“Fair-play democrático”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Michael Morgenstern

“Há líderes que minam as normas informais de fair-play de tal maneira que, não violando a democracia processual, impedem o funcionamento efectivo da democracia.”
– Dan Slater e Lucan Ahmad Way (2017)

PUB

PUB

Escrevi sobre “Democracia, democratização e descentralização” em crónica anterior, tendo chamado a atenção para um conjunto de princípios e boas práticas sociais e institucionais – de representação, participação, ética e competência – cuja revisão, reformulação e desenvolvimento, na minha opinião se impõem. Quero focar-me, agora, no problema do bullying (assédio) verbal e não-verbal exercido por detentores de cargos políticos e de como o mesmo vicia o debate público, pervertendo e subvertendo o ambiente e as regras da democracia.

O tema não é novo, mas ganhou acrescido interesse da opinião pública e das comunidades política e académica, a nível internacional, com a ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA. O estilo de comunicação ofensivo e persecutório do presidente americano tem sido objecto de estudo por parte de cientistas sociais como Roddey Reid, professor emérito da Universidade da Califórnia, autor de “Confronting Political Intimidation and Public Bullying: A Citizen’s Handbook for the Trump Era and Beyond”, livro que inspirou esta minha reflexão.

PUB

Numa comunidade que preza a democracia, o nível do debate e relacionamento público – cívico e político – revela a saúde e a qualidade dessa democracia. Por sua vez, em sentido inverso, a forma e a substância desse debate e relacionamento determinam o nível a que se entende e pratica a democracia. Ou seja, existe uma correlação entre ambas as dimensões, as quais são interdependentes e se retroalimentam, de forma virtuosa ou viciosa. A minha tese é, pois, a de que as interacções tóxicas envenenam o ambiente cívico e político, pondo em causa a democracia.

Cartoon sobre a utilização das redes sociais – pelo presidente americano e seus apoiantes – para disseminar o ódio e intimidar quem pensa diferente e se opõe ao seu comportamento eticamente deplorável

Quando não há respeito e se escolhe o caminho da perseguição e condicionamento dos adversários (reais ou supostos), por vezes de forma organizada e extrema, o jogo democrático fica viciado. Por outras palavras, a viciação da democracia dá-se tanto no plano representativo-estrutural (de que é exemplo o caciquismo, sobre o qual escrevi recentemente) como no plano participativo-conjuntural. De modo geral, o assediador político tende a projectar os seus atributos, pensamentos e emoções inaceitáveis ou indesejados, atribuindo-os a outras pessoas.

O seu arsenal de tácticas de intimidação e manipulação é vastíssimo, começando pelas mais básicas e perceptíveis: elevar a voz, interromper o outro, dar ralhetes, monopolizar intervenções, ignorar perguntas, mentir, desvirtuar afirmações alheias, fazer insinuações, denegrir o oponente, auto-elogiar-se, vitimizar-se, produzir afirmações demagógicas e populistas, banalizar erros e ofensas, etc, etc. Estas tácticas evoluem, frequentemente, para perigosos jogos psicológicos descritos pelo Triângulo Dramático de Karpman, em que o assediador se desdobra rápida e intensamente nos papéis de Perseguidor, Vítima e Salvador.

Entre as tácticas mais sofisticadas e perversas conta-se também a gaslighting, a qual consiste na proliferação de mentiras, alegações e declarações contraditórias que podem levar a vítima, bem como aqueles que assistem à agressão, a questionar a validade das suas próprias percepções, pensamentos e memórias. Estranhamente, ocorre por vezes um fenómeno conhecido por síndrome de Estocolmo, em que a vítima acaba por desenvolver laços emocionais e simpatia pelo agressor. É essencial estar alerta, prevenido e preparado para compreender e resistir a todas essas tácticas mórbidas, sob pena de se ser fácil e inconscientemente enganado e instrumentalizado.

O bullying (assédio) político visa, não só perseguir e intimidar os adversários, como também destruí-los moral e socialmente. Ilustração de Simon Letch

Tem-se assistido, infelizmente, a demasiadas manobras e confrontações deste tipo. O bullying político é indiferente a qualquer tipo de fronteira social, psicológica ou ética e não poupa ninguém, incluindo os da sua casta, arrogando-se o direito de decidir quem pode falar ou ser ouvido, o que pode dizer e como, e de que maneira se deve mostrar submisso e complacente. Para ter sucesso, não é preciso destruir o adversário, bastando rebaixá-lo, difamá-lo e desacreditá-lo publicamente, atacando-o ao mais pequeno (ou mesmo nenhum) pretexto ou sinal de fraqueza (ou até de coragem).

Mesmo quando a vítima da agressão verbal e não-verbal julga que está imune, o poder, a velocidade e a intensidade da intimidação penetram todas as suas defesas e desgastam-na ao longo do tempo – quando não de forma imediata – levando-a a questionar-se “como é que ele/a se atreve?” e “como é que eu permito isto?”. A este tsunami coercitivo e moralmente devastador, não escapam frequentemente amigos, familiares, colegas ou vizinhos da vítima, sobretudo quando as polémicas e ataques chegam às redes sociais.

Quando o desgaste emocional é grande e a resiliência fraca, os atingidos tendem a desenvolver um estado de agorafobia política que os leva a detestar ou afastar-se do espaço público presencial (aberto ou fechado) e mediático (meios tradicionais ou redes sociais), dos actos eleitorais e de qualquer tipo de relacionamento ou debate político. Deixa-se de ler, assistir, escutar e falar de política, remetendo-se ora à indiferença e passividade, ora à lamentação e maledicência, qualquer destas atitudes prejudicial à democracia.

Agorafobia: o medo ou aversão ao espaço público e suas interacções. Ilustração de Joel’sVoid

Muitas vezes praticado dentro de portas, para evitar testemunhas e possíveis responsabilidades sociais ou judiciais, o bullying político ocorre também no já referido espaço público, constituindo uma expressão de fascínio pelo poder de dominação e uma vontade de dar uma “lição” a quem tenha – ou possa vir a ter – a veleidade de ser ou de seguir o exemplo cívico ou político daqueles que são vistos como uma ameaça ao poder. Perigosamente, este comportamento tende a ser “normalizado”, passando a achar-se natural aquilo que era inicialmente estranho e criticado.

Ocorre também, frequentemente, um efeito paradoxal na mente preconceituosa dos apoiantes e na percepção vulnerável dos incautos: ao invés de ser vista como eticamente deplorável, a atitude intimidatória pode transmitir autenticidade, frontalidade, determinação e supremacia, gerando uma resposta conformista, submissa e de apoio reforçado ao “líder corajoso e poderoso” (“a autoridade é persuasiva”). Para estas audiências, o bullyingnão é defeito, é feitio”, ou seja, é visto não como uma desconformidade, mas como uma qualidade e, até, substância da acção política.

Mas não se pense que o assédio político assume sempre uma forma agressiva ou violenta, de ira, fúria ou irritação. Ele também recorre ao aliciamento e compra de fidelidades, à graçola vulgar, ao escárnio cínico, à zombaria javarda e à ridicularização arrogante, aproveitando a ambiguidade ou complexidade das situações, retirando afirmações do contexto, recorrendo a insinuações e processos de intenção, entre outras tácticas rasteiras. Em regra, os visados não têm possibilidade de responder e, quando têm, já foi feito o julgamento na praça pública e criada uma impressão falsa ou enviesada.

“Toda a actividade política deve servir e promover o bem da pessoa humana, e basear-se no respeito pela sua dignidade” – Papa Francisco, dirigindo-se ao Congresso dos EUA (2015)

Escrutinada ao detalhe a substância e a forma da argumentação da vítima, minada sem complacência a sua argumentação ética e epistemológica, atingido o coração da sua credibilidade e reputação, ocorre frequentemente uma profecia auto-realizadora (“eu não disse que ele/a era assim?!”) quando os atingidos revelam ou indiciam sinais de fraqueza, ou quando reagem no mesmo tom à agressão psicológica e social.

Quando a vítima tem a vontade e a capacidade de se virar contra o assediador, este procura tirar proveito da resposta daquela, fingindo ser ele a vítima e intensificando a perseguição e intimidação. Mas, se a vítima escolhe não responder aos ataques ou provocações, corre o risco de validá-los socialmente, confirmando a máxima de que “quem cala, consente”, ou de revelar fraqueza face ao agressor. Fica, portanto, numa situação dilemática e desconfortável “entre a espada e a parede”.

No domínio da comunicação social e do debate mediático, a intimidação começa com a tentativa de domínio e controlo dos meios e respectivos fornecedores de conteúdos, prosseguindo com os ataques intencionais à liberdade de imprensa e de expressão. Nas redes ou média sociais, são deliberada e intensivamente propagados tópicos de discussão que nada têm de inocentes e lançados exércitos de bots e trolls para atacar, desacreditar e intimidar quem se revela desalinhado e é considerado uma ameaça ao poder (ler a minha crónica “As redes sociais e as tropelias do poder”).

O poder autocrático procura controlar as redes sociais e utilizá-las contra quem pensa diferente e não se submete. Ilustração de Geoff McFetridge

Relativamente aos meios tradicionais, escreveu J.-M. Nobre-Correia, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, que “uma informação de qualidade constitui um elemento indispensável ao bom funcionamento de uma democracia” e que “a classe política deste país preferiria fazer a sua vidinha sem que jornalistas e jornais se metessem nela. Ou, dito de outro modo, sem que os cidadãos fossem minimamente informados do que se passa nas esferas do poder”.

Resta a questão de saber como enfrentar e pôr cobro ao bullying político. Por definição, ele ocorre na arena política e isso protege-o do sistema judicial (sabe-se bem como os políticos, quando querem usar um termo ofensivo contra os seus adversários, lhe acrescentam o qualificativo “político”…). Além disso, tratando-se da manifestação de opinião, ele abriga-se geralmente no princípio da liberdade de pensamento e expressão.

Por isso, é sobretudo no domínio do exercício dos direitos políticos e democráticos que o confronto se deve dar. Desde logo, apostando na antecipação e inoculação das audiências, preparando-as para interpretarem e censurarem as mensagens enviesadas e intimidatórias, qualquer que seja a sua forma – explícita ou implícita, agressiva ou escarnecedora, repulsiva ou aliciadora. Desta forma, consegue-se também marcar a agenda e influenciar o debate cívico e político, centrando-o nos assuntos e perspectivas que verdadeiramente interessam.

O bullying político deve ser publicamente denunciado pois, como afirmou Martin Luther King Jr., “As nossas vidas ficam condenadas quando permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam. […] No fim, recordaremos não as palavras dos nossos inimigos, mas o silêncio dos nossos amigos”.
Depois, reagindo rapidamente à agressão e intimidação verbal e não-verbal, bem como às manobras de diversão, evasão, desvirtuação ou vitimização, escolhendo a melhor forma de o fazer, nomeadamente para elevar o debate, recolocá-lo no plano do respeito e da tolerância e recentrá-lo naquilo que mais interessa aos cidadãos. No caso dos falsos argumentos ou acusações, importa responder com factos provados e devidamente contextualizados.

As redes ou meios sociais, se são usadas para veicular o bullying político, também podem (e devem) ser utilizadas para o impedir, denunciar e contrariar, sobretudo quando os canais tradicionais (imprensa, rádio ou televisão) estão dependentes e condicionados pelo poder político, impedindo ou dificultando o livre acesso e expressão de vozes contrárias, sejam elas de forças políticas minoritárias ou de simples cidadãos.

A ética cívica e política exigem que o debate e relacionamento públicos decorram com total fair-play democrático: máxima elevação e dignidade, absoluto respeito pessoal e institucional, e plena tolerância para com a diferença de ideias e opiniões. É essencial que os cidadãos tenham o discernimento e estejam atentos ao funcionamento das instituições políticas democráticas e às atitudes dos seus agentes e representantes, exigindo de todos os líderes e actores políticos um comportamento correcto e exemplar.

O assédio político, tal como o laboral ou familiar, é repugnante e inaceitável, sendo mesmo criminalizado por lei. Quando ocorre, não se pode ficar à espera que os repetidos actos de dominação, perseguição, desrespeito e intimidação cessem espontaneamente. Que o digam as vítimas de violência doméstica que escolheram o erro fatal de responder “Oh, querido, tu não querias fazer isso, pois não?”. É claro que o “querido” queria mesmo fazer isso e tratou de voltar a fazê-lo – com acrescida violência – por não ter sido travado a tempo.

*O autor opta por não seguir as regras do novo Acordo Ortográfico

PUB
APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser), através do IBAN PT50001800034049703402024 (conta da Médio Tejo Edições) ou usar o MB Way, com o telefone 962 393 324.

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here