 1920 (data em que ofereci a Imagem) até 23 de janeiro de 1923, fiz toda a minha propaganda pró- Fátima gratuitamente”.

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À Capelinha das Aparições ofereceu o primeiro missal, afirma, “encadernado, dos melhores que encontrei à venda naquela altura”, e, em 1932, mandou fazer 10 mil postais em torno da fotografia da Imagem para serem vendidos a favor do Santuário de Fátima.

Antes de 1923, garante, nunca vendera artigos religiosos, nem pensava fazer disso vida. O seu espírito mudou quando começou a constatar o aproveitamento alheio da sua iniciativa. “Só na data acima mencionada – quase seis anos depois das Aparições – é que comecei a vender artigos religiosos: porque, um pouco antes daquela data, começaram a aparecer em Fátima e nos arredores da Cova da Iria vários comerciantes a venderem ao público algumas das estampas que eu distribuíra ‘grátis’, e ainda muitas outras estampas da autoria deles, também com a fotografia da Imagem. Começaram assim a desenvolver a venda de artigos religiosos, em Fátima e na Cova da Iria, o que deu origem a que eu, então, resolvesse parar com a minha distribuição gratuita”.

Na década que se seguiu, intentou a sua sorte também noutras áreas de negócio, avançava, como a fabricação de refrigerante vínico, sociedade e gerência na exploração de um café e de uma mercearia, entre outros pequenos empreendimentos, com os quais, afirma, só teve prejuízo. A dada altura resolveu por tal dedicar-se apenas à venda de artigos religiosos.

Em busca de melhor condições de vida, fixou-se em 1939 em Lisboa, onde abriu uma loja de santos junto à Igreja paroquial de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (na Avenida de Berna).

Pagelas distribuídas na Cova da Iria a 13 de outubro de 1917 por Gilberto Fernandes dos Santos Fonte: Documentação Crítica de Fátima

Nas memórias de Gilberto Fernandes Santos encontram-se as suas impressões sobre as duas aparições que assistiu, em setembro e em outubro, quando tinha 25 anos, e as conversas que teve com Lúcia dos Santos, ainda adolescente, inclusive numa ocasião em que ficou em sua casa, e com Maria Carreira, que ficou encarregada de zelar pela Capelinha das Aparições. Na troca de palavras com esta última, aquando a edificação da capelinha (estrutura foi construída em 1919), observou que não fazia sentido haver na capelinha um nicho apenas com um crucifixo, sem uma imagem de Nossa Senhora, e comprometeu-se a comprar uma em Lisboa.

Só quando chegou à capital é que o torrejano se apercebeu que Nossas Senhoras havia, afinal, muitas, sob variadas representações, e ficou preso ao dilema de saber qual delas representaria melhor a aparecida em Fátima. Segundo o seu testemunho resolveu então questionar os pastorinhos sobre qual a imagem que mais se aproximava, contactando também com o Padre Formigão, que os interrogou, e encomendando depois a imagem à Casa Fânzares. Uma imagem de madeira, de primeira qualidade, com um metro de altura e vários detalhes sobre as características indicadas pelos três pastorinhos terão ido nessa carta.

As memórias de Gilberto Fernandes dos Santos contêm um evidente erro cronológico e de facto, que pode ser confirmado na página do Santuário de Fátima. A Capelinha das Aparições foi edificada entre 28 de abril e 15 de junho de 1919. Se o torrejano falou com Maria Carreira depois da capela construída, é impossível que este tenha entrevistado os três pastorinhos, como refere, uma vez que Francisco Marto morreu a 4 de abril desse ano (Jacinta já se encontraria bastante doente). Segundo o Santuário, as indicações sobre os pormenores da imagem da Virgem partiram exclusivamente do Padre Formigão, não tendo Gilberto chegado a falar com os três pastores.

A escultura, da autoria de José Thedim, inspirada na imagem de Nossa Senhora da Lapa, venerada em Ponte de Lima, chega à então vila de Torres Novas na primeira semana de maio de 1920, com a intenção de estar na Cova da Iria no dia 13. O plano não corre como previsto, uma vez que Gilberto Fernandes Santos é chamado à presença do administrador do concelho de Torres Novas, onde lhe é apresentada uma carta do Ministério do Interior a proibir a “procissão” que se previa entre Torres Novas e Fátima.

A imagem acabaria por apenas chegar à Cova da Iria a 13 de junho, depois de um mês na paróquia de Fátima.

Gilberto Fernandes dos Santos vendeu ainda latas de água de Fátima e compôs o primeiro Avé à Virgem Foto: D’outro Tempo Exposição de 2017

O testemunho deixado pelo torrejano evidencia alguém com forte convicção nos acontecimentos de Fátima, que agiu sempre com o intuito de promover a acreditação dos mesmos e não tanto para benefício próprio, tendo porém acabado por retirar dos eventos o seu sustento. Um artigo publicado no jornal O Torrejano, da autoria de João Carlos Lopes, dá porém uma perspetiva mais materialista à narrativa.

Gilberto Fernandes dos Santos fez pagelas e santinhos, mas o que causou mais polémica foi o negócio da “água de Fátima” (que não menciona no livro), através de “chapas litografadas”, encomendadas possivelmente no Porto, que depois um latoeiro de Torres Novas chumbava, concluindo o objeto. “Foi um visionário”, expõe este artigo, e “a venda que se faz atualmente de garrafinhas de ‘ar de Fátima’ deve muito à inovação de Gilberto, há quase cem anos, de imaginar e concretizar elegantes latinhas de água de Fátima, embora água fosse aquilo que de mais raro havia na altura naquele descampado inóspito da Cova da Iria, onde nem um poço se vislumbrava num raio de quilómetros”.

Segundo o texto, a fama das suas negociatas envolveu-o nas teorias de conspiração sobre Fátima. “Na tradição popular torrejana, Gilberto teria maquinado o ‘teatro das aparições’ com um espelho de guarda-vestidos, onde desenhou uma boneca e depois, com umas lanternas, ‘enganou os cachopos’. A má língua popular também inscreveu a teoria de que Gilberto até era inicialmente anarquista, e que esteve no primeiro grupo que colocou bombas na Cova da Iria. E que virou o bico ao prego das suas convicções só com a mira do negócio que anteviu antes de toda a gente.

Esta tese do “teatrinho” foi avançada por Tomás da Fonseca: os cachopos viram uma senhora, sim, mas não era senão a mulher do coronel Genipro, que ali andava em missão cartográfica – para além disto, dizia Tomás da Fonseca, os pastorinhos viram depois “o que a lanterna mágica projectava sobre a azinheira”.

“Gilberto Fernandes dos Santos, que em 1920 viu mais longe ao pensar que uma imagem de Nossa Senhora, com presença frequente na capelinha pobre e rudimentar, seria fundamental para dar colorido às romarias e alegrar os negócios que por ali já floresciam, raramente é lembrado com o devido destaque pela historiografia oficial de Fátima”, conclui.

O facto é que no Santuário de Fátima a personagem é reconhecida, encontrando-se as suas cartas à Casa Fânzeres expostas na exposição “Vestida de Branco“, que celebra até 15 de outubro o centenário da escultura que este torrejano tanto se esforçou por comprar. O seu livro encontra-se no arquivo do Santuário e pode ser consultado mediante requisição.

Gilberto lançou um livro de memórias nos anos 50 Foto; mediotejo.net

Mas a instituição admite que perdeu o rasto à família, permanecendo desconhecido o paradeiro de uma imagem em miniatura que Gilberto Fernandes dos Santos mandou fazer para si próprio, ao mesmo tempo que a escultura principal.

“É um devoto da primeira hora de Fátima”, frisa Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos, destacando que este se tornou um difusor do culto de Fátima através de gestos concretos, obrigando inclusive a Igreja Católica local a tomar decisões. Foi ele o criador, por exemplo, do primeiro “Avé de Fátima”. “É um homem altamente empenhado” e deixou a primeira marca laical na institucionalização de Fátima, frisou.

Gilberto Fernandes Santos encomendou em 1919 uma imagem da Nossa Senhora, escultura que chegou a Fátima a 13 de junho de 1920 Fotos: mediotejo.net/D.R.

Um século de história

Com 1,04 metros de altura, a escultura original de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi produzida em cedro do Brasil, ficando a cargo da Casa Teixeira Fânzeres, de Braga, a aplicação de policromia e de dourados.

A Imagem foi benzida em 13 de maio de 1920 pelo pároco de Fátima, padre Manuel Marques Ferreira, na Igreja Paroquial, tendo sido levada para a capelinha das aparições em 13 de junho desse ano.

Durante a noite, a imagem era recolhida pela zeladora Maria Carreira, conhecida como Maria da Capelinha, razão pela qual escapou incólume ao atentado de 6 de março de 1922, que destruiu parcialmente a capelinha.

A imagem, que fora solenemente coroada pelo Legado Pontifício, o cardeal Aloisi Masella, em 13 de maio de 1946, foi restaurada pelo seu autor em 1951 e desde então tem sido retocada várias vezes.

Desde maio de 1982, com a renovação da Capelinha das Aparições a tempo da primeira visita de João Paulo II (que entregaria a bala com que o tentaram matar para ser incrustada na coroa da Sra. de Fátima) que a imagem assenta no exterior da Capelinha, numa peanha que assinala o local exato onde se encontrava a azinheira (entretanto desaparecida) sobre a qual Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos.

Protegida por uma redoma de vidro à prova de bala, a imagem era recolhida ao final do dia, poucos minutos antes da meia-noite, para o interior da capelinha, por uma questão de segurança, regressando àquele local na manhã seguinte.

Essa prática, refere o Santuário de Fátima, foi abandonada desde que, em 2009, o Santuário de Fátima passou a transmitir na internet, 24 horas por dia, imagens da capelinha, captadas por uma câmara direcionada para a imagem. Desde então, a escultura que representa Nossa Senhora de Fátima está permanentemente à vista de todos, não só na Cova da Iria, mas também de todo o mundo, via internet.

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