“Êxtases e comida”, por Armando Fernandes

O escritor Bernard Shaw escreveu: “Não há amor mais sincero, do que o amor à comida”. A frase vem a propósito do papel de Santa Teresa de Jesus na concepção, confecção e apresentação dos comeres que as monjas preparavam nos conventos por ela fundados.

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Relativamente à cozinha conventual sustento a opinião de que é somatório dos conhecimentos de cada uma das freiras (normalmente provinham de casas de teres e haveres), do esforço e engenho das irmãs domésticas (serviçais), muitas delas criadas das irmãs coralistas, ainda da boa qualidade dos produtos cultivados e colhidos nas granjas, cercas e hortas de cada estabelecimento religioso.

Abundância de matérias-primas, tempo infindo a possibilitar repetições sobre repetições até dos fogões e dos fornos saírem o preparado sem mácula, trouxeram justa fama aos receituários conventuais (mais dos burgos) e monacais que concedem identidade, prestígio e lucro a inúmeras casas de comeres, e de fabricação de doçaria em Espanha e Portugal.

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As freiras eram obrigadas a preencherem o tempo orando, jejuando e executando os exercícios espirituais preconizados pelas regras de cada Ordem. Psicanalistas, psicólogos e investigadores da psique procuram perceber a génese de manifestações criativas de homens e mulheres cuja vida foi consagrada à meditação, mortificação e oração levando-as ao êxtase, sendo disso exemplo refulgente Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

Ora, se os receituários da cozinha conventual são matriz de preparos culinários bem harmonizados proporcionando gracioso prazer palatal, os referentes à pastelaria (ainda gozam de maior fama e, a torto e a direito, às vezes torpemente, outras de grande virtude) recriam-se as ditas cujas receitas, não sendo raro as mesmas serem rebaptizadas conforme o desejo ou interesse de quem pratica semelhantes acções.

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A vida conventual obedecia a rígida disciplina, os jejuns, macerações, orações prolongadas e cantos em consonância, necessariamente, levavam ao esgotamento, ao êxtase gozoso, inúmeras obras poéticas o confirmam. A sequência seria a consumação deliciosa através da ingestão de doces e lambiscos, especialmente nos dias festivos ou nomeados, porque o jejum suavizava-se ou em tais datas era abolido.

Se nos determos a analisar a enumeração das receitas vindas dos conventos penetramos num universo povoados de desejos, de despeitos, de saudades, de ironias, até de remordimentos e rancores.

Apenas no intuito de aguçar o interesse dos leitores pelo tema aduzo alguns exemplos disso mesmo. Façam o favor de anotar: arrepiados, barrigas de freira, barriguinhas de freira, beijinhos, bolos de amor, bolo real do Paraíso, coxas de freira, maçapão, manjar branco, mimos de freira, orelhas-de-abade, pingos de tocha, suspiros, queijinho do céu, queijinhos de hóstia, rabanadas da abadessa, raivas, raivinhas, sonhos de freira, toucinho da abadessa, tutano do céu.

Esta pálida amostra da nomenclatura dos doces conventuais reflecte engaiolado mundo circular onde viviam e morriam freiras e frades cujo normativo impunha uma calendarização do tempo bem diferente do calendário profano, as excepções expressavam-se, também, na doçura das guloseimas sólidas e líquidas.

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